terça-feira, 28 de setembro de 2010

A Ponte

Há algo errado, definitivamente alguma coisa morreu.
Me sinto desconfortável
e cada vez com menos vontade de fingir.

Não estou feliz, não suporto minha própria imagem,
Já não choro, não perco o sono e não sinto sequer a tristeza.
Estou dormente, gelado, cansado demais das mesmas coisas,
mesmas roupas e mesmas vozes.
Tornei-me sombra, cria do vazio.
Não há amor, nem ódio,
nem mesmo nuvem que esconda o sol.

Há amigos, uma familia desmoronando,
um trabalho que me faz querer morrer de tédio
e um album de sonhos antigos.
Não existe crise existencial e esse é o problema.
O que me deprime é saber quem sou, quem fui e o que tenho.
Já fui criança e não sinto falta,
já fui adolescente e quis crescer,

Agora sou adulto e não vejo diferença.
Fui o idiota mais esperto da turma
e mesmo assim de nada valeu.

Aproveitei os meios e conheci
os finais mais cedo do que queria.

Não serei levado à sério porque um dia quis assim.
Não serei levado à tona,
pois à ninguém interessa o meu naufrágio.

Todo esse mar de sentimentos de amizade
e meu coração segue razo,

Toda essa fogueira de amores e minha chama tão gelada.
Talvez me falte vontade, me falte paixão pela vida,
E antes que venham me falar sobre
o quanto todos gostam de mim,

Saibam que eu sei muito bem disso e agradeço.
Mas de uma forma ou de outra, já não vejo graça.
Tudo voltou às telas, às páginas e à imaginação,
As novidades se repetem,
as pessoas desvanecem, e mais do que isso,

Me tornei desinteressante à meus próprios olhos.
Talvez o problema nem seja o desânimo,
nem a tristeza e nem a saudade.

O que eu sinto é o vazio do olhar para o nada,
é o pensar à esmo e correr em vão.
Gritar por dentro para que não ouçam,
Gritar até ficar rouco e calar a alma.
Ver todos com tanta pressa e sentir vergonha
de pedir um abraço para alguém que talvez possa remendar
o filho da puta que fui a vida toda.
Mas peço que não tente entender, no fim não há culpados.
E as coisas acabam por retornar ao começo.

Por: Rimini Raskin


P.S.: O que me dá mais medo é saber que não tenho mais 16 anos e minhas mãos não tremem tanto!

sábado, 18 de setembro de 2010

Espera

É a ti, personificação de Helena,
Que de assalto capturou minha atenção com sorrisos alvos!
É a ti, exemplo do que é belo,
Que direciono hoje minha canção!

Ainda que me falte a coragem do jovem Paris,
Ponho-me a sonhar com teus cabelos que do sol,
como mágica, roubam o brilho.
E com a elegância de teu corpo, que qual Euterpe,
Fazes de ti um encanto à meus olhos mortais.

E talvez por capricho, os deuses cansados pelo tédio da imortalidade
Fazem de meu coração um tabuleiro.
Obrigam-me a sofrer por semanas essa dúvida.
Por medo de perder-te, busco-te até nos lugares mais improváveis,
Mas é como fantasma, tal como miragem,
Que tua presença se oculta sempre à minha procura.

Oh linda Helena, seriam os céus capazes de negar-me tua presença?
Seriam os deuses sádicos a este ponto?

Rogo à Khronos que se faça veloz, e nessa velocidade,
Me traga a surpresa de teu rosto à sorrir!


Por: Yuri Pospichil

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Extremo

"A simples idéia de poder ser tudo,
me basta para desejar o contrário.

E feito isso, me ponho à provar outra vez que sou capaz de ser
o que nenhum outro jamais ousou sonhar."

Por: Rimini Raskin


O Barqueiro

Despediu-se entre acenos emocionados
vindos do outro lado da cortina de transparência enfumaçada.
Achou divino apesar de tudo, afinal por que não estaria feliz?
E assim se foi, com moedas sobre os olhos,
um coração cansado a bordo do barco de Caronte.


Por: Rimini Raskin

A arte de fingir

A arte de fingir é tão mais difícil que a de falar a verdade,
que o ator se vê obrigado constantemente a revisar
seus gestos, falas e fantasias.

Pois até o menor tropeço, incongruência ou máscara partida,
tem o poder de denunciar o artista por detrás
das vestes brilhantes
e voz bem colocada.
Ao se denunciar o artista, o mesmo acaba por se revelar
homem de carne, finito, mortal.

Quase como se fosse, à um minuto, pássaro.
Para que logo depois, por culpa de um deslize,
cortem-lhe as asas e arranquem-lhe as penas

uma-a-uma em um ritual sádico e boçal.
Sendo assim, reinvoco minhas primeiras palavras:
A arte de fingir é infinitamente mais difícil que a de falar a verdade.
E por isso, ao ser carnal, parte morte e parte arte,
é que escrevo esses versos.

Cuida-te ao ceder a tua vida à esta prática,
pois corres o risco de que te sejas a última entrega.

Por: Rimini Raskin

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Quando a música já não faz tanto sentido

De repente seja verdade quando me falam
que caminhar ao lado é como andar para trás.

Que a música, as luzes, os remédios e o alcool

se tornaram nada mais que uma escada
para um lugar
tão vazio e triste quanto um coração de vidro.

Criamos nossa própria "Terra do Nunca".

Um lugar onde o tempo passa quando queremos que passe.
Um lugar onde não poçamos crescer
e a realidade
se molda conforme nossas vontades.

Por isso quebramos os espelhos,

para nunca mais vermos os efeitos que a natureza proporciona.

Fingimos que não existe ordem crescente para os números

E maquiamos o pavor da velhice com essa adolescência infinita.


"Nós somos a festa!" Não foi sempre assim?

Então porque o desejo desesperado de diversão todo fim de semana?


"A festa é infinita!" Será que acreditamos mesmo nisso?
Então porque o medo de ficar sozinhos em casa?


Até que ponto minhas palavras fazem sentido?
Não sei!
Até que ponto realmente acredito em tudo que escrevi?
Não faço a menor idéia.

Mas uma coisa há de se concordar!

Algo mudou, e não foi para melhor!



Por: Yuri Pospichil

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Canção para quem não está!




Não se engane caro amigo!
Existe loucura nessas linhas.
Há um pássaro ferido na janela que bate a cabeça contra o vidro.
Me olha com agonia de sangue,
Na verdade eu não ligo!
Ele não está alí afinal.

