sexta-feira, 16 de março de 2012
terça-feira, 13 de março de 2012
Naquela linha o perigo não era o trem
Na garganta dos homens era graxa
Nas mãos dos meninos feito homens eram facas
artesanais
Era plástico quente e moinho
Nos corpos cansados
eram costelas quebradas
cortes, pontos e unhas arrancadas
Era água ácida arrancando a pele das mãos
Choro e cigarro
e pressa,
e pressa,
e pressa
Risadas para compensar
overdoses de remédio para aliviar
o caos organizado
Desacelere se não te derem luvas
E o frio da estanqueidade
O calor das soldas
e dos monstros de metal cuspindo lava negra
aconteceria algo
Eles não esperavam
e por isso aconteceria algo
Dos murmúrios surdos
haveriam aqueles para se impor
Para boicotar suas produções de coisas
produtos que nenhum de nós conseguiria comprar
Eles não acreditaram
Eram tantos sorrindo
que eles não acreditaram
Das revoltas de vestiário
nasciam as pausas
E quando o sol nascia pela janela
alguns sentiam o que eles não acreditaram
Das brincadeiras Chaplinianas
ao revezamento para tomar café
Eram tantos pensando
que eles não acreditaram
Não se enganem
não existia romance nesses dias
Não era bonito acordar cansado
ou sentir dores da manhã à noite
Nós víamos a dor
Mas para eles eram cestos vazios
Nós tentávamos alertar
Mas para eles eram números caídos
Um a um
sentamos à mesa
e despejamos o que queríamos
Mas não ouviram
e nos deixaram com tantas marcas
que nem mesmo eles poderiam um dia acreditar
Por: Rimini Raskin
segunda-feira, 12 de março de 2012
Ficaram Nas Pedras
Quando eu era mais jovem,
Quando o mundo era mais jovem,
Quando tudo já era velho
Mas mesmo assim
mais jovem
Do que um dia será...
Existia um cara,
ele parecia maluco
e tinha facas espalhadas pela casa
ao alcance das mãos
e até sob o travesseiro
Preparado para o que um dia sonhou acontecer...
E tinha outro cara,
Parecia doente
canelas finas e cabeça raspada
E ele não trabalhava
e já era bem mais velho que nós
Esperava por coisas que acreditava serem...
Iguais a eles existiam,
tanta gente existia
e tudo era mais jovem
menos as casas
que já eram velhas
e as pedras
que bebiam sangue dos dedos do pé
E todos esperavam por coisas que ainda seriam...
Até que o primeiro abriu mão das facas,
elas já não supriam a carência
e casou
Hoje mora em uma casa nova
na mesma rua velha de ontem
Talvez espere por algo que eu mesmo não sei...
Já o outro esperou até ir embora
e eu não sei depois
talvez trabalhe em algo,
Talvez todos trabalhem em algo que eu mesmo não sei
E é como se
mesmo os que ficaram
tenham ido embora há muito mais tempo do que eu consiga lembrar
Mas tudo isso foi antes...
Hoje seria loucura.
Por: Rimini Raskin
quinta-feira, 1 de março de 2012
Sleep: 60 min.
Tocam a campainha, já não sei que horas são. Mas é noite, eu sei porque olhei por uma fresta da cortina. Sei que é um pouco tarde, o mercadinho da esquina já fechou, posso enxergar daqui do quarto andar. Continua tocando, maldição. Deve ser algum vizinho, um testemunha de Jeová, talvez. Seja lá quem for, é insistente e acordou o cachorro do apartamento em frente. Talvez seja importante. Pode ser o sindico querendo me entregar a correspondência ou um policial para dar uma noticia de morte. Uma intimação, uma ordem de despejo, quem sabe. Não para de tocar e agora bate na porta. Deve ser sério, algo urgente, talvez alguém vindo informar que ganhei uma herança de um tio distante que não conheci. Talvez seja a mulher do apartamento ao lado querendo ajuda para consertar o chuveiro, ou uma velhinha precisando de uma xícara de açúcar. A campainha não para, e além de bater na porta, agora chama meu nome. - Tem uma voz agradável, lembra o timbre do Scott Walker – penso. Quem sabe possa ser um cobrador, aqueles malditos não perdoam dívidas de jogo, era questão de tempo até me acharem. Mas chamam por meu nome completo, meu nome de verdade, não podem ser os cobradores nem os agiotas. Talvez seja um amigo de infância que decidiu fazer uma visita e perguntar como me sinto. – Bobagem, não tenho mais amigos, ninguém do passado sabe que moro aqui. – refuto de imediato a ideia. Deu uma pausa. Acho que se foi. Mas não, merda. A campainha agora toca sem intervalos, o cidadão aperta e segura a chave fazendo o aparelho berrar a todo volume. Bate na porta com violência incitando a fúria do vira-latas que a essa hora já acordou o prédio inteiro. Me chama mais duas vezes e depois silêncio.
Ainda consigo escutar os passos pesados e irritados se distanciando no corredor.
– Que loucura, seria Jesus vestido de mendigo para testar minha fé? –
Por: Rimini Raskin
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
Já ví gente demais por uma noite
Sanidade é estar bêbado
correndo lomba acima
enquanto chovem garrafas ao redor
É rir sem controle
com o coração disparado
Frustrado por terem errado a pedrada
O negro correu primeiro
depois o polonês
Eu gritei de volta
e os carecas xingaram
antes de correr também
Do IAPI à
Av. Plínio Brasil Milano
Eram esses os dias
que me faziam
santo
Por: Rimini Raskin
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
Poema de boca cortada
Ele nunca vai poder reclamar,
falar que não sou um bom amigo.
Pode até não conversar mais comigo
ou me olhar na rua
Ele nunca vai poder duvidar
que ao menos fui sincero
que enquanto ele dormia ela passeava de calcinha na sala
sabendo que eu não dormia
Maldição de mulher,
me ligando enquanto ele estava no trabalho
e eu não querendo estragar nada
eu não
Me mandou um bilhete uma vez
A irmã entregou
A irmã que eu já conhecia bem
Mas eu não
Caralho, não quero saber se os dois não dormem na mesma cama
Eu não
Mas ele sim
me acorda no meio da noite,
quer conversar
falar que já sabe de tudo
Que mandou ela embora
Por que eu não contei nada?
Eu não...
A mulher não é minha
mesmo que tenha vindo bater na minha porta na noite seguinte,
dormido comigo em um sofá velho
ou dividido um quarto com o papa-léguas e a namorada estranha dele
Depois de um tempo eles voltaram
Mas eu não
Eu acabei gostando dela
das mentiras e das vontades de ser o que eu já era
A questão não é quem somos
Era quem eu representava
Eu era o desapego
o anti-amor bêbado
trazendo a aurora com as costas e os joelhos queimados do carpete
enquanto ela vestia minha camisa e gozava pedindo perdão
Não vou mentir
que a situação me divertia,
Mas isso antes da merda da consciência me acertar em cheio na cabeça
e eu deixar de ser fiel ao meus desejos
Creio que ele não deva me odiar,
mas se pergunta
eu também me perguntei várias vezes.
Sei que deveria,
que poderia ter contado no início
mas eu não...
E quando, depois de tudo,
for 3:40 da manhã no futuro,
eu estarei pensando pela última vez,
que aquele presente merecia silêncio
e uma boca cortada na borda do meu copo de vinho...
Por: Rimini Raskin
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
Uma coisa é simples, uma tinha cheiro, a outra não
Ela bateu na porta do meu quarto
Não lembro que horas eram,
Deixaram ela entrar.
Roupas de loja de conveniência
Um pouco largas no corpo magro
De peitos pequenos
De cabelo curto e uma carteira de cigarro no bolso
De desejo pré festa
De colchão no chão para não ranger a cama de ferro
Os ônibus na madrugada
não são muitos
Carregam poucos, extraviados ainda cedo
Embebedados por antecedência
Eu não conheço a festa, ela tão pouco
Quem leva é um amigo, quem convida é ele
Quem nos coloca na fila e cumprimenta o travesti na porta
A música é péssima,
A cocaína no banheiro unisex
é uma droga
A velha que tenta me vender pastilhas
é uma droga
Mas a pequena é quem eu escolhi para passar esse aniversário
Me esforço por ela que se esforça por ele
Mais tarde vou ganhar meu presente
No banheiro nojento
Sem papel
De chão escuro e grudento
E as portas não tem tranca
E alguém nos espia
E nos pede para entrar
Mas eu não deixo
é meu presente
O amigo deve estar no darkroom
Com um cara baixo e forte que ele viu na pista
Vejo uma vizinha no sofá com um cara
Me olha com cumplicidade
e tesão de reconhecer alguém
A música realmente é uma droga
O filme pornô no telão
é uma droga
A dançarina gostosa
é uma droga
Minha namorada ligando a noite inteira
é uma droga
Não gosto que encostem em mim
Nem quando aceito comprar água
para o cara passando mal,
pastilhado demais
talvez
Ela passou na porta por mim.
Linda, quase uma criança
Mas aqui dentro ela não é
Não tem peitos
Fico bêbado com cerveja cara
volto pra casa que não é minha
É do amigo
E ela dorme no meio
até eu acordar
É meu aniversário e estou de mau humor
Com as costas arranhadas
Uma namorada chorona que não entenderia
Que não era com ela que eu passaria a noite passada
que não era com outra senão aquela
de ontem
Hoje eu sou dela
E a outra me liga chorando
reclama que fui um cretino na pizzaria mais cedo,
que me odeia...
Por: Rimini Raskin
domingo, 26 de fevereiro de 2012
A Condição
pelas avenidas
as pessoas sofrem;
elas sofrem a dormir, elas acordam
a sofrer;
até os edifícios sofrem,
as pontes
as flores sofrem
e não há salvação –
o sofrimento senta-se
o sofrimento paira
o sofrimento espera
o sofrimento é.
não perguntem por que há
bêbados
drogados
suicidas
a música é má
e o amor
e o argumento:
agora este lugar
enquanto escrevo isto
ou enquanto lês isto:
agora é o teu lugar.
