sexta-feira, 24 de maio de 2013

Quando Tom Waits cantar Godá



 Meretrizes de trompetes milagreiros e sexofones úmidos
invadirão as ruas do teu bairro com as mensagens roucas
dos antigos lobos do mar e cães portuários do cruzeiro do sul

E choverá um amor sujo e barulhento sobre os telhados esquecidos
De velhos vagabundos que relembram paixões da adolescência
ou se afogam um pouco mais entre os seios volumosos de uma cama qualquer

Quando Tom Waits cantar Godá

A bebida elevará tua angústia a um nível de arte
Marginal & linda & de penetração surpresa em ouvidos desavisados
Que depois de desvirginados jamais voltarão ao lugar

Quando Tom Waits cantar Godá

Dormiremos de porre com um sorriso largo no rosto abatido
Sobre as coxas macias da longa noite do amor universal

Quando Tom Waits cantar Godá


Quando Tom Waits cantar...


Por: Raskin


*Fotografia do filme Howl de 2010

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Vontade Própria



Das coisas que não fiz
Dos muitos que não fui
Das noites que esqueci
Nem ligo mais
Se não for, foi por que eu quis


Por: Raskin

sábado, 20 de abril de 2013

Terceira Noite



Naquela manhã cada um de nós estava em casa, na cama. Era muito cedo, mas ao contrário de todas as outras manhãs, nessa não foi difícil acordar. Era dia de eclipse, dia de corrermos para o morro e passarmos horas observando o fenômeno solar através de nossas chapas de raio-x. Os três sentados, ombro no ombro, devíamos ter nove, dez anos no máximo, mas disso não lembro com certeza. Recordo que todos ficavam apreensivos com o acontecimento. Um misto de curiosidade e medo do que pode acontecer. Morar em cidade pequena é um pouco como viver na idade média, só que com luz elétrica. Na época achei mágico, muito misterioso. Hoje penso que aquilo possa ter sido um prelúdio do fim, um simbolismo cósmico. A vida sendo ocultada pela noite. Os pássaros desorientados com a escuridão repentina. Nossas avós aguardando pela volta de Jesus Cristo que dessa vez desceria do céu acompanhado por seu exército de escravos angelicalmente andróginos; Mas para nós, era como se o mundo parasse por algumas horas. Como se morrêssemos por alguns instantes esperando a nave que nos levaria para um planeta melhor. Raul começou a escrever naquela manhã, talvez tenha começado antes, mas gosto de pensar que foi no dia em que o sol se deixou morrer antes da hora. Ensinando que não interessa a intensidade do brilho ou o grau de importância, algumas vezes, até os deuses fraquejam....*



- Raskin




* Trecho do capítulo Terceira Noite, extraído do romance Noturnos - O final Em Dez Capítulos
 

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Coração



Meu coração é Coréia
Coração Vietnã
Coração Argélia
Angola vermelho-sangue

Um coração Cuba
Bombeando Venezuela petróleo
Coração Praga
Paris estudantil

Esse coração Líbia
Coração Egito piramidal
Indígena coração ZapaMéxico
China lendária navios tipo exportação

Coração latinoamérica
Órgão despedaçado
Amor partido
Moribundo soldado
Cansado de se decepcionar

Um coração incurável
Que sonha
Apesar dos homens


Por: Raskin

terça-feira, 16 de abril de 2013

sábado, 13 de abril de 2013

Haicais





I

Nada além de unhas
cravadas com força
em nossas carnes cruas


II

Velas vermelhas
emanam do nosso desejo
suas últimas centelhas


III

Minha semente
sobre teus seios, despejadas
em êxtase latente



Por: Raskin





segunda-feira, 8 de abril de 2013

Do Sonho Do Vigésimo Anjo Alfabético


1

Mataram os meninos
enquanto deitados na cama de mato
bebiam a vida das tetas de uma vaca
tão grande quanto a própria existência

Mataram os meninos
justo quando acordaram para mijar álcool
nos banheiros escuros do cosmos
observados pela Ursa Maior

Mataram os meninos
que na ânsia de viver
engoliram pedaços enormes de carne e mistérios
maiores que a própria garganta

Mataram os meninos
&
Não houve perdão

Mataram os meninos
&
Nunca souberam por que
Nem nunca irão saber

Mataram os meninos
e todas as mães choravam desesperadas
porque sofrer é o que as mães
melhor do que ninguém
sabem fazer

2

E por 80 horas choveu forte no olho do mundo
enquanto todos os anjos
do alto de suas orações
choravam piedade
na longa noite
que se abateu sobre o coração dos homens

Em vão...






