quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Assim sendo





Todos nascemos livres e assim o fomos por bem pouco tempo. Desde a primeira infância com as ordens dadas por adultos, que censuram e moldam nossa natureza à seus próprios ideais. Depois a adolescência, fase em que a consciência nos toma de assalto e que novamente nos moldam e podam com discursos de que não sabemos nada da vida e que tudo não passa de uma fase a ser superada, uma rebeldia sem causa. Mas tínhamos uma causa, nobre e infinita, retomar nossa natureza roubada. Selvagem e desregrada, mas sincera como as chuvas. Nos tornamos adultos, amadurecidos à força, descontando nossa frustração em nossos filhos, criando a nova geração de controlados e desacreditados intelectual e sentimentalmente. Partindo dessa idéia, fica fácil entender os avós que fazem todas as vontades dos netinhos, tudo não passa de remorso, uma maneira de compensar o dano que provocaram nos próprios filhos, que por consequência criticam sua forma de tratar os pequenos. Tudo não passa de um grande ciclo de frustração, vingança e arrependimento. Uma prisão de sentimentos que nos mantêm escravos à valores seculares, criados única e exclusivamente por mentes que pretendiam a criação do "homem rebanho", uma raça frágil e desequilibrada, as ovelhas que se permitem ao abate sem resistência. A saída seria, talvez, nunca perdermos a consciência do gigantismo de nossa pequenês. Sermos eternos deuses-crianças, donos de nossas verdades, soldados de nossa própria natureza.




Por: Rimini Raskin

Sobre o que não sei ao certo


"Perdemos um bocado de alma durante o percurso.
E não raramente, me pergunto onde foram parar determinados sentimentos.
Me esforço em lembrar e desejo com força!
Por vezes até acredito que certas partes de mim foram levadas embora no peito de outros.
E não há uma vez sequer em que não torça para estar enganado.
Para que um dia, quem sabe, as encontre no fundo de uma gaveta, 
intactas, 
esperando para serem resgatadas com um sorriso de "Ei, por onde andavas tu que a milênios não via?"

Por: Rimini Raskin

Conselho de um velho safado



Se vai tentar
siga em frente.

Senão, nem comece!
Isso pode significar perder namoradas
esposas, família, trabalho...e talvez a cabeça.

Pode significar ficar sem comer por dias,
Pode significar congelar em um parque,
Pode significar cadeia,
Pode significar caçoadas, desolação...

A desolação é o presente
O resto é uma prova de sua paciência,
do quanto realmente quis fazer
E farei, apesar do menosprezo
E será melhor que qualquer coisa que possa imaginar.

Se vai tentar,
Vá em frente.
Não há outro sentimento como este
Ficará sozinho com os Deuses
E as noites serão quentes
Levará a vida com um sorriso perfeito
É a única coisa que vale a pena.





Por: Charles Bukowski

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Talvez não seja por falta de coragem, mas alguns cães preferem a noite para se fazerem mais cães. Parte II


Toda noite a noite soa como deve soar. Mais ou menos como a voz do Lou Reed riscada com angústia química no banco do ônibus as três da madrugada. Na volta pra casa, no meio do nada. Mais ou menos como o velho bêbado que mal suporta o peso da própria desgraça sobre as pernas bambas de vodka barata. Garrafas são quebradas em um lugar mais próximo do que imagino. Gritos ao longe soam como animais em uma selva em busca de presas. Ou apenas como crianças celebrando os instintos mais sujos que a luz do dia sufoca. Prostitutas enfrentam o frio, esforçam-se para controlar o queixo que teima bater em desespero de abstinência e temperatura negativa. Não fossem as poças de lama e os caminhos de terra, talvez, apenas talvez, essas estradas me levassem à um lugar comum. Desejo cruzar a ponte, não por essa noite, mas por todas as noites que existiram antes dessa. Desejo olhar o rio engarrafado por dragas carregadas da areia suja que um dia construíram minha casa. A mesma sujeira que imundiciou minhas mãos e todos os corações dessa cidade imunda separada da vida pelo rio. Se canto, canto pela dor que o mundo constrói, pela fome de amor sadio, pela liberdade pintada no muro branco do bom cristão, pelo vizinho que chama a polícia, pela própria polícia chamada, pelas famílias quebradas e coladas com a durex dos bons costumes. Pela farça, pela sujeira maquiada no rosto das senhoras, pelos preconceitos velados na mesa de jantar. É por isso que cantava quando afinal caiu a noite no mundo e com ela a brutalidade dos desejos ocultos. Com ela os agentes secretos do pudor e do politicamente correto calaram. Com ela nasceu o pecado da língua. E o fogo que queima no peito do jovem transbordado e no velho cansado que descobriu cedo demais a própria moléstia. Com ela caiu o álcool e os cigarros. Caíram todos os que morreram cada dia mais e mais em uma jaula de trabalho. Caíram os poetas e os vagabundos. Caíram os bandidos sujos e os criminosos do pensar. Caiu toda nossa vergonha. Fizeram-se os cães escondidos na alma do cidadão comum. Lá fora a noite arde e quero também arder com ela. Com ou sem Lou Reed no banco do ônibus, com a voz que ativa a bomba dos meus irmãos abastados e bastardos de um pai que não seja o vício. Quero olhar no fundo dos olhos de quem me ignora e gargalhar de insanidade. Compensar todo esse vazio no peito de alguém disposto a me dar um cigarro, um copo ou o corpo. Preciso esquecer do dia de cão na calçada escolhida. Preciso voar. Longe de casa. Perto de mim. Preciso encontrar quem eu fui antes de terminar com as pernas fracas pela doença do final das horas.

Por: Rimini Raskin

domingo, 14 de agosto de 2011

Luxúria (Repostagem Corrigida)


Adoro-me quando não os escuto.
Embebido na ideia de que em uma mente sem consciência reside a melhor estrada para os sentidos.
Amo-me, especialmente quando o álcool guia meus passos entre todas essas silhuetas insinuantes de começo de noite e final de esperança.
E lá estão vocês, em perfeita oposição à tudo que me habita.
Não que isso nos importe, afinal, essa noite algo nos une, não é verdade?
Algo mais forte que qualquer diferença, e mais simples que qualquer desejo.

Adoro-os quando não os escuto. É sinal de que suas línguas estão ocupadas.
E se ainda não me escuto, é porque suas línguas estão ocupadas com a minha língua.
Peço-lhes que encarem o fato de que nossas mãos possuem um compromisso sagrado com nossos corpos, um laço de sangue e suor.
Assim, creio nunca ter desejado tanto não os escutar como nesta noite.