Por: Charles Bukowski
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
PEDAÇOS DE UM CADERNO UM POUCO CHEIO
Ela era loira e alta e tinha um riso um pouco vulgar, no sentido gostoso.
Tinha sapatos bonitos e roupas de adolescente.
Tinha malicia e achava engraçado me enganar.
Ela era desbocada, era olhos azuis esverdeados de água do mar,
era cheiro de ano quente e bronzeador e melão em flor.
Ela não era minha no começo, nem no meio foi, tão pouco ao final.
Apaixonada por um homem que não era eu,
Mas depois de um tempo isso pouco importava.
Eu, tão aprendiz, aprendi que não poderia tê-la no sentido de pertence,
não era uma jóia antiga ou prataria de familía, era loira com uma estrela no cabelo e unhas afiadas.
Era meu pouso, meu choro e outras vezes o dela.
Era minha cama na volta da escola com The Libertines tocando na TV.
E depois era casa, minha cama de solteiro e sono de desejos saciados.
Gostava quando me esperava na porta e eu não precisava bater na janela,
Nem pular por cima dos carros para não apanhar do irmão mais velho que morava nos fundos.
Gostava de vê-la caminhar no escuro, com a luz que vinha da cozinha clareando meio corpo;
E meio sorriso voltado me convidando para tomar um banho antes do jantar
de macarrão instantâneo e vinho doce de boteco.
Podíamos beber na calçada e falar todas as sacanagens que quiséssemos sem precisar chamar de amor,
Ir ao cinema e morrer de rir com o tesão dela por Jesus Cristo.
Isso antes de eu me tornar o messias com uma garrafa de vodka com coca-cola e mordidas nas costas.
Lembra quando joguei fora os teus cigarros e tu me deu um soco por eu passar cantadas na coloninha?
Era uma grande amiga, do tipo que poucas vezes se pode ter,
Um pouco louca, um pouco traumática, como só as mulheres podem ser.
Mas agora olhe pra nós!
Ainda consegue me reconhecer?
Preciso muito que me diga...
...Pois faz muito tempo que nem eu mesmo consigo...
Tinha sapatos bonitos e roupas de adolescente.
Tinha malicia e achava engraçado me enganar.
Ela era desbocada, era olhos azuis esverdeados de água do mar,
era cheiro de ano quente e bronzeador e melão em flor.
Ela não era minha no começo, nem no meio foi, tão pouco ao final.
Apaixonada por um homem que não era eu,
Mas depois de um tempo isso pouco importava.
Eu, tão aprendiz, aprendi que não poderia tê-la no sentido de pertence,
não era uma jóia antiga ou prataria de familía, era loira com uma estrela no cabelo e unhas afiadas.
Era meu pouso, meu choro e outras vezes o dela.
Era minha cama na volta da escola com The Libertines tocando na TV.
E depois era casa, minha cama de solteiro e sono de desejos saciados.
Gostava quando me esperava na porta e eu não precisava bater na janela,
Nem pular por cima dos carros para não apanhar do irmão mais velho que morava nos fundos.
Gostava de vê-la caminhar no escuro, com a luz que vinha da cozinha clareando meio corpo;
E meio sorriso voltado me convidando para tomar um banho antes do jantar
de macarrão instantâneo e vinho doce de boteco.
Podíamos beber na calçada e falar todas as sacanagens que quiséssemos sem precisar chamar de amor,
Ir ao cinema e morrer de rir com o tesão dela por Jesus Cristo.
Isso antes de eu me tornar o messias com uma garrafa de vodka com coca-cola e mordidas nas costas.
Lembra quando joguei fora os teus cigarros e tu me deu um soco por eu passar cantadas na coloninha?
Era uma grande amiga, do tipo que poucas vezes se pode ter,
Um pouco louca, um pouco traumática, como só as mulheres podem ser.
Mas agora olhe pra nós!
Ainda consegue me reconhecer?
Preciso muito que me diga...
...Pois faz muito tempo que nem eu mesmo consigo...
Por: Rimini Raskin
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
Effervescent Elephant
Um Elefante Efervescente
Com olhos pequenos e uma tromba enorme
Uma vez sussurrou para uma orelha pequenina
A orelha de um assustado
Que para o próximo mês de Junho ele morreria, oh yeah!
Pois o tigre iria vagar.
O pequenino disse: "Ai minha nossa, eu tenho que ficar em casa!
E toda vez que ouvir um rosnado
Eu saberei que o tigre está na espreita
E eu estarei bem seguro, sabe
O elefante me disse isso."
Todos estavam nervosos, oh yeah!
E a mensagem foi espalhada
Para as zebras, os mangões, e os hipopótamos sujos
Que brincavam na lama e mastigavam
Suas comidas hipo-plâncton apimentadas
E tendiam a ignorar o mundo
Preferindo examinar um rebanho
De bisões de água estúpidos, oh yeah!
E toda a floresta ficou com medo,
E correram o dia e a noite toda
Mas tudo em vão, porque, vê só,
O tigre chegou e disse: "Quem, eu?!
Vocês sabem, eu não machucaria nenhum de vocês.
Eu prefiro bastante coisa para mastigar
E vocês todos são muito magricelas.", oh yeah!
Ele comeu o elefante.
Por: Syd Barrett
O que exatamente esperam de mim?
O que exatamente esperam de mim?
Linhas bonitas, palavras de incentivo ou tolices sentimentais?
O que exatamente esperam de mim?
Um caminho, um campo florido e narrativas de bravura?
Por que ainda esperam de mim?
(...)
Quero entender o que exatamente esperam de mim?
Que não os faça sentir mal pela palavra lançada ou os sentimentos atravessados?
Que os faça flutuar em profundidades coloridas e fábulas de crescimento?
Afinal, o que diabos exatamente esperam de mim?
(...)
Porque eu, de mim, não esperaria nada...
Por: Rimini Raskin
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
Sobre Meteoros e os Ventos da Existência
(...) A televisão falou algo sobre uma chuva de meteoros que acontecerá hoje à
noite, a maior dos últimos não sei quantos anos. Ela não mentiu. Talvez tenha
mentido sobre ser a maior. Ou não, afinal não lembro de nenhuma outra antes dessa. Se vocês dois ainda estivessem aqui assistiríamos a tudo, acampados no
morro, disso bem tenho certeza. Fiquei na janela, apoiado no parapeito oxidado,
estático, observando como as pedras do espaço se dissipam ao entrar no mundo
que erroneamente chamamos de nosso. Tem-se de ser realmente muito grande para
sobreviver a essa atmosfera venenosa. Tem-se de ser realmente muito forte para
penetrá-la e deixar uma marca bem grande no chão. Poucos conseguem, a maioria
vira poeira. E depois que o vento do tempo sopra, nem isso. (...)
Por: Rimini Raskin
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
Trecho de Noturnos - O Final em Dez Capítulos (III)
(...) Outro sonho. Não entendo como consigo sonhar
em tão pouco tempo de sono. Não entendo muitas coisas, somente as aceito. Na
verdade, não sei se são sonhos de fato. Talvez eu nunca durma. Talvez eu nunca
tenha dormido nos últimos quatorze anos. Sofia me abraçava como se me perdoasse
do crime de viver. Raul não estava. Talvez nunca me perdoe. Talvez nunca tenha
me culpado. Não existem culpados, mas Sofia não teve tempo de aprender isso. O
lugar era escuro, havia água sob meus pés e sobre nossas cabeças. Sofia não
tinha pés, estavam submersos pela água escura e revolta. Entre nós era só
vazio. Pedi perdão convulsivamente, chorei idem. Aquela boca de mulher que
tanto amei, apenas sussurrava que tudo ficaria bem. Em breve. Muito em
breve. Não conseguia soltá-la, agarrava-me com tanta força que meus músculos
doíam. Mas é inútil agarrar-se aos mortos quando não nos pertencem mais. Nunca
mais. Sofia se foi, comigo restaram apenas os medos e a vergonha de ser um
covarde sem forças para enfrentar a vida ainda vivo. Deus não joga dados mas
prega peças, era o que Raul dizia antes de deixar de acreditar no que quer que
fosse. Aquele que não teme se iguala. E por isso não acredito em santos. E por isso odeio
os profetas de rua que disseminam o medo de Deus. A liberdade é um direito
conquistado à duras penas. Vence, o que supera os julgamentos, o que se livra
do veneno da palavra que escraviza. Vence, o que se faz abstrato, tangente,
impossível, inexorável, ileso perante as espadas. Bem aventurados sejam os
loucos, pois à eles pertencem os céus do pensamento livre. Maldito seja todo o
resto. Queimei meus documentos, as cartas, as contas ...Queimei... Teria queimado
a casa toda se não precisasse dela para continuar escrevendo. E assim, aos
poucos me livro da terra que em dias de chuva me deixa na lama. Não verei a
revolução, não estarei com o povo na rua no momento em que os prédios ruírem.
Não verei jamais o que ainda não existe, mas estarei torcendo pelos que nunca
desistiram. Pois deles será a glória e o respeito e as estátuas. Deles serão os
nomes de ruas, parques e museus. Terão o privilégio de continuarem existindo
até a próxima queda. Minhas roupas fedem. Meus pés estão dormentes pelo frio. Quis
fumar um cigarro, mas o maço estava vazio. Todas essas garrafas secas e móveis
empoeirados à minha volta deixam-me nervoso. Tornei-me parte da decoração
decadente deste apartamento. Escondi os espelhos com toalhas de banho por não suportar mais a sensação de estar sendo observado por minha própria desgraça.
Pergunto-me qual teria sido a próxima história a ser contada se não houvessem
assassinado o Bacana. Qual seria a próxima risada, a próxima mentira divertida
ao pé da árvore. Quando matam um bom, os maus não ganham poder. Apenas
descolorem o coração de alguns, gerando um espaço que nunca será preenchido. Já
quando um mal é morto, outros logo aparecerão para tomar o seu lugar.