Poderia ter ficado admirando os círculos azuis que transbordam do copo,
Poderia pisar os degraus maleáveis,
Ter podido poder.
Mas não faço!
Eles não estão alí afinal.

Quer acreditar em algo verdadeiramente real?
Acredite na maldade humana, no veneno da língua
E na distância e no desejo de separação.
Desenhe vida com números mortos,
Basta crêr no que um dia chamaram normal!

Mas bem no fundo eu não vivo!
Pois não estou aqui afinal.



Por: Rimini Raskin

Continentes e Civilizações

As pessoas dizem que tão pouco nos conhecemos
E que, em verdade, nem sabemos o que sentimos
Elas não sabem onde estivemos nós
Que no reino de faraós passamos entre papiros
E vimos entre suspiros o nascer das pirâmides

Quantas vezes o mesmo amor contemporâneo
Cruzou o azul mediterrâneo em naves fenícias
Em busca das colônias pelos Jardins da Babilônia
Pela Pérsia, China e Macedônia
Entre gregos e romanos, entre hebreus e muçulmanos
Em nós, o mesmo ciúme, o mesmo perfume

E os menestréis pelas vielas velhas, amarelas, tão antigas
Levaram nossas cantigas no bojo de suas guitarras
Cantando como cigarras das Américas
Um novo mundo descoberto
Nos pampas, nos chars, no deserto, nos Andes

Enfim, em todo lugar, uma canção onde ressoar
Anunciando na voz dos sinos que somos quase deuses divinos
Que somos ternos e eternos, que somos Romeus e Julietas
E que por séculos e planetas sempre existiremos nós

E mesmo antes de civilizações,
Continentes, povos e nações
Nosso amor pelo mundo caminhou
Nosso amor pelo mundo caminhou


Por: Ronnie Von

Espelhos Quebrados


Sinto as nuvens de papel

Hoje um carro sobe ao céu

O sapato é de jornal

Mas o incenso é nacional


Vem sem saber se a cadeira vai morrer

De tédio, sozinha, sem você

Morrer de tédio, sozinha, sem você


O amarelo fica azul

E os habitantes vão pro sul

Sinto a vela se apagando

E os marcianos vem chegando


Vem me dizer se a cadeira vai morrer

De tédio, sozinha, sem você

Morrer de tédio, sozinha, sem você


Por: Ronnie Von

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Sobre a vida que faz mais do que existir

Sempre hão de existir flores mais belas, campos mais verdes e pássaros com melhor entonação.
Frutas mais doces, caminhos mais curtos e amores maiores hão de aflingir o coração.
Porque a vida é um exercício de procura e principalmente de experimentação.
Viver é entregar-se aos excessos pelo menos uma vez ao dia, aguçar o paladar com novos sabores, os olhos com belas imagens e a mente com novas sensações.
Viver é muito mais que manter-se saudável e equilibrado o tempo inteiro.
É buscar a perfeição com a consciência de que somos seres falhos e podemos sim nos permitir sentir raiva diante de certas situações.
Viver é descartar a falsa idéia de pecado e abnegar de doutrinas que recusam a vida.
Viver é ser natural, é sentir-se parte de tudo que é vivo, é aceitar o fato de que também somos animais e de que as coisas existem para serem experimentadas, provadas...VIVIDAS.
Sabendo disso me nego a simplesmente existir,
Pois não há amor mais puro que viver sem culpa e castigo.
Nem pecado mais sujo que negar o que é vivo.


Por: Rimini Raskin

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Sobre a paixão e seus doentes


Há nos amantes uma loucura sórdida.
Um amor pelo sofrer e uma propiciedade à dor gratuita.
Tornam-se mais apaixonados à medida que suas aflições aumentam.
Passam a não mais dormir noites completas, assumem poses ridículas, criam ilusões de posses e uma falsa idéia de que o mundo se encontra por completo no ser amado.
Alimentam-se de sobressaltos, adquirem a desconfiança e a fragilidade de pequenos cães que amam mais seus donos à medida que vão sendo maltratados.
Reside no coração apaixonado tudo de mais vergonhoso, tudo de mais infantil e digno de pena.
Os amantes não mais vivem suas próprias vidas, andam de um lado para o outro como zumbis paranóicos à imaginar os passos do objeto de adoração.
Acabam por terem a idade reduzida ao ponto de encabularem-se com palavras ou simplesmente a presença do ser que dá razão à sua existência.
Afastam-se do que realmente importa, perdem quase por completo a afeição por suas amizades, tornam-se fantoches nas mãos da pessoa amada.
Não existem senão pelo prazer de ganhar um pouco de atenção do ser à quem dedicam todas as suas forças.
A paixão é um perigo inevitável, um inimigo íntimo necessário.
Nos pega de assalto e derruba todas as defesas, é impossível percebê-la à tempo de derrotá-la,
não que devêssemos negá-la, mas deveríamos ao menos ganhar o direito de aceitá-la aos poucos.
Mas não, a paixão é um governo tirano e possessivo, não há como desobedecê-la sem pagar um preço alto, é um parasíta que nos mantêm refêns de suas vontades, um senhor de engenho que atira migalhas à seus escravos em troca de sorrisos débeis e servidão.
A paixão é cruel e ao mesmo tempo linda como uma manhã de inverno, aguça-nos o olfato, a memória e a visão, eleva ao êxtase ou reduz à quase-morte nossos batimentos cardíacos, é inevitável como disse antes, é bela, arrebatadora, opressiva, redentora, é um banho frio no inferno, a água quente no inverno, mentora mentirosa, falsa profeta do eterno, uma torturadora com o poder de permitir-nos amar ou afogar-nos na lama da decepção.
Não existe parecer racional quando se está apaixonado, não existe sequer a razão, consciência não combina com emoção, auto-controle torna-se uma piada, não existimos como unidade diante da paixão, nos tornamos cobaias nas mãos de um destino sem nenhum futuro aparente.
Por isso, amantes da paixão, é a vocês que venho por meio destas linhas fazer um alerta.

Com sorte encontrarás o amor, o verdadeiro sentimento, não a farsa da paixão.
Encontrarás a plenitude, o carinho sem posse, o olhar sem dor,
o sorriso sem medo e as noites de sono.
Do contrário, serás mais um à chorar os estragos causados por uma experiência que mais traz a fome do que a satisfação.


Por: Rimini Raskin

50 Receitas


...O que me dá raiva
São as flores
E os dias de sol.
São os seus beijos
E o que eu tinha
Sonhado prá nós.