Juntem-se a mim na missão de não darmos nomes a nossos prazeres, socorram-me no caminho dos desejos onde não se limita o paraíso à apenas uma palavra.
Agarrem suas culpas pela garganta e guardem-nas para uma outra vida.
Percebam como estamos tremendo e permitam-se admirar a maravilhosa forma que o sorriso ganha no rosto de alguém que acabou de experimentar uma pequena morte.

Esqueçam as teorias sobre o céu e o inferno que lhes foram ensinadas na infância, esqueçam de tudo que não seja carne, saliva e sussurros.
Levem-me pela mão, acolham-me em seus braços, recebam-me em suas camas. Entrelacemos agora nossas pernas, tornemo-nos um.
Silêncio! Não os quero escutar. Calem minha boca com suas bocas e sintam!
Sintam como o universo se revela tão simples ao usufruirmos de toda arte que nos cerca.

Descubramos juntos que não há prazer maior que matar a sede de um corpo sedento. Não importa a sede, apenas matem-na. Por favor matem-na em mim.
E quando já estiver morta, lhes imploro que matem-na de uma nova morte sem fim. Purifiquem-me pelo desejo. Façam-me acordar ainda sentindo o gosto do pecado de suas peles.
Aprendamos juntos que não se pode queimar uma língua feita de fogo.
E fechemos os olhos acreditando que o amanhã se consumirá na revelação de um dia que jamais existiu.


Por: Rimini Raskin


sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Olfato


Olhar não quer,
Talvez não possa,
Mover quiçá,
De encontro à costa.

Há vida na espuma da onda,
Cheiro de sal, peixe e destino.
Popa, proa e castigo,

Há cheiro de amor...

...De amor e...

...De amor e só isso....




Por: Rimini Raskin


*Foto da fantástica fotógrafa americana, Mary Robinson.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

O peso de quem já tão leve aprendeu a voar


Estremeço diante destes olhos já quase cegos pela catarata que me observam sem olhar.
Sei que enxergam além de carne e ossos em um mundo de criaturas cujo alcance se limita à distâncias obtidas por meio de sentidos carnais, e isso é o que mais me atormenta e fascina nos dedos magros e atrofiados pelo reumatismo que em vão escondem muito mais do que só sujeira sob as unhas compridas e mal cuidadas. Transbordam histórias de amor e trabalho duro vivenciados em tempos onde minha existência sequer imaginava existir.
O corpo fraco que se assemelha a um embrulho de ossos frágeis e músculos ausentes recobertos por folhas de papel manteiga amarrotado me transtorna como um calafrio ao imaginar-me em um retrato futuro.
Quanto deve esta alma ter acreditado e se desiludido com os dias que traziam na bagagem a noite em ciclo doloroso?
E hoje, como em uma festa onde os convidados não receberam o convite, ela veste a melhor roupa da adolescência para erguer uma taça vazia em um caloroso brinde à solidão e à loucura.
Tudo isso sem sair do meu lado, de boca e olhos fechados, solitária neste banco de ônibus.


Por: Rimini Raskin


terça-feira, 9 de agosto de 2011

Talvez não seja por falta de coragem, mas alguns cães preferem a noite para se fazerem mais cães.



O álcool vermelho ainda repousa no fundo da taça quando minha cabeça maquina frases convulsas carregadas de significados disléxicos e ritmologias sintéticas de início de madrugada e fim de chama de vela; A última do pacote, a vela amarela, a luminosidade que acredito e credito como a do fim da vida. Em algum lugar alguém faz sexo sem paixão, outro se droga em uma cela que chama de sala onde um terceiro um dia usará para jantar. Vou até a sacada e a cidade inteira parece correr em fluxo interno. Sob os bueiros todo o resto da vida comum se arrasta em direção ao rio. Poderia ter te olhado uma última vez e não fiz. Uma sirene rompe o som sepulcral do silêncio dos moribundos, possivelmente um ataque do coração ou uma abordagem policial afim de manter a ordem no vazio. Suspiro e vejo minha alma virar fumaça em contato com o ar gelado da madrugada. De repente seja isso. Somos todos criaturas invisíveis esperando o inverno para nos tornarmos algo um pouco mais físico, para nos tornarmos carnais, ainda que intocáveis como o vapor. Hálitos de uma dor ainda maior. Os cachorros destrincham o lixo atirado nas ruas, brigam por nossas migalhas, um deles me olha e é como se lesse minhas aflições. Corre, corre com a força de quem foge da morte antes que a encontre nas rodas de um carro na próxima esquina. Volto para a mesa e bebo o vinho repousado. Lembro que alguns casais apelam para a ciência e geram seus filhos em um laboratório, dentro de uma pipeta. Comigo não é diferente. A embriaguez é minha cria, um filho in vitro que passei a vida lutando para que não se tornasse meu pai. O piso estala de frio, as coisas ganham ruídos surdos de desespero e por alguns instantes esqueci do toca discos girando no nada. Tocando a melodia secreta contida no espaço negro e liso e infinito que só os bêbados tem permissão de desfrutar. Não há comida no prato esmaltado sobre a mesa. Não há fome no corpo encostado sobre a mesa. Tão pouco há mesa senão um móvel encostado sobre. O toca discos me incomoda. Vendo meus olhos com a mão esquerda. Com a direita escolho um livro na prateleira branca de pés toscamente serrados. Escolho uma frase. A frase me escolhe.Nada me diz. Tudo me revela. E a vela que segue amarela me serve agora de lanterna para o segredo das luzes do alvorecer. Bebo um gole, e outro e mais um que assim como o primeiro também é um gole de sede e de necessidade paterna. Deito-me cansado, sem sono. Sem vontades de. Com desejos de muitos "ses" e "des" que nem o velho Hermann conseguiria explicar em um lobo que ao mesmo tempo são cem, mil. Com a cera desenho meu destino antes que o fogo abandone o corpo. No apartamento ao lado as crianças acordam. Imagino estarem revoltadas com a aula de sábado. Assim como na minha infância também a amaldiçoei. Meia garrafa e dois comprimidos de meio grama cada. Um cigarro amassado. O último. Um olhar apagado para a rua nublada de começo de vida. Não da minha. Mas daqueles que a ousaram enfrentar.


Por: Rimini Raskin

domingo, 7 de agosto de 2011

"O Diabo na Cabeça" de Bernard-Henri Lévy


Na sinopse original o livro é descrito como:


"A investigação sobre a vida misteriosa de um certo Benjamin C. revela uma complexa personalidade que reúne em sí todos os segredos e paixões da humanidade.