Orgulho-me de partir sem deixar vazio ou vaga a ser preenchida. De certa forma,
sinto-me feliz por não deixar dor ou saudade. Morro, em suma, como um cão de
rua que no máximo desperta a pena da senhora que o alimentava. Eis a tragédia
da vida dos homens. E não é questão de ser fatalista ou pessimista perante as
situações. O fato é que as coisas não aconteceram para mim de forma bonita.
Isso acontece com alguns, outros se tornam executivos, maridos fiéis, bons
vendedores, amantes, entusiastas, etc... Acredito que no mundo sempre irá existir lugar
para todos e para ninguém (...)
Por: Rimini Raskin
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
A Besta
O que realmente te faz ficar?
O que te impede de sair?
O conforto? A família?
Ou o desconforto é que se torna banal ao ponto de virar rotina?
Quem tu realmente é?
O que almeja provar?
Quer ser feliz? Quer ser planura?
Ou simplesmente já nem lembra o que, por quê, e em quem se pode encontrar a cura?
De repente nos ditaram regras, nos apresentaram cartas.
Nos fizeram aceitar e acreditar que é necessário escolher um lado.
Só não lembraram que somos pessoas,
E que não escolher, também é uma escolha.
Nos mandaram ganhar dinheiro.
Nos fizeram viver de acúmulos.
De carreiras, de status, sobrenomes...
De fronteiras, de trabalhos e consumo.
Não é real!
Não é se não aceitarmos que seja.
Afinal, esse conforto é garantia de leveza, ou não?
O menino rico se joga do prédio...
Mas o que não sabíamos, é que ele já havia morrido muito antes de chegar no chão.
Não é real!
Mas continua sendo porque nos fazem acreditar que seja.
Nos jornais e nas telas iluminadas da hora do jantar.
Nos captam e decaptam...
Andamos e andamos sem saber por que andar.
Morar virou privilégio de poucos...
Construímos muros e erguemos nossas cercas até quase o céu.
Trancafiamos nossas portas de aço e ativamos a bateria anti-aérea.
Tudo isso porque nos falaram que lá fora mora um monstro...
Um inimigo com dois braços e um par de pernas,
Uma besta horrenda com cabeça, dois olhos, nariz e boca vermelha.
E agora aqui estamos nós, presos.
Por medo de um demônio tão familiar, que nos mata de susto quando olhamos no espelho.
Por: Rimini Raskin
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
Despertar é Preciso
Na primeira noite eles aproximam-se e colhem uma flor do nosso jardim e não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem; pisam as flores, matam o nosso cão, e não dizemos nada.
Até que um dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua e, conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada.
Por: Vladimir Maiakóvski
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
Trecho de Noturnos - O Final Em Dez Capítulos
(...) Decidi levar à sério essa história de escrever como quem morre. É uma maneira simples de deixar algo para trás. Poderia deixar um filho, mas isso seria cruel, nenhuma criança se orgulharia de ter um egoísta filho da puta como pai. Um filho da puta capaz de colocá-lo neste mundo de merda, cheio de mentiras. Cheio de vazio. Esqueça o filho. Esqueça o legado de sangue e toda essa baboseira sobre eternizar-se. Eu fui uma criança feliz, talvez essa deva ter sido minha maldição. Nunca mais alcancei a alegria de criança, aquela felicidade de filhote que um cão velho nunca mais irá experimentar novamente. A felicidade de encontrar os que hoje se foram. Os que assim como eu, não aguentavam o peso do medo da vida entregue a nulidade de uma cidade pequena. Vivo nesse apartamento. Estou doente como esse apartamento doente de paredes sem tinta. Os médicos me mandaram ficar em casa. Pediram-me para não ficar sozinho. Falam tanta bobagem. Não as falariam se conhecessem o inferno. Não é preciso vivê-lo, basta experimentá-lo para a primeira impressão ser eterna. Sinto falta de coisas que fui. Sinto falta dos sentimentos. Das variedades de almas que me habitaram e que decidiram viajar para bem longe sem previsão de retorno. Como um marido que foi buscar cigarros e não voltou. Noite passada sonhei que um carro me buscava na frente da casa da minha mãe. Nele estavam o Raul e a Sofia, eles não sorriam, mas estavam lá para me buscar no mesmo carro azul que dirigíamos na noite do meu aniversário de vinte anos. O mesmo carro azul que caiu no rio horas depois de terem me deixado em casa. Vinham me buscar porque eu deveria estar naquele carro. Não deveria ter pedido para voltar. Mas agora é tarde. Tudo é sempre tarde. Eu passei mal, os comprimidos não me fizeram bem naquela noite. Queria tanto pedir desculpas. Mas é sempre tarde para quem nasce.
Quando soube do acidente, chorei tanto que minhas lágrimas queimaram o rosto, fizeram gretas como água que corta o deserto. E sempre que o rio transbordava, eu ficava na ponte esperando os dois nadarem de volta para a minha vida. Mas nunca aconteceu. E talvez seja por isso que dói tanto quando chove. Sem eles o fardo era pesado demais. Três anos depois, cruzei a linha que me mantinha preso à um passado indigesto e entrei no ônibus carregando nas costas somente minha condição. Sozinho. Raul escrevia tão bem, certamente seria publicado. Sofia era linda, era nossa. Éramos os donos das estradas de terra que levavam à lugar nenhum. Éramos os detestáveis do boteco do Seu Armindo. Éramos o que ninguém mais poderia ter sido. Mas é sempre tarde para quem nasce. É sempre tarde. Acordei com um aperto no peito. Chamei. Mas não havia ninguém para escutar um grito que não existiu. Olhei em volta e por um segundo estava de novo no meu quarto de guri, com os pôsteres do Led Zeppelin na parede e a lua na janela de madeira. Por um segundo respirei de novo o ar que vinha do rio e consegui chorar como no dia do acidente. Não durou muito. E aqui estou eu decidido a escrever para lembrar. Lembrar para esquecer de onde vim e dos que ficaram no caminho com seus sonhos de guitarra e revoltas nunca muito bem explicadas. Passei a manhã toda cantando aquela canção que escrevi com Sofia. Aquela que falava que é sempre tarde para quem nasce. Tarde. Éramos nós, os contra o mundo e contra nós mesmos, do mundo. Éramos nós. Três. O uno. O balanço da pracinha e as folhas caindo na clareira do parque. Éramos nós. Os planos que ficaram no caminho. O vazio nunca suprido. Éramos nós. Agora não é mais. Nem o frio. Nem a chuva fina nas ruas de paralelepípedo. Não é mais. Agora é um. E nesse apartamento, doente, somente o espelho é testemunha de que tornei-me insuportável como um velho cachaceiro. Ou pior, sou outra vez indesejável como um filho adolescente que se recusa a tomar os remédios. Sou a escória do mundo. O veneno da alma. Por isso tomei a decisão de escrever como quem sangra. Com o fôlego de quem morre em dez capítulos. (...)
Por: Rimini Raskin
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
Sobre o Cão Que Me Habita
É de vagar, devagar, divagando, de vagão em vagão,
Que me faço homem.
Feito planta em temporal, completamente atemporal,
Que não sabe o quanto, mas o tempo faz.
Que não sabe o tanto, mas que o vento traz.
É de viajar, e de ver e de andar, sem prumo e sem lugar,
Que me faço outro.
Feito homem ocidental, sem luz no topo do crânio.
Que não sabe o pranto, mas que se derrama em dor.
Que não vê o sol, mas sente na alma o calor.
É de não saber, e de querer, mais do que o corpo aguenta,
Mais do que a mente sana, que a dor ensina, que o sangue ferva.
É de não ser senão estar.
É de olhar sem foco, sem tato e sem gosto definido.
É de não amar os sinos, aprender os ritos e queimar as vestes.
É por tudo isso, por todo esse nada, solidificado,
Que me faço traço, que me faço verso.
Que me levo à sério na grande piada do universo.
Outro cão, outra noite de trago e de calçada suja.
De carne fria e gordura, de cervejas quentes abertas à dente.
De passado vindo a tona com suas mulheres nuas.
Outras histórias que não serão contadas, banhadas a álcool e cana.
Tilintantes, incompletas, perfeitas se vividas ao contrário.
De ponta cabeça, como se sente o bêbado ao deitar-se na cama.
Por: Raskin
domingo, 8 de janeiro de 2012
A Fuga da Palavra
Quando a palavra saiu do papel e se afastou
da margem
do poema
a face atônita do cotidiano
se desprendeu da prosa
e mergulhou nas sombras
de um poema qualquer
vagabundo e inútil
como este aqui
como eu me lembro daquele dia!
a palavra se ia
cada
vez
mais
longe
e fugaz...
e o poema resistia
tão teimoso que era.
e o poeta já se sentia
o rei! o rei! o rei da poesia!
na ausência da palavra
o poema era um espasmo!
era uma esfera de chumbo
rolando no tapete
entre bolas de cabelo
e pedaços de unha e poeria!
ao longe uma larva verde
com sua grotesca garganta
gritava:
vanguarda! vanguarda!
prendam aquela palavra!
mas a palavra longínqua e pequena
rolou de poema em poema
anêmica e enfraquecida
e por si-só tombou no meio da rua
(a saber: a larva era a lua)
o poema ria-se todo
mas seu torto riso besta
teve que conter
pois a aguerrida palavra
reuniu todas suas forças
armou-se até os dentes e,
cabi
s
baixa
à
margem
retorna
cortês
e formal
como deve ser
Por: Levi Branco
sábado, 7 de janeiro de 2012
A Cidade Adoece
Como diria uma amiga: - A cidade adoece!
E apodrece, até mesmo a mais pura das boas vontades.
A cidade desbota, recoloca e transporta.
As vezes para muito mais longe do que se pode aguentar de cara.
Sem rosto, sem gosto nos tornamos, todos.
Carregados pelo braço, contra vontade.
Com uma seringa pendurada ao pescoço.
Sorriso débil no rosto, morte na tela na hora do almoço.
No alto do prédio um coração bate sem saber.
Embaixo da ponte uma alma se esvazia sem por que.
Não há nada aqui que não atinja e tinja de negro a visão.
No lugar onde santos exercitam-se em vão,
Não se pode competir com o consumo.