São seus olhos e mãos
E seu abraço protetor.
É o que vai me faltar
O que fazer do meu amor?...


Por: Leoni/Frejat

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Linhas para uma musa morta!!



Vou jogar mais algumas linhas fora pra falar de ti.
Prometi não te dar mais espaço aqui no blog, mas dessa vez merece.
Tua idiotice é tão deprimente que chega a me comover.
Mas vou ser breve e direto.

Teu grande problema sempre foi a criatividade, ou melhor, a falta dela.
É uma boa atriz, preciso admitir, mas péssima em improvisos.
Fórmulas batidas e pensamentos previsíveis são a tua cara.
Queria poder voltar no tempo, para ser exato, 3 dias antes do teu showzinho de mal gosto.
Queria voltar e poder gravar o momento em que eu "cantava a pedra" do que aconteceria no final de semana.

Ráá!!

Fiquei até contente, tu não me decepsionou, fez exatamente o que eu esperava.
Mas brincou com coisa séria, com uma coisa muito maior que tuas vontades de criança mimada.
Me atingiu na hora, mas não fique tão contente, só tu perdeu no teu joguinho patético.

Por isso peço-te que não esqueça:

Sou fruto de experiências, lições, traumas e amores.
Sou argila moldável, então não reclame da forma como sou, você a criou!


Por: Yuri Pospichil

domingo, 1 de agosto de 2010

Não é nada

Não...não é conto nem poema.
Nem mesmo arte será.
É um desabafo, vou me permitir falar o que preciso, acho que já fiz isso antes aqui no Esqueleto, mas farei de novo.

Realmente não sei o que acontece comigo, onde fui parar?
Não me sinto mais o mesmo, onde está o Yuri que eu gostava de ser?
O cara de pau que eu construí durante todos esses anos? O cara engraçado sem medo de falar o que pensa, sem medo do fracasso, o cara do "foda-se" ligado?
Nada disso existe mais, e por que?

Só existe insegurança, medo e covardia diante de coisas tão idiotas.
É como se na vida "real" eu fosse o mergulhador que esqueceu o oxigênio.
Sempre preocupado em voltar para a superfície e por isso não cosegue ir mais fundo.

Que diabos está acontecendo comigo?

Eu não sou isso, não sou assim, então por que esses sentimentos ruins todo fim de noite?
Não quero voltar para os dias de "bolha e escudo"... eu superei isso...então por que essa droga toda agora?
"Tu é um cara super legal, Yuri. É sincero, é divertido, romântico de uma maneira toda tua!"
E dae?
Eu não quero ser legal, quero ser, quero estar, quero poder mudar quando quiser, sem pedir permissão, sem remorsos, sem medos....
Não lembro mais onde eu peguei a estrada errada, mas ela só tem me levado por uma direção oposta da que eu um dia quis ir.
E só agora eu começo a perceber que as placas estão todas erradas, sinais confuzos e semáforos sempre no amarelo.
Me tornei um ator sem público para o meu teatro.
Acho que o mundo mudou e eu fiquei pra trás, por teimosia, por apego a uma idéia que um dia pareceu nova. Sou um rocker falido, deixei a atitude morrer, estou vivendo no meio do muro, o melhor lugar para se levar uma pedrada e cair para o lado errado...ou pior ainda...levar pedradas e manter-se firme no alto desse muro de inseguranças.

Acho que não engano mais ninguém...
E pra um artista, nada pode ser mais triste!

Por: Yuri Pospichil

terça-feira, 13 de julho de 2010

Ode às mãos!


Há no corpo esguio uma graça,
Uma pose, um magnetismo lindo.
No rosto, na pele branca levemente avermelhada,
um mistério de beleza suave.
Mas nas mãos não há nada.
Não há nada que se explique em rimas,
nada que se conheça em palavras.
Pois nessas extremidades longas e elegantes
residem os encantos discretos do teu ser.
Por toques suaves, tocas o mundo
com teu charme francês
e pele macia de alvura européia.
Alegres são os olhos aos quais tuas mãos tapam.
E feliz, o rosto à que elas pertencem.


Por: Rimini Raskin












segunda-feira, 5 de julho de 2010

Sobre um passado no futuro


"Haverá um momento, no futuro, onde a presença não mais se fará presente.
É pra esse tempo que no peito trago um sentimento, e nele, todos vocês."

Por: Rimini Raskin

quinta-feira, 1 de julho de 2010

A beleza pela beleza!! [2]




Por: Esmir Filho

Cartas a Quem Possa Interessar IV



Em que poço terá eu caído? Terá eu me desviado do caminho? Caminho traçado por jovens que nada sabiam da vida. Uma vida dita de possibilidades infinitas e grandes conquistas.

Que potes de ouro encontraremos a final?
Diga que permanecerei aqui, curioso a vislumbrar tal tesouro.

Uma vida ou duas são poucas para aprender sobre o viver e existir. E, talvez, a primeira lição seja justamente a ausência da tentativa do aprendizado.

Classificando coisas? Que coisas criaremos para a classificação?

Nesses dias em que o vizinho dorme para o trabalhar, eu, como e durmo para o sonhar. E quando meus pensamentos se desvanecem no inútil, lembro-me que não há nada mais inútil do que o rotulamento da utilidade.

Em que poços cairemos sem a reinvenção do viver?

Palpite:

Talvez, nos mesmos poços em que grandes conquistadores naufragaram seus navios. Em uma terra quadrada onde o mar acaba em abismo, o universo gira ao nosso redor; onde somos donos de algo o qual nem mesmo sabemos explicar a procedência.

E certezas? Somente duas. A ignorância vem do homem. A sabedoria, do desconhecido.


segunda-feira, 28 de junho de 2010

Quando as linhas insistem


Não suporto olhar no espelho
E só enxergar o reflexo do ridículo do amor.
Os ciúmes, os calafrios, o mal estar das palavras engasgadas.
Mas também (e principalmente), a vergonha das frases ditas.

Sinto o que sinto por não ter mais o que sentir.
Veja que grande tolo eu sou!
Pois não sofro por te amar em demasia,
E sim por querer tão pouco à os demais.

Quantos finais podem existir em um sorriso?
Isso realmente não sei.
Mas versos à uma musa morna
É poesia jogada fora!


Por: Yuri Pospichil

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Desejos

Trago em mim o gosto pelo novo,
O desejo vivo, o anseio eterno.
Não procuro a dor gratuita, mas torno-a banquete
Para assim desfrutar o açúcar do seu sangue amargo.
Faço do açoite a punição perfeita para meus pecados
E purifico-me por teu amor pagão.

