quinta-feira, 20 de julho de 2017

Só o Esquecimento é Imortal




O tempo – das entidades relativas- seja talvez
o mais impiedoso carrasco de um poeta.
Heis a verdade: Teu verso imortal será jogado aos porcos
soterrado por toneladas e toneladas de escombros,
desdém e óvulos não fecundados.
Teu poema honesto e sincero acerca do amor
não tocará nunca o coração embrutecido da pós humanidade.
Luxuosos transatlânticos transformados em fantasmas de aço
alimentarão vermes com o papel apodrecido das suas bibliotecas.
O teu livro, aquele tão lindo em que narraste de forma quase mágica
a tua infância...enfim destruído.
Tuas pretensões adolescentes de tocar a face iluminada de Rimbaud
enquanto se masturba escondido na madrugada fria do espírito...
Aniquiladas sem a menor cerimônia por um cyberespaço débil e superlotado.
As tuas lutas políticas, o teu engajamento social através da arte,
mesmo as transas mais libertárias...Tudo suprimido
com a violência muda de uma sociedade tecnocrática.
A tua velhice, maldita e romântica gravada com grandeza
e invejável eloquência em um bloco de papel, tornar-se-a
não mais que um pequeno e insólito bloco de concreto estéril.
A tua morte, tantas vezes revisitada e pranteada pelos amigos mais próximos,
as possíveis homenagens, uma ex namorada já muito velha
amargando os horrores de um asilo, teu rosto ainda bem jovem
no sonho da pobre senhora...TUDO esmagado com o martelo pesado
de um justo deus tempo...

Por outro lado, será precisamente nessa hora,
 nessa partícula fracionada de um instante,
 impossível de ser definida ou observada
nem mesmo pelo telescópio nuclear mais avançado
que a tua alma, a tua sombra de alma
resquício final de uma existência quase insignificante
poderá enfim se libertar.

-Yuri Pospichil

domingo, 18 de junho de 2017


No espaço vazio (ab)surdo
Entre Beethoven e os Depeche Mode
A pornopoética rompe com a blindagem das agências bancárias
temperando com vidro um enorme prato de sopa... 

- Raskin

Thoreau bateu à minha porta.
Eram 3 da manhã de um lugar comum
Destes tão ordinários quanto
a própria realidade.
Trazia consigo um cesto de maçãs
vermelhas e na mão esquerda
um calhamaço mágico...Anárquico
me chamava para fora
para que eu visse com meu próprio
espírito sujo da fuligem industrial
uma enorme fogueira que ardia
alimentada pelas leis do capital.
Thoreau como um xamã
aniquilava toda produção inútil,
a fome e a servidão.
Fazendo-as curvarem diante
de seu olhar caudaloso.
Ao nosso redor relâmpagos
Iluminavam o interior do fumo
espesso da fogueira enquanto
a Terra gritava e os Rios, com violência
arrastavam suas amarras...
De costas coladas à parede de pedra
chorei, entre maravilhado e confuso.


- Raskin
Foto: Dado Braz

Toda violência de uma vida
gasta a servir aos mecanismos
sórdidos de uma prisão de almas que 
julgamos sociedade
Toda violência, tudo,
toda delinquência do espírito,
dos vícios, das manhãs em que
se acorda excitado sem que se ouse
despertar a esposa que dorme ao lado
Toda a ânsia de vômito, toda, tudo...
o sentir-se como merda na presença do patrão,
nem ódio nem revolta...só um desejo de voar
O corpo pequeno no ar, a densidade do espaço vazio
entre a passarela e o asfalto
Toda a amargura, icebergs árticos, mendigos
beatificados pelo sereno, o conhaque feito o
universo através das lentes de um
supertelescópionorteamericano...
Toda essa merda, tudo, toda
e ainda assim, nada...
nada que valha sequer 

um poema imortal

-Raskin

domingo, 22 de janeiro de 2017

Sonora



O mar, o mar suave
Doce mar suave como
o vinho da noite
Ondas de pequenos beijos
Sensuais ondas de caralhos
sobre o sexo escuro e triste
da faixa de areia
Loucas joias,
Joias salgadas
de imenso cordão submarino
Paixão embriagada
presa aos encantos
dos emaranhados
cabelos da sereia
Abrigo líquido
sob abóbada negra,
espelho da virgem
teus olhos 

- Raskin

sábado, 20 de agosto de 2016

A Cabeça Raspada de Maiakovski


De Maiakovski não trago mais
que a cabeça raspada
Só e tão somente isso
Solitário caminho
de quem nasceu para ser
razoável em quase tudo
Inútil para grandes conquistas
Imprestável para curas, químicas,
filosofias ou viagens espaciais
Só e tão somente isso
Um emprego simples
Um apartamento grande num bairro antigo
As alegrias mornas do proletario
Uma cerveja quase invisível
A loucura quase macabra
O pão e a faca
Talvez pequenos versos
escritos assim, como quem não quer
nem espera nada
Mas de Maiakovski mesmo,
não mais que uma cabeça raspada
- Raskin

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Malabarismos



Cruzo 
através do vermelho difuso 
das horrorosas sinaleiras
contrapostas
ao manto azul escuro
da noite precoce

(Sinto que a poética se aguça)

Caturritas gritam impropérios
do alto de seus coqueiros impostores
E no chão molhado
o reflexo de mil constelações de carne
hipnotizadas
aguardam impacientes
a contagem regressiva
nos mostradores de LED

Suas carcaças vazias
titubeiam tilintantes
por bulevares estéreis
onde assassinos sem libido
descontam frustrações
em enormes sanduíches 
de carne e de desolação

Ah, se meu coração 
não fosse essa pequena bola de plasma
e parasse de bater
nem que fosse por algumas horas
Com toda certeza 
descansaria minhas angústias
em um agradável banho Maria

(Mas ele insiste)

Ou...Ah, e se meu corpo
não fosse esse milagroso amontoado de átomos
e desmanchasse no espaço
nem que fosse por um instante?
Meu ônibus decolaria do asfalto
e as caturritas cagariam
na cabeça de deus
em explosivas gargalhadas

(Assim teria certeza de que tudo pode ficar um pouco mais leve &
 abraçaríamos o abraço que não existe)

- Raskin

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Acto Finale

Imagem: Jaroslaw Jasnikowsk
Sirenes anunciam
através do céu dourado
do final da tarde
querubins assépticos
em comitiva
vestindo jaquetas de couro
e óculos grandes
de escuridão universal
dois cães com cabeça de prata
abrem caminho
nos músculos cansados
do meu peito
apresentadores de TV choram
e rasgam as roupas ao vivo
no telejornal
deputados e sacerdotes
em transe
transam apaixonadamente
sobre leitos de dinheiro
o sectarismo e a ignorância
não enxergam limites
os gênios atravessam espelhos
e se rasgam em flagelo
implorando inútil perdão
à gangue angelical
Gabriel à direita
Azazel à esquerda do trono
com toda nação sob julgo do estrangeiro
a gargalhada de Abraxas ecoa
ao se deliciar
com o dramma bernesco
do apocalipse tupiniquim

 -Raskin

sexta-feira, 11 de março de 2016

Uma aranha

Na garganta  do poeta
      uma sufocante aranha negra
que desliza devagar, mas nem tanto...
      Um imenso exoesqueleto
aninhado na traqueia
      tecendo uma teia [que de tão longa]
alcançaria o inferno...

Uma escada,
um fio fino e frio
trazendo à tona
os antigos demônios da criação

-Raskin