Não se é páreo para a tele...
Visão!
Nôs vendem luz nos templos de sangue e fome e mentira.
E nenhum avião te levará tão alto quando o céu está além do fumo espesso e dos ônibus expressos.
E nenhum amor está nas palavras do homem de terno.
E nenhum elevador te poupará as pernas.
Somos vivência e experiência.
Nenhuma essência precederá nossa existência.
Criador e criatura, iluminação e amargura.
Somos a cura!
O vício e o mestre.
Somos a pureza que a cidade adoece.
Por: Rimini Raskin
domingo, 1 de janeiro de 2012
Trecho de "Noturnos - O Final em Dez Capítulos"
"Décima Noite
Passei muito mal hoje à tarde. Pensei que não aguentaria. Quebrei um copo e minhas mãos sangraram ao juntar os cacos da minha vergonha. Manchei de vermelho os azulejos brancos do banheiro na tentativa de lavar os ferimentos na pia velha já meio lascada. Enrolei as mãos com um pano de prato e bebi um gole de vodka para suportar a dor das fendas abertas. De hora em hora a vizinha vem me perguntar como me sinto. Sorrio e digo que estou trabalhando em umas coisas. Ela sorri de volta. Fala algo sobre os benefícios do trabalho na alma humana. Algo que me lembra aquela frase famosa no portão de Auschwitz. Mas no fundo, gosto muito da Dona Marlí. Lembra minha mãe. Uma vez, quando eu tinha nove anos, subi em um araçazeiro enorme para uma criança de nove anos, despenquei uns três metros até atingir o chão. Quebrei o braço direito e cortei as mãos, não sabia como voltar para casa, tinha vergonha dos machucados, medo de que minha mãe me visse chorando. Eu, o homem da casa, o único homem que ela ainda podia chamar de seu. O único que não tinha fugido durante uma madrugada com outra mulher. Minha mãe não gostava do Raul e da Sofia. Mas no fundo eu até entendia ela. É complicado viver com medo de ser abandonada de novo. Acho também que ela não gostava por medo de admitir que os dois eram a coisa mais certa em uma vida tão errada como era a nossa. Sei que não fui o melhor filho, mas fui o melhor que pude para uma mãe que era a única que eu tinha. Sinto muito não ter estado ao lado dela quando os aparelhos foram desligados. A morte as vezes é longe demais, as vezes nem isso. Uma vez fomos ao funeral de uma guria, Raul a conhecia, Sofia foi por curiosidade. Eu não sei por que fui. Para estar junto eu acho. O nome dela era Camila. Só chegando lá é que descobri se tratar da filha mais nova do Miguelão da fruteira. Estava linda. Era uma criança. Não é mais. Hoje sinto que um pouco da nossa infância ficou ali, com ela. Não por sentimento, nem a conhecíamos direito, mas aquela imagem, aquele corpo pequeno em uma caixa, aquilo marca, e assusta. Na volta do velório, atalhamos pelo terreno baldio onde ficava a antiga fábrica de Schmier. O lugar era cheio de bergamoteiras, sentávamos lá no verão para comer as frutas enquanto conversávamos ou ouvíamos as coisas que o Raul escrevia. Deitávamos à sombra das árvores em uma lona que achamos na casa da avó da Sofia. Era bom. Era quente. Ao contrário desse apartamento. Aqui é frio demais durante a noite e as crianças ao lado parecem não ter sono. A madrugada inteira parece acordada para o meu desespero de solidão. Lembro de uma vez que o Raul falou que o frio só existia na ausência. Hoje entendo perfeitamente o que ele quis dizer naquela noite de inverno em que dormíamos os três amontoados, escondidos no galpão do velho Nestor. Naquelas noites que ninguém sabia. Que ninguém poderia saber. Não sentíamos culpa, mas tínhamos medo do que pudesse acontecer. Medo da vergonha que nossos pais sentiriam. Era comum sentir medo. Mas era ruim. Sofia tinha medo do pai dela, eu também tinha. O Raul não tinha medo de nada. Queríamos montar uma banda e eu até aprendi a tocar guitarra. Hoje não sei se lembro das notas. Sofia cantava, cantava tanto quanto era linda. Sofia. Tinha os cabelos escuros e compridos como uma crina de cavalo. Trazia nos olhos todo brilho que faltava na vida daquela cidade de merda. Gosto de lembrar do Raul escrevendo no caderno velho de capa verde musgo, cabelos pelo ombro, pele muito branca. Escrevia sobre o que encontraríamos no outro lado do rio. Riscava frases do Lou Reed em todo canto. Brincávamos de ser o Velvet Underground, com nossas jaquetas de couro e calças jeans. Ficávamos horas e horas curtindo vídeos das bandas que o primo dele mandava de São Paulo. Víamos e revíamos aquela pilha de fitas VHS. Imitando as atitudes, as poses, as roupas. Naquela época ainda não era tarde. Mas nenhum de nós teria como saber..."
Por: Rimini Raskin
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
Cem Anos
Se possível for, gostaria de desejar-te que viva "cem anos".
Como gritam os russos do alto de suas janelas em um conto de Tchekhov ao despedirem-se de quem se gosta muito. Só que neste caso, desejo à ti, que ainda nem chegou.
Esses cem anos não são uma medida humana, exata. Posto que, se fosse exata, não poderia jamais pertencer à humanidade. Cem anos é o tempo certo, e relativo por não ser perfeito. Cem anos são o bastante. Por tudo que se tem de aprender até o dia em que os olhos não abrirem mais e morreres seguramente sem ter aprendido o suficiente. É também tempo o bastante para cometer enganos, machucar-se e das feridas tirar lições. Tempo necessário para errar e consertar os erros antes de tornarem-se eternos.
Desejo-te beleza, além dos cem anos já citados. Não só beleza estética, falo principalmente da beleza do olhar, aquela que faz do mundo um lugar menos absurdo. Desejo-te ainda, ação; além de beleza e cem anos, para que possas mudar tudo o que necessita ser mudado. Peço-te ainda que mantenha-se longe da ganância, mas que tenhas em mente que é preciso muita vontade para alcançar o que deseja. Não tenha pressa. Por mais que não pareça, as coisas sempre acontecem quando trabalhamos para que aconteçam. Tenha amigos diferentes, contagie-se com a pluralidade, mas não perca nunca a tua personalidade. Lembre que mesmo em bando, somos criaturas individuais. Não julgue. Se não concorda, dê sua opinião. Se não aceitarem, respeite. Saiba que sempre existirão limitações, problemas, dificuldades e maldade no mundo. Sempre alguém estará pronto para te machucar. Por isso nunca esqueça que não são as roupas que usa, o dinheiro que possui ou o sobrenome que carrega, é o modo como enfrentamos esses obstáculos que nos faz ser o que realmente somos.
Estude, conheça o quanto puder do quanto existir. Isso não te fará saber de tudo, mas ajudará e muito para que nunca sejas enganada. Ame sem esperar nada em troca, mas não se deixe ser humilhada. Entenda que teus pais não serão perfeitos e teus amigos tão pouco. O mundo parecerá e será uma grande selva a ser desvendada. As desilusões irão doer, mas não te matarão. Tire delas lições e melhore como pessoa. Não se cobre tanto. Tu é parte do mundo, logo, também não é perfeita. Ter fé é um direito e uma escolha, mas tome muito cuidado para que não te tornes dependente dela.
Deve estar pensando -"É muita coisa para fazer, mesmo em cem anos!" E provavelmente seja, provavelmente não fará nem a metade. Não são regras, relaxe. Escrevi isso tudo apenas porque te amo e me preocupo contigo. Espero que me perdoe quando eu errar, porque vou errar, e muito. Erraremos juntos. Choraremos e até brigaremos um com o outro, disso tenho certeza. Mas existe outras coisas de que também tenho certeza, e uma delas é que existirão sorrisos, muitos. Existirão risadas, afeto, carinho, compreensão e suporte. Pode ser que eu não possa te comprar um barco, mas sempre poderei te ajudar a construí-lo se quiseres.
Por último, desejo-te que viva bem os teus cem anos, que seja justa acima de tudo. Para que quando deitar na cama já no final dos teus dias, tenha o prazer de pensar - "Não fui perfeita, mas fiz o melhor que pude!"
"Para minha bebê Malu."
Por: Rimini Raskin
domingo, 25 de dezembro de 2011
Roda
A superfície frágil sob seus pés era a única barreira para o abismo e isso lhe causava frissons de ciranda. Era capaz de sentir seu controle sumindo nos furinhos da peneira cravada no piso, escorrendo por suas pernas e pingando restos de integridade no roteiro da gravidade. Era visível e gritante como não suportaria por muito mais tempo essa situação. Dava para ver o corpo se molhando, enganado de febre, suor de um mal entendido.
Ele estava sendo violentado em brincadeira de criança. Tiravam as únicas faculdades de controle que ainda possuía sobre seu franzino corpo. Era a primeira vez que realmente sentia seu tamanho de anão (é que sempre se sentia maior que de fato era). Que agonia! Estavam dirigindo seu caminho. Além da dor oblíqua em seu estômago, o que mais o constrangia nesse momento, era o fato dele próprio ter pagado para isso. O haviam convencido da sensação boa, da voluptuosidade cíclica desse envolvimento. Afirmavam de uma convicção que acariciavam seus ouvidos a respeito da belezura que seria o abandono de si na mão do outro. Quando ele achava arriscado demais todos diziam, alguns gritavam embriagados da experiência recente:
— Sua bichinha!
Ele estava sendo violentado em brincadeira de criança. Tiravam as únicas faculdades de controle que ainda possuía sobre seu franzino corpo. Era a primeira vez que realmente sentia seu tamanho de anão (é que sempre se sentia maior que de fato era). Que agonia! Estavam dirigindo seu caminho. Além da dor oblíqua em seu estômago, o que mais o constrangia nesse momento, era o fato dele próprio ter pagado para isso. O haviam convencido da sensação boa, da voluptuosidade cíclica desse envolvimento. Afirmavam de uma convicção que acariciavam seus ouvidos a respeito da belezura que seria o abandono de si na mão do outro. Quando ele achava arriscado demais todos diziam, alguns gritavam embriagados da experiência recente:
— Sua bichinha!