Caminho entre a imundície do mundo à buscar prazeres ainda intocados.
Não escolho-te por tua pintura, mas por teu rosto pintado.
É uma pose que desejo, o teu corpo de amanhecer.
O olhar que queima, as mãos que elevam ao renascer

Arrancaria tuas máscaras menos a última,
Para que nunca venha a sentir-se totalmente nua.
Quero-te anjo caído,
Um doce demônio de asas podadas.
Quero-te para o mundo...


...O meu mundo.


Por: Rimini Raskin

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Kidult

Sou aquele que construo todos os dias pelo prazer de destruir mais tarde.

Sou tudo que desejo.

O guri que fala sério e o amor que retorna ao zero.


Sou tudo que detesto.

O profissional de fala firme e o leigo que não se leva à sério.


Sou aquele que destruo todos os dias pelo prazer de construir mais tarde.



Sou à força!


Por: Yuri Pospichil

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Minhas melhores cores


Te imagino cercada por minha melhor moldura.
Coberta apenas por beijos e amores plenos.
E como me encantaria desenhar-te um sorriso
Enquanto dormes teu sono de rainha,
Só para depois apagar-te dos olhos as lágrimas
E pincelar sem medo, cores em teu coração.

Faria isso enquanto mergulho minhas mãos em tinta fresca
para marcar-te o corpo com carinho.
Terias de mim o meu melhor,
mas nunca a perfeição.
Te amaria como bom mortal que sou
E erraria para na cama lhe pedir perdão.

Te ajudaria a cuidar da casa
e manter as plantas sempre molhadas.
Por isso só peço-te que não demores,
Para que não acabe por encontrar apenas uma palheta com tinta seca
E um pintor de mãos cansadas.

Por: Rimini Raskin

domingo, 13 de junho de 2010

Olhares

O que te faz pensar que a noite não reserva um novo olhar?
Ou faz acreditar que os mesmos amigos já não podem ser mais uma surpresa?
Pois te digo que há uma forma toda especial de se amar o tempo,
Maneiras novas de voltarmos ao passado
E vontades de reinventarmos o futuro.


Nos vejo de mãos dadas pelas ruas,
Rimos e olhamos uns aos outros.
Somos partes incompletas de uma mesma vibração.

Fazemos do vinho uma fuga da singularidade fria.
Pedimos uma porção de fritas e cumprimentamos os novos amigos.
Que importa se suas amizades durem segundos, no máximo uma noite?

Existem planos para amanhã,
Relógios que despertam as 9 horas no domingo
E uma noite que terá ficado em um lugar especial da história.

Memórias que não apagam,
Momentos que se fazem eternos
E pessoas que se mostram indispensáveis,
Só reforçam o sentido
De verdadeiros laços de amizade.



Por: Rimini Raskin

terça-feira, 8 de junho de 2010

Fim



Lembro de estar carregando algo.
De estar sentindo calor.
Lembro de como teu rosto parecia perdido
enquanto todos diziam teu nome a sorrir.

Sempre me soou falso.
Mas contigo de repente a rebeldia era real.
Nos teus cabelos o cinema me saltava aos olhos.
E nos teus olhos buracos negros apontavam o vazio de uma alma química.

Me entreguei ao corpo que se entregava.
Partilhei da loucura doce de voltar a ter 15 anos.
Sujei-me de sangue, do meu e do teu sangue.
Lavei-me com lágrimas, as tuas, as minhas e dos anjos.

Escrevemos linhas convulsas,
Presenteamos um ao outro dores e incertezas.
Sorrimos, gargalhamos, transgredimos um mundo de regras.
Te perdi, te busquei e perdi de novo.
Nunca à tive, à mim mesmo sequer cheguei um dia à ter.

Dois personagens de um romance-dramático
Parte comédia, parte non-sense.
Mas olhe pra nós agora.
Quem somos?

NADA.

Nada além do que éramos.
Nada além do que fomos.
Andamos em círculos.
Cuidando um do outro à uma distância segura.
Correndo de volta sempre que a luz apagava.

Seria lindo se não doesse tanto.
Se as mágoas fossem esquecidas.
Mas olhe pra nós agora.
Quem somos?

TUDO.

Tudo que nunca quisemos ser.
Por isso me afasto de um corpo que afasta.
Te olho de uma distância maior.
Não seguro mais a tua mão.

ESCOLHAS.

São elas que decidem os rumos.
O tempo não concerta.
O tempo escorre,
E com ele nossos planos.

Sinto que posso ser melhor.
Sinto em ti uma tristeza que meu toque não cura.
Não há raiva.
Não existe paixão.
E o amor, bem, ele está tão cansado que decidiu dormir.

Só resta carinho por antigas fotos.
Não há pesar.
Não há culpados.
Não há o que não há.

Bem vinda de volta, minha vida.
Sorrisos me brindam.
Os amigos me chamam
E corações dispostos me aguardam.

Como uma parte minha que fostes,
Amo-te como deveria.
Só peço-te que fuja, Amélie.
Pois a solidão aguarda por aqueles que a perseguem.
E ainda espero te encontrar bem longe dela.


Por Yuri Pospichil

sábado, 5 de junho de 2010

Heroes


Eu, eu serei rei
E você, você será rainha
Embora nada os afaste de nós
Nós podemos vencê-los, ao menos por um dia
Nós podemos ser heróis, ao menos por um dia

E você, você pode ser egoísta
E eu, eu beberei o tempo todo
Por que somos amantes, isso é um fato
Sim, somos amantes, é isso e pronto

Embora nada venha a nos manter juntos
Nós poderíamos enganar o tempo, apenas por um dia
Nós podemos ser heróis, para todo o sempre
O que você acha?

Eu,
eu gostaria de poder nadar
Como os golfinhos
como os golfinhos nadam
Embora nada, nada nos mantenha juntos
Nós podemos vencê-los,
para todo o sempre
Oh! nós podemos ser heróis
ao menos por um dia

Eu,
eu serei rei
E você,
você será rainha
Embora
nada os afaste de nós
Nós podemos ser heróis,
apenas por um dia
Nós podemos ser nós mesmos,
ao menos por um dia

Eu,
eu me lembro de estar parado
encostado na parede.
As armas atiravam sobre nossas cabeças
E nos beijávamos,
como se nada pudesse cair,
E a vergonha, estava do lado de lá.
Oh nós podemos vencê-los
para todo o sempre
Então poderíamos ser heróis
ao menos por um dia
Nós podemos ser heróis
Nós podemos ser heróis
Nós podemos ser heróis
Ao menos por um dia

Nós podemos ser heróis
Não somos nada,
e nada nos ajudará
Talvez estejamos mentindo,
Então é melhor você não ficar
Mas nós poderíamos estar mais a salvo
Ao menos por um dia


Por: David Bowie

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Linhas Apenas


Talvez tenha sido ontem, ou será que foi hoje?
Quiçá amanhã tenha sido,
A manhã tenha tido
Ou a luz tenha feito
O que hoje se esquiva da cor.