Bernard-Henri Lévy, eminente filósofo representante da nova geração de intelectuais franceses passa a romancista. E constrói uma trama fascinante que engloba mais de quarenta anos de tumultos e conflitos ao fim dos quais o diabo sempre vence. Usando como pano de fundo as maiores catástrofes do século atual (séc. XX) Lévy manipula em O Diabo na Cabeça personagens que são meros joguetes nas malhas da história."


Mas para mim o livro tem um significado ainda mais oculto e representativo. É o retrato de toda uma geração criada entre um furacão de novas idéias e tendências e a consequência poética, mas não menos catastrófica, que isso causou na geração do pós-guerra e que consequentemente alcançou à mim mesmo mais de quarenta anos depois.

As inquietudes e a rebeldia quase sempre intrínseca porém mal direcionada, ou direcionada a todos os lados, as fugas pela literatura, o cinema, a arte de vanguarda, os excessos e a auto-destruição iminente e frustrante, ainda que inocente.

Tudo isso é Benjamin C., tudo isso sou eu, e ao mesmo tempo não posso afirmar ou negar nada que nem mesmo meu próprio espírito refletiu e ainda reflete.

Os depoimentos de familiares e pessoas próximas, todos tão certos de sí mas tão falhos em relação à realidade do ser em questão.

As mentiras, as ideologias disfarçando o egoísmo pessoal, todo o falso romantismo dos atos que encantam os olhos alheios dispostos à uma aventura e igualmente suficientes para angariar inimigos que hoje olham com desdém para o objeto que já representou o motivo de seu ódio e inveja.

Sendo tudo isso coroado com um relato, também falho, do próprio Benjamim C., em uma carta onde para desatar nós sobre sua vida acaba por criar outros tantos.

Realmente uma obra a ser lida por todos que sentem dentro de sí a existência de uma força maior, um "diabo" que dita direções adversas e caóticas, muitas vezes até cruéis e de extremo egoísmo.

Mas que no fundo, não passam de consequências impostas à mentes que como diria Oscar Wilde "(nasceram para) Viver, enquanto a maioria apenas existe!


Por: Yuri Pospichil

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Sobre a Vulgaridade Sadia da Felicidade e a Tragédia Poética da Tristeza


Lembro bem do dia em que toda essa explicação acerca da vulgaridade sadia que pessoas felizes exprimem se desenrolou na minha mente. Era uma tarde, lembro bem desse fato pois estava em um ônibus que fazia a rota centro-bairro em Porto Alegre e sentia sono, sinais típicos de uma volta para casa após um dia de trabalho entediante e nada produtivo. Mas esses são detalhes, o fato que gostaria de narrar foi o que acabou dando origem a toda essa teoria (não que ela se baseie sobre um único acontecimento) e que acabou por elucidar algumas dúvidas e explicar certos comportamentos que me acometem desde que me dedico ao ofício de escrever. Pela janela minha visão se perdia entre carros que passavam lentamente quando enfim se livravam do engarrafamento, até que pousei minha atenção no canteiro central da Av. Assis Brasil onde uma moça muito jovem aproveitava a lentidão do trânsito para vender suas bergamotas aos motoristas cansados e estressados com tanta demora. E em meio a sorrisos, gritos, giros, pulos e danças despretensiosas, a jovem vendedora aproveitava para se divertir entre tanto caos urbano. Logo a cena mandou meu sono para bem longe e despertou o duende que liga os motores da imaginação. Seria possível tanta felicidade mesmo com toda essa bagunça de buzinas e fumaças negras que abandonam os escapamentos?
Logo depois pego-me olhando as expressões de outros passageiros que assim como eu acompanham a vendedora de bergamotas gritar sorrindo enquanto se diverte bailando nos espaços entre uma janela e outra dos automóveis.

- Quanta vulgaridade!
Comenta uma senhora para a amiga sentada ao lado.

Sinto ganas de rir, mas me contenho.
Afinal é isso! Isso é o que muitos não entendem e que eu mesmo não entendi por muito tempo, que toda felicidade é vulgar, irracional e finita como a chama de uma vela. Então por que perder tempo procurando explicações sobre as raízes do que nos deixa feliz? Por que continuamos com essa mania ridícula de querer explicar tudo o que nos acontece? Sempre guiados pelo medo da frustração, da decepção e da perda. E enquanto usamos nosso tempo para julgarmos a atitude alheia, a jovem que sorri e dança em pleno dia nos dá uma lição de como os bons sentimentos devem ser tratados. Não é o ato de dançar insinuantemente no meio da rua que desperta o julgamento amargo dos presentes, é a felicidade em estado puro que angustia e instiga a inveja naqueles que não se permitem apaixonar-se pela própria vida nem que seja por um instante. É bom ressaltar também que é sabido que até a paixão mais linda carrega em si uma carga grande de dores e aflições, nos eleva e rebaixa a níveis extremos, fazendo de nosso peito um canteiro de obras para um misto de magia, dúvidas e incertezas, por isso não confunda versos apaixonados com versos felizes. Obter profundidade e felicidade na mesma sentença é uma missão que enxergo em poucos pra não dizer em ninguém, e divido da opinião do velho Hemingway quando escreveu que encontrar felicidade nas pessoas inteligentes é uma das coisas mais raras que existem. Ver a felicidade escapar é o preço a ser pago por aqueles que param para pensar sobre os motivos ao invés de viverem com intensidade os momentos em que esse sentimento se faz presente.
Já em contra-partida a tudo isso temos a tragédia poética da tristeza, a profundidade filosófica da solidão dos homens, principais motivos pelos quais um escritor se sente tentado a escrever. É inegável o fato de que toda forma de arte baseada na loucura ou na sobriedade ou até mesmo nas angústias comuns ao ser humano recebe automaticamente mais atenção e credibilidade. Não só pelo fato de abordarem sensações e situações comuns a psyche transtornada, mas por realmente tratarem de temas com profundidade e grande relevância para aquele que procura explicações para suas dores. Eu escrevo melhor sobre a tristeza, escrevo mais honestamente quando estou triste e isso não é admitir incompetência senão aceitar o fato de que eu prefiro aproveitar meus momentos de felicidade para viver com mais intensidade. Talvez toda a inspiração e beleza que exista nas minhas linhas mais escuras, tristes e angustiadas, sejam frutos das experiências felizes a que me entreguei com verdadeira leveza e despretensão.
Mas não me entendam mal, não estou aqui defendendo o triste, apenas dissertando acerca de uma teoria que se aplica constantemente a minha vida e que se reflete no meu ato de escrever.
Acredito em linhas honestas, o que não quer dizer que devam ser reais. Ousar escrever sobre os sonhos é ousar escrever o destino. E mesmo que não consiga prevê-lo, é função do artista construir um futuro onde a imaginação ocupe um lugar de destaque.