— Deixa de doce e vai fundo Mané!
— Por mim! Por favor, por mim! É legal, você vai ver!!!
— Confia ou não confia?
— Não acredito que vai dar pra traz agora.
Ele então pensava consigo mesmo: “Será mesmo que acham isso agradável? Não pode ser. Ou sou analfabeto de sentimentos ou sou letrado em cautela, pois sinto como se fosse me derramar até desidratar.”
Essas experiências faziam com que suas bochechas corassem tanto, que em desenho animado todos diriam se tratar de duas maçãs do amor. Sentia uma vergonha danada de não se conter diante de sua companhia, uma mulher gigante. A verdade é que se sentia pequeno demais perto dela. Muito dos desentendimentos entres eles talvez fossem devido a essas privações que ela lhe causava.
Não se sabe se por excesso de cuidados e zelos ou culpa pela ausência destes. Ela sempre o tratava como um inútil. O deixando em um progressivo estado de diminutivo. O que sempre o aborrecia, afinal ele sabia muito bem escolher suas próprias roupas. Era meio desorganizado, mas era seu estilo. Além de ser completamente capaz de amar sem demonstrações constantes. De manhã afirmava ser seguro disso, a tarde discordava de si e sentia que era limitação mesmo. No entanto gostava de fingir que não e por vezes se convencia provisoriamente. Só que a despeito de todos esses encolhimentos ela era a única capaz de esticar sua coragem. Isso em um único toque que o embevecia do mais aconchegante e profundo conforto. Ele poderia ficar horas em seus braços hábeis em construir paraísos e sonhos encantados, largado em seus abraços “redomares” adormecido nos peitos de leito, sonolência sempre cortada com um beijo no final.
Ele sabia que era ela, a crescida de tudo, a de beijo doce, quem lhe dava força nesse redemoinho de sensações grandes. Mas ainda assim não podia deixar de sentir o mundo a sua volta. Rodopiando e girando como se não tivesse estômago. Seus pensamentos afrouxados de tontedão desgrudavam de sua mente em palavras sem força de voz:
— Esse mundo não come, ele não enjoa. Esse mundo não pensa. Esse mundo só roda e roda e nauseia.
Não gostava de sentir as oscilações do ambiente. Elas sempre refletiam-se em seus sentimentos. Sabia que quando se descontrolava espirrava insatisfação nos outros. Não era vírus o que ele temia lançar nesses movimentos convulsos. Mesmo que o nojo, murcho na comunhão do reflexo, sujasse as mangas da guardiã da sua vulnerabilidade. Isso pelo contrário até o comprazia: ver o total desprezo com que ela tratava tudo o que era ceifador de seu amor. Jamais vira algum reflexo de asco nos olhos dela. Diante das mais miseráveis imundícies de seu corpo ou transgressões de sua alma, ela sempre o olhou como a mais pura natureza, fonte do maior asseio.
O que ele temia de polpa e caroço, de bagaço, de fruta inteira, mesmo sabendo de todo o poço de compreensão que estufava sua amada benfeitora, era jorrar tudo que estava consumindo seu interior. Tudo o que não havia sido digerido direito. Era pavoroso demais cogitar a possibilidade de derramar em jorros frenéticos toda a porcaria que ele havia desfrutado as escondidas. Ele a tinha desrespeitado. Não se via digno de amor tão incondicional. Seu amor visceral por coisas estúpidas havia cometido sua carne de prazeres capitais. Andou “comendo” fora de casa. Havia rompido o laço da confiança? Se o erro ficasse guardado com ele não, era o que imaginava.
O descontrole começava invadir seu corpo magro. Sabia que não seria possível conter seus impulsos dilatados − que já alcançava normalmente proporções respeitáveis. Nesse instante não saberia dizer o que prevalecia em sua vontade: se o desejo de mentir e prolongar aquele momento infernal, que paradoxalmente permitia a continuidade de uma felicidade intacta e ainda lacrada,em total suspense ou libertar toda podridão que o inchava de não poder mais respirar.
Em um transe de dor, conseguiu alcançar por instantes uma espécie de projeção astral alçada por meio da voz encantadora da mulher sentada ao seu lado. Aquele timbre cessava sua respiração e com ela a vida e a dor, propagando o alívio no compasso e ritmo daquela fala analgésica:
—Meu amor! Você está se sentindo bem? Diga. O que foi? O que você tem?
Sua voz era tão terna e seu olhar tão triste, que parecia sentir por telepatia todo aquele sofrimento. Mas ele era esperto demais, não se entregaria tão fácil. Ficou calado. A boca era o limite da sua impureza, o único estanque da larva azeda que o enchia de culpa. Não pôde dizer nada. Seus olhos em uma tentativa desesperada de ser boca pronunciaram lágrimas de vergonha. Ele, no entanto, em um movimento mais rápido que a emoção desgarrada, furtou-se da exposição. Antes que a mulher grande, sentada ao seu lado, pudesse ter visto esse grito derradeiro, já havia se virado para o outro lado. Seu desespero ficou novamente suspenso quando sentiu as mãos dela procurando as suas. O calor febril que vinha delas amornou seu corpo gélido de morte. Outra vez ela lançou seu canto de sirena:
— Que mãos frias! Dê elas aqui. Nossa que gelo. Está melhor? Querido? Hum?... Tá esquentando?
Ele fez que sim com a cabeça. Mentiu, ele sempre mente. Não sei como nunca perceberam. Seus olhos sempre ficam vazios quando mente. Mas dessa vez mentiu, por sentir que não estava de todo mentiroso. Realmente sentia um presságio de melhoras e adiantou-se a sensação. Emocionou-se quando percebeu que após esse primeiro momento de angustia foi capaz de ver mais longe. De sentir mais forte. De ver brilhar as luzes acima, abaixo e para todo lado que olhasse. Estava feliz, nem se lembrava mais de seu martírio hiperbólico ou de sua felicidade eufêmica. Não se lembrava de si ou dos outros. Por hora todos pareciam pequenos demais, simples demais. Mais lhe pareciam bonecos de plástico, fáceis de brincar, comuns, sem detalhes, todos iguais, do que os titãs de antes. Ao menos de onde estava não conseguia notar as diferenças que tanto o encantavam antes.
Não entendia. Por que havia se aprofundado tanto em tudo? Para que havia permanecido tanto tempo lá embaixo onde o barulho é mais alto, onde a realidade é grande e onde a vista tem mais obstáculos? Agora se sentia bem melhor. Estava na superfície. Estava na epiderme da existência, queria o contato mais agudo. Ali os sons eram como lembranças, a realidade era pequena e a vista era grande.
Não tinha mais medo de dizer o que queria. Mas não disse por que descobriu que não precisava, na verdade não se importava mais. Estava livre dele mesmo. Nem sentia o corpo. Não se lembrou de olhar para o lado. Não teve nem mesmo a curiosidade de saber como sua amada estava nesse seu novo momento. Ele estava mais seguro de si. Sabia que a amava em brisa constante. Sabia que a tinha a seu lado. De onde estava não tinha medo de ser abandonado. Podia sentir o amor dela por ele. As suas mãos. Sem precisar ouvir nada. O silêncio não o assustava mais. As palavras é que poderiam, talvez, perturbá-lo.
Essa sensação de estar distante de si mesmo, e ao mesmo tempo próximo, lhe pareceu coisa de alma. Não procurou entender melhor, estava bom assim. O mundo estava mais lento, tempo de quadro.
Num repente sua barriga começou gelar de novo. Sua visão, em vertigem, se expandiu depressa demais. Não conseguiu acompanhar a rapidez do infinito. Era como se estivesse caminhando para um penhasco sem ter o controle das penas. Não estava mais gostando daquilo. Olhou para o lado e viu, novamente, a mulher grande. Ela estava na mesma constância de pedra. Não esboçava o mínimo terror no rosto. Ele não a entendia. Apenas precisava dela como nunca precisou antes. Começou a apertar aquela mão, com dedos, anéis, palma e costas, alheia a todo perigoem volta. Ele a apertava como querendo acordá-la, chamá-la de volta a vida ou se contaminar de inércia. Mas calmamente a mão dela apenas o acariciava em uma cadência de ponteiro de relógio.
Sabia que não iria sobreviver a esse acontecimento. Cuidou de se despedir sofregamente de tudo do que sentiria falta. Percebeu que sentiria falta de tudo, até mesmo de sentir que estava morrendo. Chorou duas lágrimas silenciosas, sua dor mais parecia derramar pra dentro. E foi acumulando dor. Acumulando medo. Acumulando sentimento. Acumulando frio e suor. A concentração ameaçava romper seus limites nos últimos instantes de vida, e assim revelaria todo seu segredo e estragaria toda a memória que poderiam guardar dele, ou a expansão de tudo que ele era prometia engolir o mundo e dentro dele se fazer aberto, visível, e todos veriam seus segredos e intimidades. De qualquer forma estragaria a cria que teve de si mesmo.
A mulher do seu lado emergiu do transe que muito o sufocava. Havia se contaminado de inquietação. E como em uma maratona de revezamento, em uma troca de vigilante, o mundo voltou-se a ela, que era objeto até então. Era complicado para essa mulher compreender a decepção nos olhos dele. Ela havia feito tudo o que imaginou desejosa de agradar, ou ao menos de parecer agradável. Se suas boas intenções não se manifestavam em atitudes coerentes a suas vontades, a falta estava no hábito de esquecer-se de si. Há anos estava empalhada em si mesma, enferrujada não sabia como agir. É que sempre fora automática, amortecida de vida, mas acordara imersa em versão analógica, inteira manual.
Ela sentia que todo o amor que tinha dentro de si parecia não bastar para ele, mas fingia não ver aquele buraco negro ávido. Assim ia fartando-o de um imenso, fofo e leve algodão doce, esforçava-se em lhe dar uma vida em cor de rosa. Mas a saliva gulosa, daquela boca, derretia na velocidade de beija-flor todo aquele vazio feito de açúcar: “Como pode ser tão insaciável?”
