sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

Angústia

 

No templo de carne &

                          ossos

Imenso salão vazio onde repousa

um deus cansado das batalhas do

                                      cotidiano

passando a limpo sua coleção de derrotas 

desimportantes

Cego à necessidade de organização dos

seus exércitos carcomidos pelo

                                                        tempo

Total ausência de propósito no

corpo reumático que flutua pesado 

em um mar de subjetividades

                                       & abstrações

O amor como âncora imensa amarrada

aos tornozelos

fazendo enfim a caneta encontrar 

                                                ocupação

Até que se entenda

            com um pouco de sorte

que sorrir é também uma forma

de adiar a

própria morte

sábado, 18 de maio de 2024

Teu qorpo 

Syntese absurda

D'uma d'vyndade perphormatiqa

Rephletida em lâmina d'água... Q resta?

Lautréamont a morder 

- qom malicia pharmaceutiqa -

os qantos da tua boqa.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024


Margarida ama o mestre
Margarida fiel
Margarida desespero
Margarida choro de Maria
sobre a terra seca de Yerushalaim

O mestre louco
quarto 118
Ao lado Ivanuchka grita
para o pavor da gorda Praskóvia
Hegemon insone acaricia o cachorro
com a lua cheia de luz

Margarida bruxa
Margarida nua
Margarida graciosa no salão de baile
sorrindo nervosa ao assassino

Moscou arde sob a espada do estrangeiro
enquanto Behemoth e Korôviev zombeteiros
saqueiam o que lhes dá vontade
Azazello apenas cumpre sua função



O que me desperta fascínio
no ébrio habitual - é a ebriedade
talvez por essa minha dificuldade
de atrelar-me ao vício

Já o que me inquieta
na guerra - é essa vil gratuidade
Essa vil gratuidade em que todas as almas
em mercurial comércio - são trocadas em desleal escambo


segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

Natal

 

Uma sirene insistente

irrompe a noite

estraçalhando vidraças

e minúsculos ossos auditivos

Lou Reed bravamente 

se impõe - sem sucesso -

num duelo de facas

onde as lâminas ressoam

confusas 


- som visão e sabor -


Embriagado tudo parece maior

ou mais complexo

mais triste com certeza

Aqui ou em Nova Iorque

ela me narra sentimentos semelhantes

Estamos todos doentes

e é Natal e os terapeutas

complementam receitas


- pai filho e espírito santo -


Estar sozinho é muito  mais 

do que só uma opção


Segunda feira, vinte e 5 de dezembro de 2000 e vinte e três


segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

Uma casa sempre aberta

                                                

Despedi-me d’Ela
deitando flores ao chão
enquanto rogava em silêncio 
que encontrassem o caminho do rio.
Despedi-me d’Ela aos prantos. – EU –
Ela talvez já houvesse me deixado há muito tempo

- Despedindo-me retomaria enfim o corpo
ao tempo em que entregava a alma. -

Despedi-me d’Ela
tocando-lhe os seios e o sexo
que com doçura me alimentara por anos.
Já Ela tocou-me a face
me exigindo os olhos, a língua e a faca.
Um preço baixo, diria, 
para quem apresentou-me à vida
ao custo módico de um pesado desconforto social.

Com o braço firme ergueu a lâmina 
e pude sentir o gosto ao cortar-me a língua 
e o brilho ao vazar-me os olhos 
aos gritos de: COVARDE! 

Ensanguentado, tateei com a ponta dos dedos 
as paredes do quarto com a desculpa de encontrar a saída,
quando na verdade o que tentava, em vão
era guardar na pele a memória de uma casa aberta
com seus quadros vivos e prateleiras insones
por onde sangraram meus primeiros versos.

Despedi-me d’Ela. 
E tudo agora me pesa.
Menos quando sonho com pássaros
ou gatos enormes premeditando saltos
que nunca se cumprem antes do amanhecer



-Y.P.