Por: Raskin


domingo, 7 de abril de 2013

10abafo



Eu sei que tudo não passa de um sonho, que não existem saudades, que não existem palavras, mas dá uma angústia saber que nem a angústia existe na verdade. Tão difícil dormir e não sonhar. Tão difícil de acordar.


Por: Raskin

terça-feira, 2 de abril de 2013

Surrealismo Mata



Poema simples
o que está escrito, aqui está
assim é mais seguro
evita o risco
de alguém se machucar


Por: Raskin

quinta-feira, 28 de março de 2013

Porque o mar é longe e a lama é doce



Não consegui chorar por carcaças de automóveis empilhadas
Não consegui chorar por dúzias de garrafas vazias
Não consegui chorar por mães com filhos mortos na barriga de nove meses
Não consegui chorar por incompetentes tias suicidas
Não consegui chorar por policiais facistas de escudo e jovens desmaiados
Não consegui chorar por cristãos perseguidores e anjos apocalípticos
Não consegui chorar por girassóis arrancados pelo talo
Não consegui chorar por não ter tanta certeza
Não consegui chorar por velhos amigos apodrecidos
Não consegui chorar por antigos versos incapazes
Não consegui chorar por olhos cegos de tesão
Não consegui chorar por renagados irmãos nutrindo raiva no presídio
Não consegui chorar por linhas tortas de cuzão-zen-punheteiro
Não consegui chorar por todo maquinário bélico nuclear
Não consegui chorar por índios indesejados despejados pelo locador
Não consegui chorar por loucos profetas internados
Não consegui chorar por tantos pratos e nenhum pão
Não consegui chorar por ter pecado contra o amor
Não consegui chorar por malabaristas sujos de sinaleira
Não consegui chorar por jornais mentirosos e manipuladores
Não consegui chorar por televisores tagarelas de medo e silêncio e danação
Não consegui chorar por toda tragédia política do terceiro mundo
Não consegui chorar por todos vocês
Não consegui chorar por mim como um todo
Não consegui chorar por ninguém
Não consegui chorar por não ter visto mais cedo a face do deus sem face de deus
Sem face apenas não consegui

E se o sol ou a lua ou a morte não precisarem de mim
poderei deitar gelado e desperto
até a tristeza passar
até!


Y. Por: Rinkas

quarta-feira, 27 de março de 2013

As Coisas



Não está nas coisas
Elas não existem, as coisas
É entre elas, que não existem,
que está o Paraíso
Nesse estado de não vir a ser
de não estar
de existir na mente que não existe
e não nas coisas que existem na mente que não está

Abra os olhos
Respire pelo nariz
É tudo um sonho



Por: Raskin

sexta-feira, 8 de março de 2013

Supernova



Escorre entre as pedras
               a duras penas
                rente à grade
                           pupilodilatadas
Esvai-se em sopro
               em soco
               experimentais
                            cosmoexéquias

Brilha forte
       
          transparece ao longe
            aproxima o verso
              do meu ouvido
                 do meu ou
                    vido do
                      meu
                       ou

do nosso coração doído
tua visão cansada
não tem mais por que chorar



Por: Raskin
                     
                     
                     
              

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Chove!



Chove...

Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove...

Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.



Porque é que este sonho absurdo
a que chamam realidade
não me obedece como os outros
que trago na cabeça?

Eis a grande raiva!
Misturem-na com rosas
e chamem-lhe vida.



Vai-te, Poesia!

Deixa-me ver a vida
exacta e intolerável
neste planeta feito de carne humana a chorar
onde um anjo me arrasta todas as noites para casa pelos cabelos
com bandeiras de lume nos olhos,
para fabricar sonhos
carregados de dinamite de lágrimas.