Ela o amava, sem saber se isso era sentimento ou costume. Não estava certa se ainda continuava viva depois de tê-lo conhecido. Não conseguia desejar nada que não fosse para ele. Não desejaria, absolutamente, tempo livre se fosse para ficar longe dele. Sua vida havia se transmutado nele. Mas o mais impressionante dessa metamorfose é que ela ainda estava ali, existia. Havia se transformado nele, mas não era ele. O que diabos seria ela? De que substância seria preenchida? Afinal, ela havia saído nele, e o que restara para essa criatura que ficara?
Isso quase nem lhe interessava mais. É que ele estava ali do seu lado. O contato com a vidinha dele, mesmo que fora dela, a alegrava de pisca. Era até mais certa dele do que dela mesma. Sentia como se sua réplica ainda tivesse um vinculo transparente grudado nela. O amava com egoísmo de quem ama a si mesmo, o apreciava como um narciso debruçado sobre si.
Questionava-se em pensamentos anêmicos demais para se realizarem: “Como podia ser dois em um?” Era verdade, eles não eram um. Havia se esquecido de que já não eram mais, mas também sabia que não eram dois, preferiu pensar de objeto nessa situação.
Olhou pare ele com olhar de espelho. Arrepiava-se em tê-lo para si. Tinha a pessoa a quem mais amava no mundo. Rompendo os preceitos platônicos que não sustentam carne nem mortais, apertou sua mão ligando vida. Como o achava lindo. Seus olhos brilhavam como águaem orvalho. Percebeu de súbito que tudo parecia crescer quando próximo dela e diminuir quando distante. Era abnegada. Não estava gostando de se sentir superior, egoísta, cheia de vontades próprias. Pensou consigo: “Será pecado? Serei eu?”
Engraçado como se sentia impar, sozinha e bastante de si nesse momento. Esqueceu-se do amor de osmose que a tomava por inteiros momentos antes. Estava sozinha de alma. Não queria mais nada. Mentira. Estava mentindo. Sim! Isso era certo para qualquer um que olhasse de fora. Em momento algum havia soltado a mão de seu par. Como se tivesse medo de se perder no vôo livre. Cansou de se ter. Queria mesmo era cuidar de seu pequeno amorzinho. Ele era o único que se encorajava nela. Gostava tanto de se doar. Doar-se a convencia de que era sim cheia de alguma substância secreta que havia ficado nela após a separação de tempos atrás.
Ele então pensava consigo mesmo: “Será mesmo que acham isso agradável? Não pode ser. Ou sou analfabeto de sentimentos ou sou letrado em cautela, pois sinto como se fosse me derramar até desidratar.”
Essas experiências faziam com que suas bochechas corassem tanto, que em desenho animado todos diriam se tratar de duas maçãs do amor. Sentia uma vergonha danada de não se conter diante de sua companhia, uma mulher gigante. A verdade é que se sentia pequeno demais perto dela. Muito dos desentendimentos entres eles talvez fossem devido a essas privações que ela lhe causava.
Não se sabe se por excesso de cuidados e zelos ou culpa pela ausência destes. Ela sempre o tratava como um inútil. O deixando em um progressivo estado de diminutivo. O que sempre o aborrecia, afinal ele sabia muito bem escolher suas próprias roupas. Era meio desorganizado, mas era seu estilo. Além de ser completamente capaz de amar sem demonstrações constantes. De manhã afirmava ser seguro disso, a tarde discordava de si e sentia que era limitação mesmo. No entanto gostava de fingir que não e por vezes se convencia provisoriamente. Só que a despeito de todos esses encolhimentos ela era a única capaz de esticar sua coragem. Isso em um único toque que o embevecia do mais aconchegante e profundo conforto. Ele poderia ficar horas em seus braços hábeis em construir paraísos e sonhos encantados, largado em seus abraços “redomares” adormecido nos peitos de leito, sonolência sempre cortada com um beijo no final.
Ele sabia que era ela, a crescida de tudo, a de beijo doce, quem lhe dava força nesse redemoinho de sensações grandes. Mas ainda assim não podia deixar de sentir o mundo a sua volta. Rodopiando e girando como se não tivesse estômago. Seus pensamentos afrouxados de tontedão desgrudavam de sua mente em palavras sem força de voz:
— Esse mundo não come, ele não enjoa. Esse mundo não pensa. Esse mundo só roda e roda e nauseia.
Não gostava de sentir as oscilações do ambiente. Elas sempre refletiam-se em seus sentimentos. Sabia que quando se descontrolava espirrava insatisfação nos outros. Não era vírus o que ele temia lançar nesses movimentos convulsos. Mesmo que o nojo, murcho na comunhão do reflexo, sujasse as mangas da guardiã da sua vulnerabilidade. Isso pelo contrário até o comprazia: ver o total desprezo com que ela tratava tudo o que era ceifador de seu amor. Jamais vira algum reflexo de asco nos olhos dela. Diante das mais miseráveis imundícies de seu corpo ou transgressões de sua alma, ela sempre o olhou como a mais pura natureza, fonte do maior asseio.
O que ele temia de polpa e caroço, de bagaço, de fruta inteira, mesmo sabendo de todo o poço de compreensão que estufava sua amada benfeitora, era jorrar tudo que estava consumindo seu interior. Tudo o que não havia sido digerido direito. Era pavoroso demais cogitar a possibilidade de derramar em jorros frenéticos toda a porcaria que ele havia desfrutado as escondidas. Ele a tinha desrespeitado. Não se via digno de amor tão incondicional. Seu amor visceral por coisas estúpidas havia cometido sua carne de prazeres capitais. Andou “comendo” fora de casa. Havia rompido o laço da confiança? Se o erro ficasse guardado com ele não, era o que imaginava.
O descontrole começava invadir seu corpo magro. Sabia que não seria possível conter seus impulsos dilatados − que já alcançava normalmente proporções respeitáveis. Nesse instante não saberia dizer o que prevalecia em sua vontade: se o desejo de mentir e prolongar aquele momento infernal, que paradoxalmente permitia a continuidade de uma felicidade intacta e ainda lacrada,em total suspense ou libertar toda podridão que o inchava de não poder mais respirar.
Em um transe de dor, conseguiu alcançar por instantes uma espécie de projeção astral alçada por meio da voz encantadora da mulher sentada ao seu lado. Aquele timbre cessava sua respiração e com ela a vida e a dor, propagando o alívio no compasso e ritmo daquela fala analgésica:
—Meu amor! Você está se sentindo bem? Diga. O que foi? O que você tem?
Sua voz era tão terna e seu olhar tão triste, que parecia sentir por telepatia todo aquele sofrimento. Mas ele era esperto demais, não se entregaria tão fácil. Ficou calado. A boca era o limite da sua impureza, o único estanque da larva azeda que o enchia de culpa. Não pôde dizer nada. Seus olhos em uma tentativa desesperada de ser boca pronunciaram lágrimas de vergonha. Ele, no entanto, em um movimento mais rápido que a emoção desgarrada, furtou-se da exposição. Antes que a mulher grande, sentada ao seu lado, pudesse ter visto esse grito derradeiro, já havia se virado para o outro lado. Seu desespero ficou novamente suspenso quando sentiu as mãos dela procurando as suas. O calor febril que vinha delas amornou seu corpo gélido de morte. Outra vez ela lançou seu canto de sirena:
— Que mãos frias! Dê elas aqui. Nossa que gelo. Está melhor? Querido? Hum?... Tá esquentando?
Ele fez que sim com a cabeça. Mentiu, ele sempre mente. Não sei como nunca perceberam. Seus olhos sempre ficam vazios quando mente. Mas dessa vez mentiu, por sentir que não estava de todo mentiroso. Realmente sentia um presságio de melhoras e adiantou-se a sensação. Emocionou-se quando percebeu que após esse primeiro momento de angustia foi capaz de ver mais longe. De sentir mais forte. De ver brilhar as luzes acima, abaixo e para todo lado que olhasse. Estava feliz, nem se lembrava mais de seu martírio hiperbólico ou de sua felicidade eufêmica. Não se lembrava de si ou dos outros. Por hora todos pareciam pequenos demais, simples demais. Mais lhe pareciam bonecos de plástico, fáceis de brincar, comuns, sem detalhes, todos iguais, do que os titãs de antes. Ao menos de onde estava não conseguia notar as diferenças que tanto o encantavam antes.
Não entendia. Por que havia se aprofundado tanto em tudo? Para que havia permanecido tanto tempo lá embaixo onde o barulho é mais alto, onde a realidade é grande e onde a vista tem mais obstáculos? Agora se sentia bem melhor. Estava na superfície. Estava na epiderme da existência, queria o contato mais agudo. Ali os sons eram como lembranças, a realidade era pequena e a vista era grande.
Não tinha mais medo de dizer o que queria. Mas não disse por que descobriu que não precisava, na verdade não se importava mais. Estava livre dele mesmo. Nem sentia o corpo. Não se lembrou de olhar para o lado. Não teve nem mesmo a curiosidade de saber como sua amada estava nesse seu novo momento. Ele estava mais seguro de si. Sabia que a amava em brisa constante. Sabia que a tinha a seu lado. De onde estava não tinha medo de ser abandonado. Podia sentir o amor dela por ele. As suas mãos. Sem precisar ouvir nada. O silêncio não o assustava mais. As palavras é que poderiam, talvez, perturbá-lo.
Essa sensação de estar distante de si mesmo, e ao mesmo tempo próximo, lhe pareceu coisa de alma. Não procurou entender melhor, estava bom assim. O mundo estava mais lento, tempo de quadro.