Tento tocar-te e atravesso.
Olho através e ao avesso.
Faço o que à nada desejo,
E me entrego ao bocejo
Ao constatar no espelho a morte do amor.

Pois a noite me pego a pensar em coisas sem tempo,
Em mares sem vento
e barcos sem navegador.
Faço com que de tua ausência nasçam poemas,
Linhas apenas.
Curas inúteis de um ferimento sem dor.

O que tenho a dizer-te
É que com o tempo se aprende que só o nada é pra sempre.
E é por isso que te peço que cuide
Pois não existe paixão que não acabe
E MUITO MENOS,
Amor que não mude.


Por: Rimini Raskin


sexta-feira, 14 de maio de 2010

Canção para uma velhice indesejada



Tudo que toco, ao eterno leva um pouco de mim.
Bocas que beijo e mãos que aperto,
Eternas se fazem em momentos febris.

Há um "para sempre" escondido em cada segundo.
Um final anunciado em cada passada
E um "amor da minha vida" por metro quadrado.

Por isso tudo que toco, ao eterno leva um pouco de mim.
Para que em um futuro onde bocas e mãos me faltarem,
Me sobre memória da grama que um dia foi verde,
Da risada que um dia foi farta
E dos amigos que foram um dia, a paixão da minha vida.


Por: Rimini Raskin

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Gastura Felina

O equilíbrio entre o verde dos olhos e o contorno da boca,
Motiva um toque de estrelas em todo começo.
A delícia do meio e agora a doçura do fim,
Só me fazem sentir que nada é eterno.

De novo o novo outra vez.

Por isso, aqui deitados, corpo sobre corpo
O menos é mais e por isso me calo.
Porque falar quando tudo é tão simples?

Rápido como um suspiro
Doce como um gemido
E tão lindo quanto tua gastura felina!


Por: Rimini Raskin

domingo, 11 de abril de 2010

O Rei Menino


Todas as manhãs as palavras do menino soavam pelos corredores do castelo. Era impossível não acordar nervoso ouvindo os berros da criança.

- "NÃO QUERO CRESCER!" - Gritava o garoto.
- "EU ORDENO A TODOS PARA QUE NÃO PERMITAM QUE EU CRESÇA MAIS UM CENTÍMETRO!!"


Temerosos por seus empregos, os servos reviravam livros a procura de uma "cura" para seu pequeno senhor.
E assim o tempo passava e o menino repetia sua rotina insana de pular da cama e encostar-se em uma parede repleta de riscos que denunciavam o agravamento de sua terrível maldição.

Mandara chamar bruxos, magos e feiticeiros dos mais diversos cantos do mundo, porém amargou sempre a dor do fracasso.

Já não mais dormia, amaldiçoando o sono que o fazia crescer.

Quebrava espelhos ao constatar em seu corpo traços de homem e multiláva-se na esperança de impedir o processo.
Como um louco, passou a dar ordens à um castelo vazio e brincar com pestilentas ratazanas como se fossem dóceis cães de estimação.


Enquanto isso, o mundo lá fora mudava, mudava e crescia.

Decididamente não era um bom lugar para uma criança.

Por isso escondeu-se em seu quarto e pintou seu novo mundo com o próprio sangue, desenhava flores nas paredes e comandava seus exércitos de brinquedos quebrados.

Com o tempo as pessoas passaram a sentir pena do pobre Rei, lhe levavam comida e ofereciam ajuda, porém, nada conseguiam tirar do débil homem além de um sorriso e um convite para brincar.

Tornara-se uma lenda entre seu povo, um mito que despertava uma mistura de pena e compaixão entre os adultos.

Entre as crianças porém o sentimento era mais para um misto de admiração e curiosidade.

Eu era uma delas, escrevíamos redações na escola e até desenhávamos nosso ídolo no castelo.

Não era difícil vê-lo nas torres mais altas tentando capturar os pássaros, passava horas lá admirando a liberdade das aves e depois sorria e gritava como se tivesse ganho um novo brinquedo.

Por diversas vezes nos convidava para brincar, não íamos porque nossos pais proibiram, tinham medo de que pudesse ser perigoso.

O castelo era imundo, os vizinhos reclamavam dos ratos e escorpiões que invadiam as casas, mas ninguém era cruel ao ponto de tirar do pobre Rei a única coisa que lhe havia restado.


Lembro de acordar naquela manhã e ver todos sentados atônitos na frente da TV, um repórter jovem, visivelmente abalado dava a notícia que ninguém queria ouvir.


- "A cidade perdeu hoje seu cidadão mais querido. Morreu após uma queda de mais de 30 metros da torre de seu castelo."

- "Suicídio!" - Disseram os jornais.

- "Suicídio!" - Comentavam os adultos.


Porém, para mim...
...Tudo nunca passou de um menino Rei brincando de voar!


Por: Rimini Raskin

sexta-feira, 26 de março de 2010

Sobre um dia no futuro





Fazia frio e o ar entrava como facas nos pulmões dos poucos pedestres sem pressa.
O vento soprava melodias vintage pelas esquinas de arquitetura antiga e fazia a cidade ganhar um ar lúdico com suas árvores agitadas, praças semi desertas e meninas de roupas retrô e sorrisos que lutam contra o bater de queixo.
Os meninos de cabelo bagunçado levantavam a gola de seus pesados casacos, encolhiam o pescoço e enrolavam o cachecol ao redor da boca.
Os velhos jogavam damas nas mesas de pedra com suas boinas cinzentas e olhares de cobiça inocente ao verem passar as mocinhas da Andradas.
Quintana e Drummond, imortalizados os observavam soprar hálito quente entre as mãos na tentativa de não enferrujarem as juntas.
Não haviam muitos artistas na rua, a estátua viva não criara coragem de enfrentar o frio com tão pouca roupa, e o pintor, adoecido, ficara em casa naquele dia.
Se não fosse o músico a cidade estaria imóvel, e quem de fora olhasse poderia jurar que eram as melodias Dylianas que faziam as coisas pulsarem.