Vai-te, Poesia!

Não quero cantar.
Quero gritar!



Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pòlen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono 
ainda tocada por um vento de lábios azuis...







Por: José Gomes Ferreira

Solidão Saturada



  • "Então me diga algo que faça sentido, tipo: em lugares públicos use fone de ouvido, ou ao conversar comigo finja ser meu amigo, também não tema o perigo! Se não for capaz de fazer isso, não dirija a palavra ou nem ouse pensar na minha pessoa! Desperdicei meu tempo ao seu lado só potencializando todo esse processo de mediocridade que me encontro! Então, solidão vá embora por favor e me deixe descansar em paz!"


    Por: Zé Luis Reinheimer Mazepa

    quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

    Dualidade



    No atormentado coração adolescente do protótipo de poeta libertino
    nas esquinas mornas de pequeninas cidades subtropicais
    na rebeldia nórdica de alvura desafiadora
    na pureza africana cuspindo-nos na cara milênios mágicos
    nas mentes greco-romanas maquinadoras de séculos
    nos impérios tribais pré-colombianos erguendo sangue virgem aos céus
    nas mãos fortes e seminais dos primeiros homens das cavernas
    na bactéria aquática quântica peixe réptil mamífero alado
    nas estéreis histéricas bombas nucleares
    nas circundantes metálicas sondas espaciais
    na paixão assassina de psicopatas gélidos
    nos noturnos vícios desregrados e imorais do pensamento livre
    nas tentações demoníacas à minar os alicerces dos bons costumes
    no vaso verde de vermelhas flores sobre a mesa
    no bondoso olhar cansado dos mais velhos que já viram muito só não viram tudo
    no aperto de mãos que sela um compromisso de cavalheiros
    na face angelical de bebês recém saídos do útero
    na compaixão
    no amor fraterno
    no limpo e iluminado abraço materno
    nos bons hábitos de higiene
    nas palavras doces do pastor
    no sermão dominical do bom padre
    na outra face oferecida ao tapa
    na cordialidade esfuziante do pretenso homem de bom coração
    na retidão luminosa dos que caminham durante o dia
    na languidez beatificada dos filhos de Abel

    No abraço criador de Abraxas


    Por: Raskin

    terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

    Desapego



    Meu poema é uma prece angustiada
    ditada na clareza do quarto conjugal
    diante da jovem esposa solar

    Um mantra inconsciente sussurrado em pensamento
    preenchendo o vazio intermitente de um coração neandertal

    Lembranças apagadas do mobiliário colorido da casa dos avós
    gosto louco do teso desejo virginal guardado nas calças

    Meu poema é um lamento divino
    um brilho vespertino da ideia esparsa
    Um monstro preguiçoso e carnicento
    ao apagar das luzes depois da última valsa

    No terreiro de umbanda um cachorro de três patas
    Cristo fitando nos olhos o demônio desértico do deslumbre
    ardência demente de liberdade difusa
    poema de vida sentida que diante da morte se insurge

    Verso de ouvidos grudados à terra molhada
    rios que gritam um sexo límpido de ardor ancestral
    meus jeans entre o limo e a lama da roça lavrada
    com alma exposta dentes tortos e a testa alta de hereditariedade cansada

    Oh criaturas que me sopram os louvores do necessário sofrimento
    carreguem meu poema em suas loucas asas de mariposa ordinária
    até o infinito relampeio do pensar
    onde todas as coisas se fazem eternas