Num repente sua barriga começou gelar de novo. Sua visão, em vertigem, se expandiu depressa demais. Não conseguiu acompanhar a rapidez do infinito. Era como se estivesse caminhando para um penhasco sem ter o controle das penas. Não estava mais gostando daquilo. Olhou para o lado e viu, novamente, a mulher grande. Ela estava na mesma constância de pedra. Não esboçava o mínimo terror no rosto. Ele não a entendia. Apenas precisava dela como nunca precisou antes. Começou a apertar aquela mão, com dedos, anéis, palma e costas, alheia a todo perigo
Sabia que não iria sobreviver a esse acontecimento. Cuidou de se despedir sofregamente de tudo do que sentiria falta. Percebeu que sentiria falta de tudo, até mesmo de sentir que estava morrendo. Chorou duas lágrimas silenciosas, sua dor mais parecia derramar pra dentro. E foi acumulando dor. Acumulando medo. Acumulando sentimento. Acumulando frio e suor. A concentração ameaçava romper seus limites nos últimos instantes de vida, e assim revelaria todo seu segredo e estragaria toda a memória que poderiam guardar dele, ou a expansão de tudo que ele era prometia engolir o mundo e dentro dele se fazer aberto, visível, e todos veriam seus segredos e intimidades. De qualquer forma estragaria a cria que teve de si mesmo.
A mulher do seu lado emergiu do transe que muito o sufocava. Havia se contaminado de inquietação. E como em uma maratona de revezamento, em uma troca de vigilante, o mundo voltou-se a ela, que era objeto até então. Era complicado para essa mulher compreender a decepção nos olhos dele. Ela havia feito tudo o que imaginou desejosa de agradar, ou ao menos de parecer agradável. Se suas boas intenções não se manifestavam em atitudes coerentes a suas vontades, a falta estava no hábito de esquecer-se de si. Há anos estava empalhada em si mesma, enferrujada não sabia como agir. É que sempre fora automática, amortecida de vida, mas acordara imersa em versão analógica, inteira manual.
Ela sentia que todo o amor que tinha dentro de si parecia não bastar para ele, mas fingia não ver aquele buraco negro ávido. Assim ia fartando-o de um imenso, fofo e leve algodão doce, esforçava-se em lhe dar uma vida em cor de rosa. Mas a saliva gulosa, daquela boca, derretia na velocidade de beija-flor todo aquele vazio feito de açúcar: “Como pode ser tão insaciável?”
Ela o amava, sem saber se isso era sentimento ou costume. Não estava certa se ainda continuava viva depois de tê-lo conhecido. Não conseguia desejar nada que não fosse para ele. Não desejaria, absolutamente, tempo livre se fosse para ficar longe dele. Sua vida havia se transmutado nele. Mas o mais impressionante dessa metamorfose é que ela ainda estava ali, existia. Havia se transformado nele, mas não era ele. O que diabos seria ela? De que substância seria preenchida? Afinal, ela havia saído nele, e o que restara para essa criatura que ficara?
Isso quase nem lhe interessava mais. É que ele estava ali do seu lado. O contato com a vidinha dele, mesmo que fora dela, a alegrava de pisca. Era até mais certa dele do que dela mesma. Sentia como se sua réplica ainda tivesse um vinculo transparente grudado nela. O amava com egoísmo de quem ama a si mesmo, o apreciava como um narciso debruçado sobre si.
Questionava-se em pensamentos anêmicos demais para se realizarem: “Como podia ser dois em um?” Era verdade, eles não eram um. Havia se esquecido de que já não eram mais, mas também sabia que não eram dois, preferiu pensar de objeto nessa situação.
Olhou pare ele com olhar de espelho. Arrepiava-se em tê-lo para si. Tinha a pessoa a quem mais amava no mundo. Rompendo os preceitos platônicos que não sustentam carne nem mortais, apertou sua mão ligando vida. Como o achava lindo. Seus olhos brilhavam como água
Engraçado como se sentia impar, sozinha e bastante de si nesse momento. Esqueceu-se do amor de osmose que a tomava por inteiros momentos antes. Estava sozinha de alma. Não queria mais nada. Mentira. Estava mentindo. Sim! Isso era certo para qualquer um que olhasse de fora. Em momento algum havia soltado a mão de seu par. Como se tivesse medo de se perder no vôo livre. Cansou de se ter. Queria mesmo era cuidar de seu pequeno amorzinho. Ele era o único que se encorajava nela. Gostava tanto de se doar. Doar-se a convencia de que era sim cheia de alguma substância secreta que havia ficado nela após a separação de tempos atrás.
O mais engraçado ou trágico era que a proximidade física entre ambos não garantia contato de alma, viviam em um planeta de mesma órbita, girando em torno de um mesmo eixo, mas eram povoados de realidades distintas.
Aí as engrenagens pararam. Mãe e filho desceram. E a roda gigante continuou.
Por: Tiago Paiva
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
Trecho de "Noturnos - O Final Em Dez Capítulos"
(...) Quando caminhávamos pelo cemitério em dias de ventania, entre as lápides era só vento. Tudo era antigo. Até mesmo as fotos de criança envelheciam com o sol. Tudo era póstumo. Até mesmo nosso presente. Tudo era depois. Eles andavam querendo divertirem-se com os nomes esquisitos, apostando quem encontraria o morto mais antigo. Eu andava esperando encontrar o nome do meu pai em algum túmulo. Enxergar a foto dele. Conhecer o rosto que me negou de conhecer. Que há muito tempo foi queimado nos álbuns de fotografia. Nos porta-retratos são apenas dois. Ela e eu. Centralizados na imagem. Tentando inutilmente suprir o vazio que o segundo deixara desde o dia em que partiu para ser o primeiro de alguma outra mulher sem terceiro. Acho que fui um fardo pesado demais para ele. Sei que fui pesado demais para ela também, mas nunca falou. Ela nunca falaria. Mas eu percebia. Enxergava meu peso nas rugas de seu rosto. Cada calo nas mãos cansadas eram um pouco mais de mim que ela precisava suportar calada. Com falta de ar ela parecia mais triste, e tristes morremos mais rápido. Tristes, não passamos de fumaça em madrugada vazia. Por isso na noite em que ela se foi, tudo era frio. Tudo era fim. Tudo era tarde demais (...)
Por: Rimini Raskin
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Dos Livros e Da Vida
Leio teu livro favorito enquanto lembro de como tu me narrava até mesmo o cheiro que tinham as folhas e de como tua vida está ligada a essas memórias olfativas. Lembro também que leio por ter terminado um dos meus livros favoritos, aquele que termina da maneira que não gostaria que terminasse. Ainda que na realidade meu desejo era de que não terminasse jamais. Mas isso é bobagem. Assim como o medo da morte e o medo que poderia ter um dia de si mesma a própria morte. Estou longe de casa. - Defina casa como quiser... - Neste lugar que posso resumir a ventos que espancam janelas, TV a cabo de cabos escondidos e uma poltrona cor de carne onde leio os termináveis romances favoritos. Os meus, os teus e de milhares de outras pessoas que em nada nos importam. Mas a verdade é que não aguento mais comer pão com presunto e queijo. E que sinto saudade de perfumes e cheiros que não sejam os das folhas amareladas de Camilo Mortágua e Otávia de Cádiz. Sinto também, mas só as vezes, que a loucura é uma constante pronta a me surpreender em cada esquina e todo espelho emoldurado ou não. Existem noites e noites como essa. Como essa em que o sono se confunde com o sonho que por sua vez se confunde com o filme que passa na TV. Existe a noite e a noite em que nada existe. E nessas noites em que nem eu existo, me digno a escrever fantasias e desenhar quimeras em minha memória de quem não está. - Quanto se pode deixar de viver? - Já não insisto. Chega, enfim o dia ... Ou seria outra vez a luz do banheiro com sua porta que abre sozinha? - Eu, dessas coisas não sei. -
Por: Rimini Raskin
Marooned
Existe algo de bucólico em quartos de hotel. Algo de imaginativo e alucinógeno. De certa forma há algo de hotel em cada quarto. Mesmo quando faço a barba e o sangue não escorre. Mesmo quando os passos do apartamento vizinho me incomodam. Mesmo assim ... - Tenho uma vista linda para um mar que em luto sussurra sua presença líquida e poderosa salgando aos poucos a areia de toda madrugada. Me debruço sobre pensamentos que pouco me valem nesta casa bastarda. Abandonado do meu mundo de lugar nenhum. Livre para cerrar os olhos e por alguns instantes escutar histórias indiferentes sobre vidas diferentes .... - Quantos antes de mim devem ter deitado nesta cama? Quantos tocaram esses objetos que hoje manuseio com sentimentos de posse? - Seguramente algum casal um dia se amou um pouco mais entre essas paredes que muito provavelmente verei pela última vez em algumas horas. Venta tanto lá fora que os corredores parecem possuídos por espíritos eólicos que precedem a luz do sol. Me perco no que me dizem os uruguaios na TV. Me perco mas não evito o riso ao constatar que suas galinhas falam o mesmo idioma que um dia também falaram as minhas. E é engraçado como a infância ocupa um espaço grande na memória de pessoas melancólicas. Vigio desde a minha janela o prédio vizinho. Observo as luzes, as sombras e os assombros de perceber que esta noite, ao contrário de todas as outras, não me pertence. Nem mesmo a ponte que me persegue parece me pertencer de forma convincente nesta noite-oposta-a-noite. - Afinal, quantos rios existem na vida? Quantos ainda devo cruzar para que me livre do primeiro, o da minha infância e primeira adolescência? - Pois por mais que eu tente, ainda não é fácil me despir da culpa de me sentir feliz. É como uma chaga, uma marca feita de fogo, visível apenas aos olhos dos meus. Não espero que me entenda agora, porque sei que depois que as luzes apagarem no teu momento de solidão, inevitavelmente concordará sobre existir sim algo de bucólico em quartos de hotel. Algo de passado mal resolvido. Algo de saudades muito bem explicadas.
Por: Rimini Raskin
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Mãe
Mãe, existe um lugar que eu gosto. Lá tem uma praça com estátua e tudo, mãe. Tem criança que posa pra foto e namorados que riem alto depois de cada beijo. Mas tem moça solitária também, mãe. Uma que segura o telefone como quem espera uma notícia de morte. Mas, mãe, também há um velho que segura o joelho direito com as duas mãos. E um cachorro querendo abocanhar os pombos -- como o Faísca aquela vez, te lembra, mãe?... Tem um rio, um muro e lugares para tomar café. E também existem, imagine a senhora, muitas mães, mãe. E nenhuma como a senhora. Mas as nuvens são negras e a espada da estátua parece pronta para rasgá-las a qualquer momento. Sinto saudades de coisas das quais não sei o porque, mãe. Te olho aqui do meu quarto e não consigo atravessar a porta para te dar um abraço. Talvez porque nada disso exista, mãe. Ou talvez porque nenhum de nós precise agora senão de um olhar.