Por: Rimini Raskin



Avec Tranquillité


O quanto devo eu ter esquecido durante tantos anos?
E quanto ainda devo lembrar do que me foi ensinado em tempos de que não me recordo?
O quanto realmente acredito em tudo isso?
E quanto deveria eu crer no que agora me ensinam?

Sinceramente, não sei.
Mas se há algo em que encontro certeza, é o fato de que ainda existe muito a ser feito.


Por: Rimini Raskin

sábado, 23 de julho de 2011

Para um peito menor que as aflições


Lembrai que não há noite que não possa conhecer a luz
ou luz que não sucumba ao peso da escuridão.
Lembrai também que nem todo tormento do peito é eterno,
assim como tão pouco o riso de infinito se veste nos momentos de celebração.
Pensar em si mesmo é questão de ser sábio e não um sinal de egoísmo.
Improvável e impossível só existem em um mundo de vontades fracas,
E toda força do universo reside no perímetro entre teu corpo e tua mente.
Não se trata de crença, culto ou religião...
Trata-se de sentir dentro de si uma força tão devastadora
que por vezes parece que vai nos destruir o peito.
Compreende-la e transforma-la em equilíbrio é tua meta.
Mas lembrai, principalmente, que para curar,
há primeiro que se conhecer a cura e aplica-la no próprio coração.

Por: Rimini Raskin

quarta-feira, 6 de julho de 2011

B.T. (música)


É diferente olhar o muro e já não ver vocês
Pisar as pedras de um caminho que já se desfez
O vento quente que anuncia a tempestade
Ainda sopra um relato do que aconteceu
E desenha as nossas formas na calçada
Esperando ouvir de novo os velhos planos
E todos os danos que ainda entre nós não se podia prever

Elvis cantando no rádio e um funeral
Outra garrafa de vinho até o nascer do sol
As fronteiras que cruzamos numa tarde
Com um mapa e a nossa imaginação
Escrevendo nossa história em toda madrugada
Esperando ouvir do outro os velhos sonhos
E todos os enganos que ainda entre nós não se podia crer

Tentar juntar o que sobrou
Da noite que do céu caía fogo no infinito
Lembrar é só o que restou
Depois de tudo que se viu, falou e foi escrito

Impossível não lembrar do que passou
Quando sozinho me pergunto como tudo isso acabou...

Nem fantasmas somos hoje
Nem fantasmas do que fomos


Por: Rimini Raskin





Porque existem coisas e pessoas que merecem ser lembradas!




sexta-feira, 24 de junho de 2011

Todo coração é uma célula revolucionária



Antes de mais nada peço que relembrem os tempos de escola, peço acima de tudo que relembrem o máximo de coisas que lhes foi ensinado durante os anos de suas formações. Façam esforço.
Depois de juntarem esses dados mentalmente respondam a si mesmos:

Quais dessas lições foram evidentemente úteis para sua vida prática ou formação intelectual?

Desde muito pequenos, desde muito antes da escola, desde muito antes de nossos pais e avós, temos sido manipulados e emburrecidos por um sistema de ensino religiosamente criado para a facilitação do controle mental. Desde muito tempo a visão e o discernimento são tratados como loucura ou genial loucura, não se enganem com o título de gênio, ele também foi criado para camuflar a verdadeira sanidade das palavras e da arte da maioria das mentes que ousaram enxergar através dessa cortina de fumaça criada com o propósito de disfarçar tanta sujeira e corrupção.
Cada vez mais os professores reclamam seus direitos por melhores salários, por melhores condições de trabalho, por um maior apoio à educação. Cada vez mais voltam de mãos abanando, esses mestres não são respeitados, eles não são valorizados, e por que? Pois mesmo que não me perguntem darei minha opinião. A grandessíssima maioria destes professores são crias do mesmo sistema que empurram goela abaixo em nossas crianças. Os que não o são, os que ousam pensar ao contrário e "alternativar" seus métodos de ensino acabam excluídos e sufocados por regras pré moldadas, regras que atam suas mãos e calam suas vozes. Ou seja, valem tanto quanto qualquer um de nós perante os olhos do "grande irmão"... NADA.
Longe de mim culpar os professores, se em algum momento você enxergar isso nessas linhas peço que pare de ler pois não entendeu nada. Nosso inimigo está mais acima, ele não tem um rosto comum, não tem um nome comum, são corporações, mentes em prol da miséria e da deseducação de seus "rebanhos humanos". Nos sugam, nos esmagam, nos amordaçam, nos mentem, nos matam. Em troco nos vendem entretenimento, uma TV com mil canais que repetem bobagens vinte e quatro horas por dia, estações que cospem inutilidades modais através das caixas de som e fones de ouvido de nossos aparelhos de rádio, tecnologias infinitas que nos separam em nome de uma suposta união.
Não temos culpa de fazer parte desse rebanho, não temos culpa de nunca termos tido a consciência necessária para perceber que o certo seria lutar, afinal não é culpado aquele que sente a injustiça mas não conhece o alvo a que deve direcionar o molotov.
Mas se você, assim como eu, cresceu sabendo que algo está terrivelmente errado nesse mundo e não buscou conhecer os hábitos, os planos, os crimes e o rosto daqueles que estão sufocando a vida e a liberdade, se você mesmo depois de todas as provas, de todas as mentiras que ouviu, de toda censura que experimentou, se mesmo assim não se convenceu da necessidade de revolta. Então você passa a ser um culpado. O pior dos tipos de culpado, o omisso, pior que o covarde, o covarde sente medo, você nem isso. O covarde pode lutar e um dia vencer esse medo, você sequer se digna a lutar por si mesmo.
Os antigos ideais estão sendo vendidos em lojas de departamento, desacreditaram a luta ao comercializar como moda o que um dia foram ideais de revolta. Não pensem que porque não funcionou a cinquenta anos atrás não irá funcionar agora também. O terreno mudou, as armas mudaram, mas as verdadeiras ideias ainda são as mesmas, principalmente o inimigo é o mesmo, um lobo sempre pronto a te abocanhar no primeiro momento de desatenção, pronto para esmagar sonhos e fazer piada de tudo que nos é mais valioso. Nossa integridade, nossa liberdade, nosso direito de governar para o bem.
Não riam quando lhes falarem sobre a censura de pensamento, sobre as policias secretas, sobre as conspirações e manipulações internacionais. Não chamem de coincidência ou de desastre toda essa pobreza, não sinta pena das crianças na África, no Haiti, na Indonésia, na America Latina. Não sinta pena dos discriminados e mortos ao redor do planeta, lute por eles, erga-se por eles, acorde por você mesmo.
Vim aqui para lhes avisar, não para convidá-los para uma seita ou qualquer outra forma de alienação. A resistência é opcional apesar de necessária. O que peço é que acordem e deem mais atenção a essa voz na sua cabeça e a esse aperto no coração. Um dia nem todos os antidepressivos poderão te curar da certeza de que algo está terrivelmente errado com o mundo.
Não é necessário comentar, não espero demonstrações de apoio ou reprovação, o que quero é que reflitam um pouco antes de voltarem para suas rotinas normais.
A guerra já começou, escolha um lado. E lembrem-se que se sozinhos parecemos fracos, juntos somos muitos para sermos derrotados.