Violão, gaita e uma voz antiga.

Eram esses os três elementos necessários para embalar os sonhos da menina de olhar perdido e ar de forasteira.
O frio não a incomodava, pelo contrário, a fazia se sentir em um filme. Sorria e arrumava a franja enquanto cantava baixinho.
Não perceberia de forma alguma o menino que a observava à semanas tentando criar coragem para puxar conversa.

O vento frio soprava folhas pelos parques, estimulava conversas animadas nas rodas de mate e fazia a cidade ser tomada por uma deliciosa preguiça.
As pessoas caminhavam tão confiantes, sentindo-se ainda mais lindas com suas roupas quentes e gorros de lã.
A noite glacial enchia clubs e pubs de mods, indies e todas aquelas denominações rotulantes que as pessoas adoravam usar para suas próprias definições.
A menina do parque sempre estava entre eles, mas nunca com eles, porém sozinha tão pouco ficava, passava o tempo acompanhada dos próprios sonhos, montando diálogos e atuando como uma atriz do cotidiano.
Sabia que chamava atenção pela beleza, mas sabia também que ninguém ali era seu Romeo.
Tinha dificuldade de entender as pessoas, seus dilemas eram profundos, seu pensamento porém era muito simples.

-"Porque não entendem que não preciso de muito? Um piquenique no parque bastaria para me fazer feliz!!" - Assim dizia ela ao mundo que se negava a ouví-la.

Viera um dia do centro do país em busca dos sonhos no sul, queria ser uma estrela, fugir de tudo que conhecia, queria o novo com a mesma força com que amava o clássico e fazia dos dias seus ensaios para a fama.
Fruto de uma familia desestruturada, aprendera a ser independente desde muito cedo, orgulhava-se de ser quem era e da força que tinha, e talvez por isso era tão severa consigo mesma.
Queria ganhar o mundo, receber a atenção que lhe foi negada na infância e bem no fundo não passava de uma criança durona que buscou na arte uma forma de dissimular e esconder as próprias dores, fazendo sempre acreditarem que pertenciam à uma personagem e nunca à ela mesma.

Em uma tarde qualquer uma criança chorava alto, talvez na rua de trás, mas isso não importava, afinal, não conseguiria incomodar os pensamentos do guri da Cidade Baixa, escorado no para-peito oxidado do apartamento que dividia com os amigos.
Olhava a estética quase estática do inverno de Porto Alegre e sonhava com a garota da praça da Alfândega, fantasiava conversas e sorrisos para logo depois ficar se punindo por tanta covardia.
Filho de uma família liberal que sempre incentivou sua arte, cresceu menino de sonhos fartos e pouca estabilidade sentimental, fazia da dor combustível para sua poesia e das paixões impossíveis sua maldição.
Rodava os clubs em busca de material novo para suas linhas e de uma Julieta para preencher o buraco que trazia no peito, a primeira tarefa sempre fora disparado a mais simples, afinal, a noite sempre reservara dezenas de pessoas bêbadas dispostas a contar uma boa história.
Era despojado, nunca tivera problemas em se relacionar com estranhos, por isso se castigava tanto por não conseguir olhar a menina nos olhos e falar um simples "Olá".
Talvez fosse o fantasma dos natais passados fazendo questão de lembrá-lo sempre sobre seus fracassados relacionamentos anteriores.
Cerrou os olhos com força por alguns segundos e retornou a abrí-los, passou o cachecol ao redor do pescoço e correu rua abaixo.

O músico não demorou a montar seu arcaico equipamento de som no costumeiro ponto da praça. Sorriu e acenou com a cabeça para a menina de casaco branco que já o esperava para ouvir as mesmas três músicas serem tocadas repetidamente durante as próximas horas.

- "Dylan?" - Perguntou o homem.

Sorrindo a garota responde - "Sim, Hurricane."

As notas enchiam o ar de saudades de um tempo que talvez nunca tenha existido senão nos seus próprios sonhos. Cantando de olhos fechados o tempo voava como os pombos destemidos que catam pipoca entre os pés de passantes destraídos.
Submersa na melodia confortante da voz daquela estrela suburbana, a menina não notaria nada a sua volta, nem mesmo o garoto que sentava a seu lado e cantava em uníssono as palavras de protesto do velho Dylan.
Quando as cordas emudeceram seu coração disparou, e por algum motivo não pode abrir os olhos.

- "Oi!" Com voz embargada disse o menino, mal acreditando que estivesse fazendo o que fazia.

Ela abriu os olhos e sorriu, sem responder nada.
Ele, envergonhado, se desculpa e levanta para ir embora, sentindo-se o maior idiota do mundo.

- "Não...fica, por favor!" Disse com boca de sonho a menina da praça.
- "Eu sou a Joan, e você quem é?" Continuou ela.

Antes de receber uma resposta o violão volta a soar:
"Lay, lady, lay, lay across my big brass bed..."

Os dois juntos olham para o músico que sorri de volta.

- "Gabriel!"
Destraída a garota responde - "O quê?"
- "Meu nome. Meu nome é Gabriel, tu tinha perguntado."
- "Ah, claro, desculpa, sabe, adoro essa música, ela não te faz sonhar?"
- "Faz, sempre." - Responde Gabriel com sorriso de criança sem graça.
- "Eu não sou daqui, cheguei a 2 meses, sou de Brasilia."
- "Legal ... eu nunca saí de Porto, aqui é meu mundo. Tenho medo de ir pra Paris e ela não ser como eu imagino."

Joan ri e Gabriel completa com ar mais relaxado.

- "A frase não é minha, é daquele velhinho simpático sentado alí no banco batendo papo com o Drummond."

Joan continuava sorrindo com satisfação, contente pelo novo amigo, sentia-se quente, esquecera o frio que a fazia tremer até pouco tempo atrás, não poderia explicar o que sentia, satisfação talvez, mas não, era muito mais do que isso, era como estar pela primeira vez em contato com uma alma que a entendesse.
Porém rapidamente deixou os pensamentos de lado, seria precipitado demais confiar em um garoto que mesmo que timidamente, tentava impressionar.
Gabriel notou o semblante de Joan se tornando um pouco mais sério, mais distante, praticamente alheia a tudo o que o menino falava.

- "Falei alguma besteira?" Perguntou Gabriel constrangido.

- "Não!" Disse sorrindo, Joan.

- "É que eu tava pensando, desculpa...é que...você é a primeira pessoa que prende minha atenção. Bom, tirando o músico da praça, mas com ele é diferente." Continuou ela.