Paraíso Perdido



Há uma letra de ouro marcada na porta do paraíso
Uma enorme letra cursiva, mental
Um caractere aberrante [de sentido confuso]
Simbologia de sonhos
um medonho pássaro  que engole as próprias tripas

Letra preciosa gravada na porta do que não existe
e que não existindo, se faz mais real do que nunca
do que o mundo, do que tudo que aspira um dia ser
                                                                      e ainda não é
Um Verbo morto
marca de fogo que já não queima
boca infinita que engole o mundo

Engrenagem humana que maquina o futuro
Uma máquina de ilusões maquiadas
apodrecendo na teia de aranha do tempo
que não vislumbra senão o fora de moda
das velhas adorações pessoais
o fascismo ecumênico
o genocídio
a esterilidade pela ignorância
o extermínio do que vibra
a morte do que vive

Letra [de ouro]
                      marcada com sangue
                                             na porta do paraíso



- Y.P.

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

Estranhezas

 

Arte: 

LA JUBILACION DE SÍSIFO Jose Ramon Diez Rebanal



I

Faz tanto tempo

minhas mãos frias

quase não conseguem

porque frias são também

                           as mãos dos que morrem

  &

eu sei que quase morri

aquele tipo de morte feia e pouco heroica

como qualquer outra morte possível

nesse planeta cada vez mais quente

        

     II


Foi por pouco, mas sobrevivi

                                    [eu acho]

Ainda que com as mãos mortas

e um coração sanguíneo 

                                     devorando galáxias

e sanduiches de frios

comprados em algum 

secos e molhados da infância

                                              [Consegui]

                                      Como Sísifo, enganei a morte

e agora tenho essa enorme pedra na alma 

para provar que não estou  mentindo


            III


Há uma nova realidade pós vida

com tanta coisa adormecida

que me pego andando nas pontas dos pés

no apartamento onde vivo

                                      - e nem assim obtive sucesso -

Algo acordou

um sentimento estranho em algum lugar

entre o cérebro e o estômago

                                        algo que ainda não nomeei

mas com força suficiente

para arrastar essas mãos glaciais

ao encontro de um poeminha sem jeito

escondido sob a grossa ferrugem do tempo


- Y.P.


quinta-feira, 8 de agosto de 2019


Bem aventurados os raros
os bardos
as hordas de selvagens corações
palpitantes na luz crepitante do mundo

Bem aventurados os poetas
os cometas
Bill Haley ou B.B. King masturbando
o clitóris elétrico de Lucille

Bem aventurados os vagabundos
em pele de lobo
o rombo o roubo ou a quebra
nas bolsas de Wall Street

Bem aventurada a gastrite
a ânsia
a foda perfeita ou o insuportável peso
de não aguentar ser feliz

Bem aventurada a aventura
a ternura
Whitman e seu anjo fraterno
chorando uma América esquecida

Bem aventurada a coragem
a amizade
selada num momento em que
o que sobra é só desolação

Bem aventurada a canção
a benção
a crença vazia e potente
no coração do absurdo

Bem aventurada seja
em face da mão fria da morte
a nossa solidão

- Raskin

Dedilha o cravo do tempo 
as mãos molhadas de inverno. 
Tuas juntas cansadas
seguram a pena
no leito de morte.
Mas poesia não é sobre isso.

Se perde tanto,
sobretudo tempo
na busca inútil
pela poética absoluta
contida nas coisas.

Quando de absoluto mesmo,
somente o nada.
Esse vazio cosmogelatinoso
que serve de ligação para a vida
no instante em que tudo mais 
se faz pequeno.

Por isso não esparrame, meu coração.
Não liquide teus segredos
em uma black friday pavorosa.
Usa tua retina de refletor e
compartilha tua película com os raros.

Tua pena pode até riscar a folha
de amor, de morte, de noite
Mas poesia é mais do que isso.

Paciência é coisa cara - chave -
treina.










Naquela porta
armário louco
dos cheiros da minha avó
guardado em potes e
panos de prato

- o pão -

Café com leite
derramado na terra
Coque minúsculo
feito beija flor estrambótico
mais rápido que o silêncio
Arcaicas verrugas ínfimas
órbitas cadavéricas
Crustáceos alquímicos
de magia absurda
Loucura indizível
saltando da cabecinha miúda
da velha,
uma sombra
um sonho
talvez uma carta que nunca escreveu
Uma sobra
um excesso
- talvez -
sonoros pardais
na porta de casa

- Raskin