"Todo coração é uma célula revolucionária."

Por: Rimini Raskin




terça-feira, 7 de junho de 2011

Bla bla bla



Vejo minha era tomada por falsos gênios.
Astutos o suficiente para convencer-lhe de coisas que já sabes.
Desconfiem de toda essa arte pronta, de toda essa beleza que se mostra verdadeira, de toda essa profundidade emocional.
Nada disso se chama arte ou verdade, são fatos apenas, tão profundos quanto um último gole de água esquecido em um copo.
Filósofos buscam explicações, não respondem questões já decifradas sobre o amor ou a solidão.
Poetas não se preocupam em vestir de seda cada um de seus poemas.
Pintores são capazes de criar beleza sem colocar um pingo de sentido nela.
Não deixem que esses malditos regrem a arte, não permitam que tabelem a beleza, não deixem esses papagaios pós-modernos colherem louros às custas de verdadeiros mestres.
Uma folha pode ser linda mesmo sem conhecermos a árvore ou os motivos que a levaram a cair.
Meus amigos, só peço que perguntem-se antes que o fim calce os sapatos, onde dormem os sonhos?


Por: Rimini Raskin

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Questões da Adolescência

Revirando cadernos e trabalhos de escola, me deparei com uma questão proposta por uma antiga professora de português. O ano não sei ao certo, provavelmente 2001/2002, mas achei que minha resposta merecia figurar aqui no Esqueleto. Enfim, segue abaixo a questão e a respectiva resposta dada por mim.


Agora imagine que você está com setenta anos de idade. Descreva como você estará com a sua saúde física, mental e espiritual; como estará o relacionamento com sua família, amigos e como será a sua vida financeira, se você ainda estará trabalhando. Escreva um mínimo de 30 linhas.


Acho que com setenta anos de idade eu não estarei mais vivo,
mas se estiver, viverei em uma casa aconchegante, recebendo uma bela aposentadoria,
solteiro, pai de três filhos e avô de cinco netos.
Farei exercícios diariamente para manter a forma física e viajarei regularmente
para conhecer novos lugares e pessoas.
Terei a mente muito aberta para opiniões e novas experiências,
manterei sempre a alegria e a força de vontade.
Tentarei dar o máximo de carinho à meus filhos e netos, criarei dois cachorros e
uma iguana de estimação; viverei sempre rodeado por boa música e boa arte em geral.
Estarei habituado à vida moderna mas não abrirei mão das coisas boas do passado, principalmente a música.
Tratarei minhas ex-mulheres como amigas, dando tudo que elas precisarem para viver, principalmente companheirismo .
Serei um bom conselheiro para meus filhos, mas nunca me meterei demais na vida deles, até porque devem fazer suas escolhas sozinhos.
Quanto a morte, não a temerei. Pois terei a consciência de que quando ela chegar
estarei preparado para aceitá-la.
Assim como aceitarei de uma forma mais positiva a morte dos outros.
Nunca deixarei a diversão de lado, e terei alguns velhos e bons amigos
prontos para fazer um churrasco e tomar uma cervejinha nos finais de semana.


Por: Yuri Pospichil


*Enfim, não é nada profundo, instigante ou filosófico... na verdade é bem engraçado (ao menos pra mim) me deparar com essas linhas tantos anos depois e ver o quanto os sonhos não mudaram mas a realidade sim.
Cito alguns pontos particularmente engraçados dessa resposta:

1- A certeza que me acompanha desde a infância de que não alcançarei a velhice com vida. (Mesmo admitindo que se alcançar, que seja para viver da melhor maneira possível).

2- A certeza de passar os últimos dias solteiro.

3- Na época que escrevi isso eu ainda me preocupava com a saúde e gostava de praticar exercícios físicos. (Hoje apenas faço caminhadas, para economizar o dinheiro do ônibus, diga-se de passagem).

3- Eu ainda sonhava em ter a iguana que sempre quis mas minha mãe nunca permitia. (Sozinho e velho ela não poderia mais proibir, então não custava nada colocar ela no meu futuro).

4- "Tratarei minhas ex-mulhere'S'..." Na época eu ainda era um guri relativamente bonito e namorador, nada mais normal que achar que isso continuaria pelo resto da minha vida. (Quando se é jovem acredita-se que as coisas vão levar muito tempo pra mudar...grande erro).

5- Notem como eu era um escritor rebelde, sequer respeitei a regra de escrever um mínimo de 30 linhas! (hahahaha)

O resto do texto ainda é uma constante na minha mente, acho que a essência não se perdeu, apenas fui sendo moldado pela vida.




segunda-feira, 30 de maio de 2011

Rotinas de quem não existe


É essa minha mania de achar noventa e cinco por cento da humanidade patética e entediante.
É esse meu costume de beber sentado, falar alto e rir sem motivos quando me divirto.
Minhas hipocrisias corriqueiras que renomeei para "crescimento".
É esse meu desapego ao ato de impressionar quem quer que seja.
De não fazer a barba todos os dias e falar pelos cotovelos quando meus ouvidos não se interessam por nenhum assunto que possa ser discutido pelos presentes.
É esse meu hábito de querer sair da estrada pela sensação de tentar chegar ao meu destino por caminhos que ainda não existem.
De não ser regrado, de não gostar de pressão, de responder atravessado, de ser debochado, de esquecer as datas e deixar tudo para a última hora.
Minhas fantasias de grandeza sempre carregadas de verdades incompletas.
Minhas mentiras frequentes, sempre usadas com o intuito de não ferir ou me ferir.
Poder ser e não querer, sonhar com a normalidade enquanto a maioria busca o diferencial.
De invejar o mais sujo e feio dos homens ao ponto de ser detestável mas nunca imperceptível aos sentidos daqueles que cruzarem meu caminho.

E tudo isso para depois dar uma risada e perceber que estou mais uma vez criando um personagem, que junto com outros tantos, um dia irá ser esquecido em um canto qualquer da minha memória.


Por: Rimini Raskin



terça-feira, 17 de maio de 2011

Antes de Mais Nada


Não, não te amo.
Tão pouco estou louco por ti.