Gabriel não sabia se ficava contente ou preocupado com o comentário e então replicou.

- "Entendo, quer dizer, eu acho que entendo. Eu mesmo achava loucura ficar te olhando de longe durante as últimas semanas, não sabia porque tua presença me chamava tanta atenção."

Joan gargalhou para o desconcerto de Gabriel.

- "A quanto tempo você me olha aqui? Porque só agora veio falar comigo?"

- "Não sei, me faltava coragem."

- "E como encontrou coragem para vir hoje?"

- "É que hoje percebi o quanto sou infeliz, incompleto. Rodo as noites conversando com estranhos, tenho amigos ótimos em quem não posso confiar meus segredos e não tenho ninguém que consiga ao menos entender o que eu sinto."

- "E eu sou essa pessoa?" Perguntou Joan com cara de surpresa e vaidade.

- "Não sei.....mas se não viesse aqui hoje, nunca teria a chance de saber."

- "Mas porque eu? Existe tanta gente muito mais interessante na cidade, porque eu te faria ser alguém melhor?"

- "Nessa vida nada somos, todos sempre estamos, por isso precisava vir aqui hoje, não teria outra chance de tentar deixar de estar sozinho."

Joan sorria incrédula diante da sinceridade apaixonante de Gabriel, era como se a praça fosse um enorme palco para o espetáculo da paixão instantânea, um cenário digno de uma nouvelle vague de Truffaut, uma Paris imaginária, uma Nova York preguiçosa ou simplesmente uma Londres cenográfica.
Dois velhinhos observavam o casal a uma distância relativamente próxima, lembraram da juventude e se encheram de saudade de uma Porto Alegre onde as sereias da Rua da Praia usavam vestidos finos para impressionar os cavalheiros de terno cinza e chapéu de feltro que tomavam café e espiavam o movimento por sobre os jornais da manhã.
O músico também os acompanhava de forma discreta, cantarolava Mr. Tambourine Man e lembrava do grande amor que um dia deixara em Uruguaiana.

- "Acredita que pessoas possam se completar?" Indagou Joan.
- "Não sei, acho que podemos sempre somar."
- "Como assim somar?" Replicou a menina.
- "Somar...todos temos uma carga de vivências. Felicidades, tristezas, conquistas, frustrações. Podemos somar alguns de nossos conhecimentos, mas sempre vai caber a outra pessoa pegar apenas o que julga benéfico."
- "Concordo...falta essa ligação na nossa geração. Falta união, me sinto estranha por ser tão sozinha, por me achar caótica ao ponto de não aceitar praticamente ninguém na minha vida. Mas afinal, de quem é a culpa? Minha? Do mundo?...Já nem sei mais, mas sinto falta de me sentir parte de algo...ou de alguém."

Houve um silêncio entre os dois, apenas se olhavam, tentando talvez reconhecer na face alheia um passado em comum, ou pelo menos um futuro em que pudessem acreditar.
O vento soprou com mais força, jogando os cabelos de Joan sobre os olhos. Gabriel sentiu-se tentado a tocar seu rosto, ajeitar-lhe a franja...mas não o fez.
Baixou os olhos e buscou coragem para falar o que sentia, e novamente não fez.

-"Gabriel."
-"Oi."
-"Que houve? Ficou tão calado, sinto como se quisesse me dizer alguma coisa."
-"Não sei, não sei o que dizer, as tuas palavras me deixaram um pouco estático, surpreso de uma forma boa, mas sei lá...me fazem pensar em tanta coisa. Sabe...Qual o propósito de tudo isso?"
-"Tudo isso o que?"
-"De tudo isso...da vida, dos sentimentos, dessas angústias...das tuas dúvidas que são também minhas dúvidas...me sinto bem, aqui, conversando contigo, alheio de toda rotina estéril do mundo. Aqui, como em um conto de amor escrito por um aspirante a escritor. Sabe? Tipo, sem regras, sem preocupações estéticas...somos nós dois e essa praça...todo resto é cenário, todo o mundo é um set de gravação de algum romance non-sense."

A menina não sabia o que dizer, apenas sentia as palavras de Gabriel lhe tocarem em alguma parte do peito que a muito tempo ninguém ousara tocar. Flutuava em pensamentos novos, vontades novas de ser...de fazer.
Admirava o modo como o hálito do garoto virava fumaça em contato com o ar gelado do mundo.
Sentiu ganas de tocar-lhe o rosto...mas não fez.

-"Nunca ninguém conversou assim comigo...achei que pessoas assim, como você, só existiam em filmes."

Gabriel sorriu lisonjeado.

-"Não sou diferente de ninguém eu acho...é que ao contrário da maioria, acho que nós conseguimos derrubar o muro de hipocrisias que o mundo construiu ao nosso redor desde o nascimento. Não sinto medo de te contar o que eu penso, o que eu sinto e o modo como eu vejo tudo que nos cerca. Sei que não me achará louco, e se achar, será de uma forma admirável."

-"É...eu sinto o mesmo... e isso me assustaria se eu não estivesse me sentindo tão bem."

O garoto cerrou os olhos com força novamente, e outra vez voltou a abri-los.
Afastou os cabelos que o vento fizera cobrir os olhos da menina e tocou-lhe o rosto com ternura.
Joan estremeceu, fechou os olhos e se permitiu ser tocada.
Agarrou-lhe a mão e beijou-lhe a ponta dos dedos.
Deixaram com que seus rostos se tocassem, sentindo todo o calor que o frio do mundo os negara durante todo esse tempo.
Beijaram-se em toque longo e sutíl, quase como crianças, como se o primeiro fosse já o último beijo do resto de suas vidas.

O músico sorria com angústia, com saudade, e por isso tocou ainda mais lindamente para o casal da praça da Alfândega.
Os velhinhos riram e continuaram o jogo de damas com suas tampinhas de garrafa.
Não existia mais o frio, nem a dor e nem a solidão.
Não existia mais a dúvida, o vazio ou o desânimo.
Enterrados por aquele beijo, os problemas sufocavam no rio de lava incandescente que corria no peito.
E como em um conto bobo de amor escrito por aquele que projeta em linhas o próprio sonho, naquela tarde de inverno a vida sorriu.



Por: Rimini Raskin




"No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas que o vento não conseguiu levar:
um estribilho antigo

um carinho no momento preciso

o folhear de um livro de poemas

o cheiro que tinha um dia o próprio vento..."

