terça-feira, 24 de julho de 2012

Bigode


Cabeça pequena
Beirando os 50
Fazendo esse trabalho que eu fiz com 18
Olho seu cabelo branco
A careca acentuada
O bigode
O caminhar apressado
Olho esse homem pequeno
Tentando manter a dignidade
Nesse emprego de merda
E de alguma forma
Eu sei que ele, assim como eu,
Também odeia esses cretinos
Olho esse bigode e tenho vontade de chorar
Mas os ônibus seguem passando
E entre eles talvez esteja o meu


Por: R. Raskin

O Zé e Eu



Estamos completamente chapados
Bebendo cerveja do lado de fora da festa
Está quente, mas nem tanto
A noite é boa para essas coisas
"Tu é todo torto, charolastra..." Ele me disse
"Por isso pega pouca mulher"
Replico que a diferença entre nós dois
Era que enquanto ele pegava três gatinhas
Que não lembrariam da cara dele no final da noite
Eu arranjaria uma que estaria me ligando daqui um mês.

Mas agora que estamos mais velhos
Eu percebo como fui um imbecil
Fiquei com as malucas depressivas
Que me ligam no meio da madrugada
Para falar de suicídio
Enquanto o Zé segue conseguindo
Um corpo novinho em folha todo fim de semana

Talvez seja por isso que me orgulho tanto da nossa amizade


Por. R. Raskin

A mosca mais gorda de Porto Alegre



É a velha mais feia que eu já vi
No restaurante mais sujo que eu já comi
Seus olhos caídos
Boiam em bolsas flácidas de pele
Logo acima das bochechas vermelhas

Ela mastiga e os dentes
Parecem querer fugir da boca enrugada
Tem o olhar perdido nas janelas imundas
Quando um pedaço de batata
Escapa dos lábios
E ela o apara com as mãos
Antes de devolvê-lo à dentadura dançante

As paredes engorduradas
Os vendedores de artesanato
Os Rastafaris
Os vagabundos
Os malandros batedores de carteira
Os talheres tortos
Todos eles dividem o mesmo espaço
Comem a mesma comida
E cagam no mesmo banheiro da velha boca murcha

A desgraça une os homens
Lhes tira o nojo
Os faz perceber que somos o mesmo monte de merda
Merda branca
Merda negra
Merda amarela
Merda mulata

Só a mosca merece destaque no meio disso tudo
Pois contei cinco pratos em que ela pousou antes de sair sem pagar a conta


Por: R. Raskin

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Batidas ou Poema para Bessie Smith



Me inundaram os ouvidos

E transbordaram 
pela boca
& pelos olhos
da direita para a esquerda
até as pontas de uns dedos 
trêmulos de mistério

Um blues vivo por toda parte
do meu corpo
feito um louco
chacoalhando ansioso
as batidas suadas 
da tua chegada

Teu rostinho tão pequeno
Teu choro tão fraquinho
Tudo bem menor que imaginei

- Ela é muito linda! [sussurrou Bessie Smith na minha cabeça]

- É perfeita! ... respondi


Por: Y.P.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Para Maria Luisa



Meu melhor poema
é um par de olhos brilhantes
e uma boca pequena

- Esse é meu melhor poema -
Em primavera,
perfume de açucena
exalado de incenso fino.

É Maria,
mãe de tudo que é mais belo e dourado.
Rima simples que o vento sussurra nos ouvidos 
quando a luz do sol, preguiçosa,
avança sobre o mundo.


- Esse é meu melhor poema -
Não o que escrevi, 
mas o que repousa agora no meu colo
nesse corpo de menina.




Por: R. Raskin





segunda-feira, 9 de julho de 2012

Sobre uma realidade não ordinária



Feito patas,
Minhas mãos cavaram este buraco
Onde inato e sem palavras;
Feliz por não ser homem,
Deitei minhas costas nuas
No úmido da terra

Contente por não ser leão,
Cão ou minhoca.
Satisfeito por ser parte
E não ser nada
Além de adubo fresco
Em noite profunda

Adormeci e
Mais do que isso,
Sonhei que nascia planta-homem-fera
Com raízes e ramos de folhinhas verde-escuro
Me saindo das pernas, cauda e costelas
Feliz por não ser mais homem, planta e nem fera
Porque era todos e fui todos em um só

Assumindo essa forma
Soprei um pouco de vida dos pulmões
E ela dançou para mim.
Mais feliz ainda por não precisar provar quem era

Simplesmente contente

Somente por saber dançar.


Por: Raskin



sexta-feira, 6 de julho de 2012

Mente Solta II



"Me recuso a confiar na experiência de quem nunca provou os antônimos."

- R. Raskin

Trechos



"Fuja das frases prontas e das fórmulas batidas, elas até podem te garantir algum prestígio, mas nunca a imortalidade. No fim das contas, quem importa é quem fica mesmo depois de não mais estar. O mundo é bem maior fora daqui, Raul. Bem maior."

(Conselho de Bacana para Raul em Noturnos - O Final em Dez Capítulos)

- R. Raskin

Mente Solta



"Me convenci que nascer todos os dias é a melhor maneira de escapar da morte;
Ao menos até o dia em que a vida decida me abortar."


- R. Raskin

quarta-feira, 4 de julho de 2012

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Passagens 2



Cinco e vinte da manhã, restavam apenas ele e eu na mesa, mal suportando o peso das cartas com a cara cheia de cerveja e remédio. Os outros dormiam exaustos do calor do fogão à lenha e das risadas iniciadas ainda pela tarde.
- Te ligou na última festa? - me perguntou com um sorriso safado no rosto. O cara era um desses tipos admiráveis, capaz de aproveitar o máximo das situações, vivia suas loucuras com muito mais responsabilidade do que qualquer outro que eu já havia conhecido, era realmente um dos bons.
- Depende. Ta falando do que? respondi.
Ele chegou mais perto e começou a falar baixinho enquanto se certificava que os outros continuavam dormindo.
- Quase comi ela ali no canto mesmo, ficou se fazendo mas acabou tocando uma pra mim.
- Que filho da puta, ela também agarrou meu pau quando eu passei no corredor.
- Eu sei, ela me falou. Disse que quer dar pra nós dois, vamos?
- Por mim ta beleza.
- Caralho, só de falar já fico de pau duro. Que puta, cara. Que puta.
- Segura a onda aí, comedor. Não querendo me comer também eu to dentro.

E rimos pra valer vendo aqueles raiozinhos azuis por toda parte e as quinas derretendo.
Mas era claro que não iríamos trepar com ela, no fundo existia uma certa decência de nossa parte em relação à mulheres comprometidas, mesmo com as mais safadas.


Por: Rimini Raskin

Respeito



Sou muito jovem para o respeito
Estudei muito pouco para o respeito
Respeitei quase nada para o respeito
Não estou pronto para a dignidade dos homens

Por: Rimini Raskin

Onde vive o poema



Existe um poema no fundo de toda garrafa
Em cada quilômetro de estrada
E em todo par de pernas
Sejam elas belas ou não

-Existe um poema-

Basta agarrá-lo


Por: Rimini Raskin