Então por que deverias tu sentir-se feliz?

Pois respondo com a calma de uma tarde de sol,
Tu tens de mim coisa muito maior que o amor ou a loucura.
Isso outras antes de ti obtiveram e atiraram ao vento.

Tu não, contigo é diferente.
Tens minha paz e minhas mãos quentes em teu rosto.
Tens meu carinho e equilíbrio perante um futuro sem pressa.
O que já foi, se foi.
O que passou, passou.

Agora estamos juntos como imperfeitos que somos!


Por: Yuri Pospichil



A Luz Que Queima Nos Eleva ao Absurdo


Ele caminhou ao contrário das pernas
E assistiu morrer o sentimento ruim
E gritou tão alto que nenhum ouvido o escutaria.
Fez o silêncio da palavra ensurdecer a rua de pedras brancas
E viveu aquilo que ninguém nunca o havia negado
E saltou tão alto que as formigas olhariam suas patas para vê-lo voar.
Desprendeu-se da matéria morta que sufocava o espírito
E mergulhou em desertos tão imensos quanto grãos de soja
E praguejou amores impossíveis contra muros de seda.

Vivo como uma rocha milenar...
...Assistiu a história ser feita antes de rolar sobre o mundo.
Singelo como um olhar...
...Observou o horizonte dissipar-se sobre a palma da mão direita.

Era livre para não ter medo do que não existe
E assim o faria enquanto fosse possível!


Por: Rimini Raskin







segunda-feira, 2 de maio de 2011

Nanquim




Sou um Deus e trago em mim todas as possibilidades.

O rosto que esconde, o coração que omite, mãos que não tocam
E olhos que revelam mais do que deveriam, sou eu.
Alma aprisionada à vulgaridade da existência humana.
Um messias de porra nenhuma.
Rastejando na imundície da minha própria consciência
Para roubar inspiração de um emaranhado de memórias olfativas.

Sou um Dandy do fim do mundo.

Revelo meu nome à bocas vazias e me entrego à esses
Vermelhos baús de fechadura arrombada
Que guardam segredos mais afiados que as facas
De um assassino em série.

Sou o último Rei de uma terra sem rosto e sem raça.

Um ator, uma mentira e um poeta.
Ou todos eles juntos e ao contrário se assim desejar.
Um pássaro de neón azul exposto à luz de mil sóis.
A força de imaginar em silêncio.

Mas acima de tudo...

...Sou tua incapacidade de desmentir ou confirmar sequer uma vírgula deste texto.


Por: Rimini Raskin

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Vipassanā


Vendo um horizonte amplo
Pela moldura foco da janela.
Sentindo o cheiro da chuva
E o frio do vidro na ponta dos dedos.

Olho adiante e procuro sentido.
Entre a paisagem distorcida pela neblina
A certeza do que existe pela memória
E o medo continuo por não conseguir
Distinguir através da visão.
Tendo surtos por não entender o que é
Verdade entre abraços partidos
E vidas que tento convencer a fazer parte da minha.

A chuva distorce,
A bruma deixa misterioso o óbvio.
Só consigo pensar se hoje
Ainda consigo supor a chuva que me encantava na infância
Ou as mudanças de tempo previstas.
Minha cabeça vaga e divaga
Buscando o sentido do trivial.
Percebendo entre as lágrimas que escorrem pelo vidro
A dor e significado da minha própria tristeza e dúvidas.

Penso nos pontos finais precipitados,
Nas virgulas...
Quero voltar sem ter que dizer de onde vim.
Mas o que faço quando sinto tanto vazio num abraço?
Falta o que dizer e pronuncio palavras que não são minhas
Vendo o nada diante de uma janela difusa.
Me vem a mente apenas o calor de um abraço inesperado
Do você que desamarra os nós da minha garganta,
Da sua mão que recolhe meus pedaços e junta em algo melhor,
Do você que coloca no papel meus momentos surdos
E do carinho que me transforma.

Eventualmente tudo acaba,
mas se escrevo...continua.


Por: Fabíola Alcazzar

quinta-feira, 21 de abril de 2011

A METAMORFOSE DAS CRISÁLIDAS NÃO SE DÁ NESSA ÉPOCA DO ANO – TRATE DE SER FELIZ POR CONTA PRÓPRIA

Hoje é sexta-feira e falta ânimo para começar as coisas que já começaram. Três dedos de vinho flutuam dentro do copo. Ecos de um passado não tão distante impresso nas fotografias. Tudo o que penduro nas paredes é apenas um registro para sentir saudade. Mas não sinto. Os cafés tem sido absorvendo Thoreau e me surpreende a forma como certos pensamentos se popularizam a ponto de virarem pockets vendidos pela lpm na rodoviária de Passo Fundo. Se a busca for a ancestralidade, é quase certo que você terá algum público. Os malditos estão aí para atestar a ausência de dentes. Os pingos não cansam de escorregar entre as folhas do abacateiro e o som da natureza desperta em mim o tempo em que habitávamos as florestas. Eu devia ter visto Tio Boonme. De vez em quando o ruído forte de um ônibus espacial chega até os fundos desse apartamento colado no meio de uma grande capital, mas depois volta o silêncio. A maior das Américas. A melhor das Américas. Haveria grilos entre as folhagens do quintal se o urbanismo não tivesse aniquilado quase todos os reinos de pequeninos ecossistemas cabalísticos. Caberiam mundos no lado escuro da sombra das plantas. Xamanismo Urbano ou Fever Ray. É quase tudo a mesma coisa. Há uma festa microscópica e só nós não. Haverá ainda muitos dias em que todos deixarão a cidade, menos você. Só faça questão de ter algumas garrafas. Prepare-se para a abstinência decorrente de quando todos se vão. E para ser uma pessoa produtiva que entrega longos textos em prazos tão curtos. Aperte mãos de desconhecidos e deite na cama de quem não sabe o seu nome. Só não esqueça de tentar trazer de volta um resto daquilo que você foi antes de ser quem você é. Há todo um carnaval pela frente e nenhum de nós tem corpo para. Se ainda quiséssemos sair sozinhos. Se ainda nos iludíssemos com a beleza dos encontros que se dão ao acaso. Trabalhe sempre um pouco mais. Depois volte para casa ouvindo Band of Horses e jurando que vai gravar as coisas mais bonitas porque é noite de sexta feira e porque chove e porque sobraram ainda tantas garrafas de vinho e inspiração. Garrafas de vinho o bastante para fazer você escrever e gravar tudo o que você planeja há tanto tempo. Mas você chega em casa e o caderno de versos perde o sentido a cada repetição de frase: porque você quer falar isso? Corre-se o risco de jogar tudo fora: o que você quis dizer com isso? Descartar arquivos carregados de gravações. Se liberar espaço é o segredo da criação e a eternidade do artista é tentar capturar o presente, então pode ser que a generosidade do mesmo seja nunca lamber o próprio rabo.