Mário Quintana


Os Famosos e os Duendes da Morte

segunda-feira, 22 de março de 2010

My Baby


Em algum lugar, não muito longe de mim, existe uma estrela.
Ela brilha como fogo vivo e quando sorri até a noite se rende a sua luz.
Entristeço quando a vejo tão descrente do próprio brilho.
Entristeço tbm (e principalmente) por não estar mais perto, por não segurar sua mão ou falar frases bonitas ao pé do ouvido.

Existe uma atriz, my baby é como a chamo.
Ela é linda e tem luz como nenhuma outra.
A amo tanto que morreria se visse seu brilho se apagar.

Por isso:

"Não pare de sonhar estrelinha,
Pois teu nome está rodeado de lâmpadas em algum lugar do futuro!"



Por: Yuri Pospichil

domingo, 21 de março de 2010

Música que me faz sentir bem




Acordei cansado hoje.
Mas foi um bom cansaço.
Jack na sexta, banho de chuva e falta de ar na manhã de sábado.
Trabalho à tarde, dor nas pernas e garganta ferrada de tanto repetir as mesmas explicações.
K.Y.V. HOUSE à noite, caras cansadas, sinuca e drinks de abacaxi.

Mas o esquema é hoje.
Levantei com o Vitor me chamando e lembrando que eu precisava almoçar com meus avós.
Meio-dia...caramba...
Beijo na Kaory e tchau.

Mas é sobre hoje que quero falar.
Meu dia preferido.
O dia que acordei com a certeza de que poderia mandar o mundo para o inferno.

Não preciso agradar, não preciso sentir vergonha, não preciso me importar com porra nenhuma.
Foda-se esse mundo de monges, de gente padronizada, de "jovialidade medrosa".
De preconceitos babacas, de preocupações físicas, estéticas babacas, comportamentos controlados.
Falsas modernidades, libertinagens artificiais e liberdades limitadas.

Não sou o mais bonito, nem o mais inteligente muito menos o mais agradável.
Mas sou eu, e pra mim pouco importa teu corpo, teu rosto, tua forma de falar, de se vestir, o que me importa é gostar ou não de estar contigo e saber apreciar em ti o que me encanta.

Existem muros entre todos nós, é isso o que eu vejo, enormes muros de medos e preconceitos.
Grande geração a nossa...até a rebeldia foi padronizada, rebeldes estéticos, sem carinho, sem o menor valor.

...MENOS CONTATO...MENOS CONTATO...EU FALEI MENOS CONTATO...

...CONTATO NENHUM...

!Mas só tenho vocês!



Por: Yuri Pospichil

quinta-feira, 11 de março de 2010

Geração Inacabada


Somos uma geração de inacabados.
De incapazes de terminar o que quer que comecemos.
Crias de pais que nos mentiram quando disseram que poderiamos ser o que quiséssemos.

Nós não podemos!!!

só podemos ser nós mesmos.

Mas quem somos??

Temos tantas opções que preferimos nos esconder atrás de vontades de ser.
Acreditamos que não existe mais nada para ser criado e que só algo muito grande nos colocaria na história.
Odiamos o novo, por isso maquiamos o passado pondo-lhe novos nomes.
E acreditamos assim que nossa parte está feita.

Diante da dificuldade de criar, preferimos nos acomodar no velho, esperando a história entregar em nossas mãos o mapa para o caminho do futuro.

Não existe sorte, não existe evolução, não existe uma geração que não existe.

Que belo livro vazio daríamos.


Me pego pensando que meu pai com 25 anos já tinha uma carreira, casa própria, um casamento apaixonado e uma mulher grávida.


E eu? O que eu tenho?

22 anos, um emprego de salário razoável, pais que ainda ajudam a me bancar e amigos tão inacabados quanto eu; adolescentes sem consciência de que o tempo passou.
Talvez meus filhos, se eles existirem, salvarão o mundo que eu fiz questão de não ajudar a melhorar.
Nos criaram crianças egoístas e geniosas, donos de um mundo que nossos pais conquistaram... e por medo de estragá-lo, nos mantemos sentados esperando um sinal que nunca vêm.
Sabemos mais de filosofia, moda, música, cinema e história do que nossos pais....

E DAÍ??????

No que isso nos ajudou?
Continuamos nos achando caóticos incompreendidos, incapazes de nos sentirmos parte de alguma coisa.

Somos ridículos.

Apaixonados de coração razo e necessidade de sofrimento.

Não passamos de malditos hypes retrógrados e sem futuro.


Por: 
Rimini Raskin

domingo, 7 de março de 2010

Por Adentro


Este invierno de lluvia fina y ramas secas
Mira pa'dentro del pecho hasta tocarme a los huesos.

Por la ventana mojada miro a la calle en tu busca.
Personas que pasan y fantasmas tranquilos
Hacen la vida un tanto más bruta.

Del jardin llegan a mís oídos las risas de los niños
Que para el terror de sus mamás, molestan a los vecinos.
Saltan, gritan y desafian al mundo con sus pequeñas bravuras.
Miro a los pájaros y canto, canto, canto por la cura.

Me convierto en pan, vino y queso.
Me siento vivo, bueno y pleno.
Me regalo amores, me construyo a lejos.

Porque de Dios quedó el adiós.
Y de mí,
Quedó los sueños.


Por: Rimini Raskin

sexta-feira, 5 de março de 2010

Los Heraldos Negros



Hay golpes en la vida, tan fuertes... ¡Yo no sé!
Golpes como del odio de Dios; como si ante ellos,
la resaca de todo lo sufrido
se empozara en el alma... ¡Yo no sé!

Son pocos; pero son... Abren zanjas oscuras
en el rostro más fiero y en el lomo más fuerte.
Serán tal vez los potros de bárbaros Atilas;
o los heraldos negros que nos manda la Muerte.

Son las caídas hondas de los Cristos del alma
de alguna fe adorable que el Destino blasfema.
Esos golpes sangrientos son las crepitaciones
de algún pan que en la puerta del horno se nos quema.

Y el hombre... Pobre... ¡pobre! Vuelve los ojos, como
cuando por sobre el hombro nos llama una palmada;
vuelve los ojos locos, y todo lo vivido
se empoza, como charco de culpa, en la mirada.

Hay golpes en la vida, tan fuertes... ¡Yo no sé!


Por: César Vallejo


*Foto de uma das cenas do filme peruano Máncora, minha dica de cinema do dia, não esperem nada de novo do filme, mas para quem gosta de road movies latinos é um prato cheio, fotografia linda, trilha sonora ótima e uma mescla muito boa de liberdade e drama.