Por: Rimini Raskin
Benjamin C.
Tristeza.
Amargura.
Pesar de uma vida fracassada.
Pesar desta morte que, fatalmente, será também fracassada.
Como não lembrar uma última vez da época em que eu sonhava com a minha morte?... Da época em que eu a queria bela, nobre, condicionada a altos valores?...Como deixar de me lembrar daquele tempo, na Avenida Ingres, minha cabana, depois mais tarde, já homem, quando eu procurava razões para morrer como se procuram razões para viver? Daquele tempo em que eu queria dar um sentido à minha morte tanto quanto um sentido à minha vida? Sim, como deixar de lembrar do tempo em que estava pronto para morrer contanto que fosse lutando, em pé, afirmando alguma coisa imperecível?
Hoje, nada. Nada senão uma morte por nada, à imagem de uma vida por nada.
Nada senão uma morte insensata, à imagem de uma vida privada de sentido.
Nulidade, nada senão nulidade, após uma vida inteira a serviço da nulidade.
E ninguém para me prantear; ninguém para lamentar minha perda; ninguém por quem morrer; ninguém até para saber que morri -- e meu corpo encontrado um dia, por acaso.
Morre-se como se viveu: circunstancialmente, como um cão.
Contudo, resta este texto.
O resto dessa vida sem resto.
A única coisa que deixo, eu, que nada deixo.
Meu primeiro texto.
Meu último texto.
Este texto em que, durante quatro noites sucessivas, tornou-se para mim uma mortalha.
Esse texto em que falei de meu pai e minha mãe, do diário dela, de Paradis e de tio Jean.
Que vou fazer dele?
Que posso fazer dele?
Queimá-lo? Destruí-lo? Enterrá-lo? Levá-lo comigo? Deixá-lo aqui, sobre esta mesa -- e aconteça o que acontecer?
Uma outra coisa talvez...
Uma última ideia...
Uma ideia absurda, eu sei -- porém não mais do que toda essa comédia a que, durante quarenta e dois anos, eu me prestei.
Esta ideia é que bastaria um homem, um só homem, uma só memória de homem...
É que basta um cérebro de homem, mesmo estéril, mesmo mudo, para, face ao mundo, face à horda...
Não é uma remissão. Não é uma esperança. Mas sem dúvida tampouco é o acaso que colocou, anteontem, esse homem no meu caminho...
É tarde.
Está em tempo.
Está na hora de partir -- como está dito, como está escrito: com medo de que o dia volte.
Agora, morrer depressa. Sem grandiloquência nem cerimônia. Sem toalete fúnebre nem palavra final. Morrer como se dá um passo em falso.
Assim se encerra a confissão de Benjamin, tal como veio ter às minhas mãos um dia em Paris, sem outra explicação. Tudo ali estava. Todas as pistas do caso. Todos os fios entrelaçados.Todas as indicações que, dispostas em desordem, iam me permitir refazer o curso de uma existência de que, aparentemente, eu fora uma das últimas testemunhas.
Na verdade não faltava senão a expressão do último ato -- aquele corpo que, misteriosamente, jamais foi encontrado.
Amargura.
Pesar de uma vida fracassada.
Pesar desta morte que, fatalmente, será também fracassada.
Como não lembrar uma última vez da época em que eu sonhava com a minha morte?... Da época em que eu a queria bela, nobre, condicionada a altos valores?...Como deixar de me lembrar daquele tempo, na Avenida Ingres, minha cabana, depois mais tarde, já homem, quando eu procurava razões para morrer como se procuram razões para viver? Daquele tempo em que eu queria dar um sentido à minha morte tanto quanto um sentido à minha vida? Sim, como deixar de lembrar do tempo em que estava pronto para morrer contanto que fosse lutando, em pé, afirmando alguma coisa imperecível?
Hoje, nada. Nada senão uma morte por nada, à imagem de uma vida por nada.
Nada senão uma morte insensata, à imagem de uma vida privada de sentido.
Nulidade, nada senão nulidade, após uma vida inteira a serviço da nulidade.
E ninguém para me prantear; ninguém para lamentar minha perda; ninguém por quem morrer; ninguém até para saber que morri -- e meu corpo encontrado um dia, por acaso.
Morre-se como se viveu: circunstancialmente, como um cão.
Contudo, resta este texto.
O resto dessa vida sem resto.
A única coisa que deixo, eu, que nada deixo.
Meu primeiro texto.
Meu último texto.
Este texto em que, durante quatro noites sucessivas, tornou-se para mim uma mortalha.
Esse texto em que falei de meu pai e minha mãe, do diário dela, de Paradis e de tio Jean.
Que vou fazer dele?
Que posso fazer dele?
Queimá-lo? Destruí-lo? Enterrá-lo? Levá-lo comigo? Deixá-lo aqui, sobre esta mesa -- e aconteça o que acontecer?
Uma outra coisa talvez...
Uma última ideia...
Uma ideia absurda, eu sei -- porém não mais do que toda essa comédia a que, durante quarenta e dois anos, eu me prestei.
Esta ideia é que bastaria um homem, um só homem, uma só memória de homem...
É que basta um cérebro de homem, mesmo estéril, mesmo mudo, para, face ao mundo, face à horda...
Não é uma remissão. Não é uma esperança. Mas sem dúvida tampouco é o acaso que colocou, anteontem, esse homem no meu caminho...
É tarde.
Está em tempo.
Está na hora de partir -- como está dito, como está escrito: com medo de que o dia volte.
Agora, morrer depressa. Sem grandiloquência nem cerimônia. Sem toalete fúnebre nem palavra final. Morrer como se dá um passo em falso.
Assim se encerra a confissão de Benjamin, tal como veio ter às minhas mãos um dia em Paris, sem outra explicação. Tudo ali estava. Todas as pistas do caso. Todos os fios entrelaçados.Todas as indicações que, dispostas em desordem, iam me permitir refazer o curso de uma existência de que, aparentemente, eu fora uma das últimas testemunhas.
Na verdade não faltava senão a expressão do último ato -- aquele corpo que, misteriosamente, jamais foi encontrado.
Por: Bernard-Henri Lévy
Das Madrugadas Em Que Me Condenso e Não Convenço
Faz tanto frio. Tanto frio quanto insônia dessa madrugada. Tanta madrugada quanto frio...e insônia pelo frio da madrugada acordada. Faz tanto que não sofro tão pouco. Mas faz pouco, isso sim, que não durmo o tanto que deveria dormir. Tenho as mãos tão geladas que não encontro coragem para me tocar a dias. E se não me toco, como poderia tocar a música que imaginei?... Sinto medo pelo vão da porta. Um medo pelo silêncio do escuro. Sinto pena. E se sinto, é porque hoje é meu aniversário. Quero os óculos escuros de Andy Warhol e o poder de me fazer morrer ao contrário sem ter que me sentir uma lata de sopa de tomate. Quero um trampolim para o próximo passo. Serão três longos meses. De espera. De desespero por antecipação. Preciso de alguém que leia minha mão. Que diga que minha linha da vida não é de um todo interrompida. Leio esse livro a mais de um mês. Degusto devagar as palavras e a sensação de ser um peruano tão parisiense quanto qualquer parisiense da Paris de maio de 68. Já não busco senão a mim mesmo. Qualquer um desses me serviria. Como um garçom de memórias da minha própria vida. Estou impaciente com toda essa agitação subterrânea/subcutânea. Estou porque sei. Sei que sob meus pés os vermes ensaiam guerras sangrentas e invisíveis ao olho nu. E por isso acredito que nossos governantes tenham sido ótimos em biologia. E por isso acredito na dor de dente que sinto. O gato corre sobre a casa com elegância maior que o que cai por entre as telhas em dias de teimosia. Os cães estão mudos. Talvez seja o frio que lhes trave a garganta. Assim como acabou por travar para sempre a vida do pobre andarilho na madrugada passada. Ainda que para sempre não exista senão para a estupidez. E o que importa se sou eu quem sente ganas de latir por toda angústia na casa do lado e na outra e na outra que assim como na minha, também se angustia com todo silêncio dos que dormem para descansar?. Não se incomode pois não me importa se faço sentido. Não se incomode pois não me importa se te incomodo. Não me incomoda tua visão de talento. Apenas me importo em ser verdadeiro até mesmo nas minhas mais sórdidas mentiras. Por fim. Feliz aniversário pra mim. Que mesmo com vinte e quatro capítulos ainda não consigo completar um livro que valha a pena ser lido...senão vivido.
Por: Rimini Raskin
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
Sobre a mecânica nos espíritos da escrita
Acho que a mecânica à qual tu te referes é na verdade minha tentativa de criptografar a naturalidade. Com certeza o emocionalmente natural é sempre mais tocante, mas esse texto em especial não deveria ser tratado como um desabafo, ele é um devaneio, uma visão de final de madrugada onde o sono e o sonho se confundem e nos confundem de maneira que nem tudo o que parece ser é, e nem todo aquele que se diz algo, necessariamente diz algo.
Por: Rimini Raskin
Sobre o Eterno, o Nada e o Infinito!
O "infinito" é abstrato, na verdade ele é como o "nada", não existem senão em palavras. O "eterno" completa a santa trindade do imaginário. Nenhum deles me serve, apesar de não conseguirmos fugir deste conjunto de fatores. Ao nascer, o Infinito são as possibilidades, o nada representa a vida e suas frustrações adquiridas ao longo do tempo; e para completar, eterno é o silêncio da morte! Real? Imaginário? Pouco importa. Afinal, o que me interessa de verdade são as experiências e não os seus motivos!
Por: Rimini Raskin
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