Por: Ismael Caneppele

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Senhor de Estranhas Manias


Cativas minha alma
Cativas minhas palavras e pensamentos
Dom que quase nenhum outro possuiria
Cativas desejos por arte

Meu senhor de tardes tardias
Faz crescer em meu peito a esperança
Em dias onde reconheço a alegria
Não seria difícil amar-te

Cativas minha sorte
Cativantes palavras que eleva-me em seus momentos
Preso à mais ínfima sintonia
Cativante desejo de te ser fiel por morte

Senhor de estranhas manias
Faz-me forte ao ler teu brilho de criança
Dias que me pergunto por onde andarias
Não seria fácil perder-te:

Raio de sol que ilumina.
Fonte de energia que contemplo.
Parte de mim, seja sempre poesia,

viva,
pulsante,
por entre meus olhos
dedos,
dia-a-dia.


quarta-feira, 6 de abril de 2011

Em Miami o Horror é não dançar!

Vou fugir um pouco do padrão do Esqueleto nesta postagem.
Quem acompanha o blog sabe que raramente escrevo sobre uma ocasião especial, mas as vezes se faz necessário narrar certos acontecimentos.
Os australianos do Miami Horror (por isso o trocadilho infeliz do título) estão fazendo uma mini turnê pelo Brasil e Porto Alegre (mais especificamente o Porão do Beco; famosa casa de festas do underground da capital gaúcha) foi um dos destinos.
To explicando mas sinto estar fugindo do assunto em sí, por isso vou tentar ser mais dissertatívo e direto, apesar de estar etilicamente alterado.
O fato é, pela primeira vez na minha longa vida eu ganhei uma promoção que não fosse a do palito de picolé dando direito à outro Fruttare de limão.
Sem muita pretensão decidi responder uma pergunta qualquer no site sobre a banda e ganhei um ingresso pro show.
Fiquei feliz e um pouco decepcionado por não ter uma companhia que se motivasse a pagar R$ 60,00 para ver uma banda que apareceu "ontem".
Mas depois de pensar um pouco, liguei o "foda-se", tomei um banho, catei uma roupa qualquer e rumei para a AV. Independência.
Lá, as mesmas ruas, mesmas luzes e mesmas prostitutas continuavam nas mesmas esquinas que sempre passo quando quero beber e dançar ao som das pick ups dos meus DJs favoritos.
Não havia fila e apesar da demora em acharem meu nome na lista a espera foi muito pequena.
A banda que prometera entrar no palco até 22:30 hrs entrou as 23 hrs, o que pouco importa pra um desempregado sem pressa como eu.
Lá dentro começa a parte difícil de descrever, posso começar dizendo que estava bêbado depois das 3 cervejas que tomei logo de começo, talvez na esperança de me soltar e conseguir aproveitar sozinho algo que até então era um mistério.
Mas acabaram sendo inúteis, cada cerveja foi completamente inútil e desnecessária.
Ninguém precisa de álcool para dançar diante dos grooves espaciais e elegantes tocados pelos "oceânicos" do Miami Horror.
Entre curtas e carismáticas frases em português, a banda presenteou rítmo e deu uma aula de competência musical para os pouco mais de 300 espectadores.
"Baterias syncadas, teclados à lá French House, baixos groovados, guitarras ora funkeadas ora distorcidas e vocais impecáveis misturados com uma energia contagiante." - É assim que defino o show do Miami Horror afinal, a maior revelação da Austrália do final da década passada.
Me senti como se a banda estivesse tocando na minha festa de aniversário.
Mas agora chega, to bêbado e morrendo de sono em plena madrugada de quarta feira. Porém, animado por saber que irei dormir satisfeito por tudo que ví, ouví e dancei na noite passada!

Por: Yuri Pospichil

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Não existem abelhas na noite das agulhas

Me incomoda um pouco enxergar neste rosto velho um pouco de mim.
A fraqueza nas pernas magras e os tremores que ocasionalmente atingem as mãos com seus dedos curvados, me atordoam e fazem ter vontade de fugir.
Talvez devesse me sentir culpado por comover-me mais com uma vida que chega do que com essa que aos poucos se vai.
Afinal há uma parte da minha história deitada nesta cama, meu sangue, meu sobrenome.
Talvez devesse me sentir culpado por não sentir-me tocado por esses laços naturais.
As vezes penso nesses vinte e poucos anos que nos conhecemos, lembro de tantas histórias, a maioria da minha infância. Lembro de como gostava da chácara e me orgulhava de contar para meus amigos sobre a tua profissão. Mas penso também que nunca fomos próximos o suficiente. Nos respeitamos e temos carinho um pelo outro, é verdade. Mas não tenho convicção de afirmar um sentimento maior, e talvez devesse me sentir culpado por isso também.
Nunca pensei te ver assim, tão dependente.
Nunca imaginei ouvir esse sotaque tcheco-germânico soar tão fraco e melancólico.
Penso que deveria me sentir culpado mais uma vez por ser tão parecido com meu pai e não conseguir a sintonia necessária para amá-lo da forma como deveria.
Sinto que deixei de aprender muito e que também deixaste de ensinar um bocado.
Sinto falta dos carros velhos, das boinas cinzas e dos sapatos sujos de barro que deixavam minha mãe louca por sujar o tapete da sala.
Sinto falta das brincadeiras ao telefone, dos favos de mel e das abelhas.
Talvez devesse me sentir culpado por tudo isso...mas não me sinto!


Por: Yuri Pospichil

Fluxos Químicos Desordenados


Escute, um momento.

Tome essa chave.

Eu sei, parece bem pequena.

Mas abrirá aquela porta.


Todos os sonhos estão lá dentro.

Guardados em pequenos sacos de tecido
pintados com as cores da manhã
que essas angústias te fizeram esquecer.


Agora vá!


Por: Rimini Raskin

Sobre Nomes Impróprios e a Madrugada



As ausências me intrigam.

Me encantam.

Me consomem.

Fazem da minha carne um fantasma
refletido no canto inferior direito
do obsoleto tubo de imagens.

Não estou no que não existe...

Mesmo que estar valha tanto quanto
viver uma vida que também não é!

E se o telefone não toca?

Deveria ele ainda possuir esse nome?

...



Por: Rimini Raskin


terça-feira, 29 de março de 2011

Voltando pra casa, voltando pro nada



Não sei ao certo a dimensão dessas palavras ou o que elas poderão significar para quem as ler, mas sinto que escrevê-las aqui me tira um grande peso, o peso de ser quem sou.
Durante os últimos anos venho buscando afirmação externa, aceitações em massa e amores banais mas aparentemente necessários para uma vida um pouco mais "normal".
Longe de mim querer me incluir nesse rótulo pós-moderno de "alternativo, solitário e incompreendido", até porque ser triste não te faz melhor do que ninguém, pelo contrário, te faz ser triste apenas.
Mas o que realmente estou tentando dizer é que abrí mão de um bocado de alma para me ajustar à certos padrões (a maioria deles nada saudáveis, admito), que talvez suprissem o vazio que eu levo no peito. Um vazio que já tentei preencher com as mais variadas maneiras. Desde a mais revolucionária caridade e desejo de justiça social até o lirísmo pacifísta que teria o poder de salvar a existência por meio da beleza poética.
Todos as tentativas e personalidades eram reais, acreditei de verdade em cada uma das idéias, mesmo quando as intercalava com inconsequências etílicas e rock n' roll.
Todas elas foram frutos de uma época onde realmente nunca me amei, mas que conseguia me admirar e sentir um orgulho enorme sempre que me olhava no espelho, uma época onde me sentia deslocado e inútil por não defender uma causa maior.
Todas as paixões dessa época foram extremas, com nenhuma delas eu soube lidar de forma saudável e moderada. Nessas paixões incluo as amorosas também, todas inesquecíveis como cicatrizes de guerra e lindas como livros de história que deveriam ser usados muito mais para escrever o futuro.
Isso tudo passou, foi se moldando, adquirindo novas faces por conta de grandes desilusões, novas fugas foram sendo usadas, alívios sintéticos, sorrisos com prazo de validade de horas. O medo de ficar sozinho me arrastou para as multidões, no meio dela conheci e escolhi uma nova família, todos fugitivos como eu, todos com medo de ficarem sozinhos, com medo que a música parasse de tocar antes de estarem prontos para pararem de dançar.
Algum tempo se passou desde essa última mudança e parece que agora sinto a ressaca da grande embriaguez que foram esses anos.
Não apenas eu, minha família escolhida também compartilha dessa sensação de estranheza que cresce junto com os espaços entre os encontros, os muros crescendo entre todos nós, a música tocando baixinho no ambiente e as censuras que pouco a pouco dominam nossas relações.
Criamos imagens uns dos outros durante esses últimos anos, acreditamos que nada mudaria e que poderíamos fugir eternamente da velhice, da tristeza, das responsabilidades, dos silêncios e da solidão. Mentimos o tempo todo ao dizer que não nos sentíamos tristes e angustiados às vezes. Censurávamos a tristeza um do outro por medo de admitirmos a nossa, e hoje chegamos ao ponto de censurarmos até mesmo a alegria.
Passamos de uma família de crianças sem pais para uma familía com adultos demais ocupando a mesma casa. Não haveria problema nenhum nisso se não fosse o fato de não sabermos lidar com a vergonha que sentimos de nós mesmos e dos novos medos de parecermos ridículos e desajustados.
Medo de parecermos novamente os bastardos de coração mole que não precisavam de desculpas para trocar um abraço e um beijo sincero, que falavam besteiras sem trava e dançavam como malucos só para acreditar que lá fora era lá fora e aqui dentro ninguém poderia nos machucar.
O que mudou não foi o fato de ter aprendido a me amar, isso eu nunca aprendi, o que mudou foi o fato de não mais me sentir orgulhoso e não conseguir admirar a mim mesmo.
Tenho certeza que se alguns de vocês acabarem lendo essas linhas até o final, irão inevitavelmente me censurar.
Mas não sem antes refletir só um pouquinho e sentir medo da verdade que levam no peito.
Amo cada um de vocês, independente do que outras pessoas pensavam e pensam sobre nós, mas não posso jamais conviver com essas novas censuras enquanto todos fingem não saber o que foram.
Sinto necessidade de me encontrar novamente e medo de ser julgado por isso. Na verdade sempre sentí isso e durante anos escondi uma parte bem grande de mim por medo dessa censura.
Mas então quem é o censor agora? - Todos nós somos.
Só que cansei de abrir mão de demonstrar minha tristeza, minhas paixões, meu afeto e muitas das minhas idéias. Cansei de tentar me manter alegre o tempo todo para passar segurança e tranquilidade para todos nós. Até por que é sempre mais fácil viver quando estão todos sempre alegres, independentemente da veracidade do sorriso.
Sim, muitas vezes me sentí desconfortável e mentiroso.
Sim, muitas vezes odiei atitudes e palavras que saíam da boca de vocês.
Me sentí humilhado e acuado algumas vezes.
Sentí saudades do passado e de ser os muitos que fui antes de conhecê-los.
Mas acima de tudo, amei cada um da melhor forma que pude.
Seremos irmãos bastardos para o resto da vida.
Cheios de defeitos e manias terríveis, mas com uma ligação indescritível.
Espero que pelo menos entendam minhas atitudes daqui para frente, preciso recuperar meu orgulho próprio para quem sabe encontrar o amor que busco a tanto tempo.
Desejo que nosso maior medo nunca se realize e que nosso Rock n Roll seja cantado para sempre!


Por: Yuri Pospichil

quarta-feira, 23 de março de 2011

Passagem


A julgar pela janela fechada,
A porta trancada
E a luz quase nula.

A vida de outrora além de cansada
Mudara de estrada e partiu sem olhar.

E quando a noite chegava à um mundo em festa
Onde metade dormia e a outra cantava,
O morto-vivo com dias sonhava.

Mas não daqueles que a janela mostrava ou o som denuncia.
Eram dias de cor desbotada,
Com cheiro de livro e geladeira vazia.

E ao contrário do que todos pensavam,
Não tinha nada a ver com orgulho ou ser o que queria.

Era sobre carregar no peito uma busca e uma bússola
Que com teimosia apontavam o sul.

Por isso sentar-se em frente à sí mesmo
Não era opção ou tão pouco uma escolha.

Era a saída, a trilha de volta pra vida
Que a muito tempo o deixou.

Sendo assim...

Que assim seja...


Que assim seja...



Por: Rimini Raskin



terça-feira, 15 de março de 2011

About Candies and Searches (música)




In my dreams you make me fly,
And when i wake i feel the taste
Of your candies and spacial bikes.
So i turn to sleep again.

You are my soldier, soldier.
And i am your lover untill the end.

When the trees became our guides
we create our proper place.
With nights full of surprise
and colourful mistakes.

You are my brother, brother.
And i am your follower untill the end.


Por: Rimini Raskin