    e desnecessárias


    Por: Raskin 










    domingo, 17 de fevereiro de 2013

    POÉTICA




    1
    então é isso
    quando achamos que vivemos estranhas experiências
    a vida como um filme passando
    ou faíscas saltando de um núcleo
    não propriamente a experiência amorosa
    porém aquilo que a precede
    e que é ar
    concretude carregada de tudo:
    a cidade refluindo para sua hora noturna e todos indo para casa ou então marcando
    encontros improváveis e absurdos, burburinho da multidão circulando pelo centro e
    pelos bairros enquanto as lojas fechadas ainda estão iluminadas, os loucos discursando
    pelas esquinas, a umidade da chuva que ainda não passou, até mesmo a lembrança da
    noite anterior no quarto revolvendo-nos em carícias e mais nosso encontro na morna
    escuridão de um bar - hora confessional, expondo as sucessivas camadas do que tem a
    ver - onde a proximidade dos corpos confunde tudo, palavra e beijo, gesto e carícia
    TUDO GRAVADO NO AR
    e não o fazemos por vontade própria
    porém por atavismo
    2
    a sensação de estar aí mesmo
    harmonia não necessariamente cósmica
    plenitude muito pouco mística
    porém simples proximidade
    da aberrante experiência de viver
    algo como o calor
    sentido ao estar junto de uma forja
    (talvez eu devesse viajar, ou melhor, ser levado pela viagem, carregar tudo junto,
    deixar-se conduzir consigo mesmo)
    ao penetrar no opalino aquário
    (isso tem a ver com estarmos juntos)
    e sentir o mundo na temperatura do corpo
    enquanto lá fora (longe, muito longe) tudo é outra coisa
    então
    o poema é despreocupação


    -  Cláudio Willer



    sábado, 9 de fevereiro de 2013

    Asleep



    Sempre achei que fosse sobre estar sozinho - ou pensar estar - procurar algo nas multidões do meu vazio sentimental, algo além do desejo de cura espiritual e um propósito maior que a dor. Achei que a luz azulada banhando o asfalto novo devorado pelas rodas desse ônibus pudesse me fazer dormir sobre as páginas subterrâneas do escritor sem vírgulas enquanto pequenos anjos adolescentes seguramente voam ao lado da minha janela para sussurrar segredos e mistérios que meu coração não consegue mais abrigar.
    Deformado, intragável e ao mesmo tempo pouco me fudendo para o espelho, minha alma anseia por uma santidade barbuda de roupas simples e olhar profundo, mas ninguém canta para embalar meu sonho, ninguém nunca me segura nos braços e eu, tolo, sigo em frente achando tudo tão normal, durão fingido com o peito peludo encarando quem passa como aquele que poderia salvá-lo mas está muito ocupado no momento. Quantas vezes assisti o espetáculo calado? Quantas vezes levantei sem denunciar o tombo? "Ok, não foi nada" era sempre o que repetia até me convencer da nova mentira contada. Todas aquelas noites de porre me sentindo um merda na volta pra casa, porque é isso que o álcool faz, e quem não perceber é porque é um merda ainda maior.
    Dominar o vazio exige esse desapego sacro de poeta russo que me é tão doloroso atingir, talvez o tenha sentido algumas vezes, nos olhos de um bebê que de tão puro me fez chorar 15 minutos ininterruptos  e quase choro agora outra vez por lembrar daquele brilho divino capaz de cegar minha visão de mundo material e me colocar em contato pela primeira vez com o nirvana; Mas depois disso parece tudo ainda mais confuso por reconhecer que a perfeição é confusa e aceitar a confusão é perfeito e confortante, mas aceitar o vazio é complicado, lutar por aceitá-lo como uma ideia, como todas as outras, abstrata, exige de mim muito mais do que só uma boa capacidade de interpretação.
    Então como proceder? Seguir adiante nesse mundo desolado que eu acredito ficar melhor à cada manhã - e realmente acredito nisso - me adaptando e me enquadrando e me escondendo sobre a túnica pesada da conformidade ou abrir mão de toda uma mentalidade ocidental criada em prol da recompensa material e afirmação social por base de acúmulos e desperdícios?
    Nenhuma maldita montanha para escalar, apenas tempestades do lado de fora e um desejo incontrolável de voar...sempre...mais...alto


    Por: Raskin




    quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

    Sacolas ao vento e a coisa toda



    - Tum...Tum...Toc...Psss...Tum...Toc...TumTum -

    É, meu amigo - o universo treme como uma taquara.
    Na cabeça das senhoras, nas mãos dos empresários fonográficos.
    As baleias, as anêmonas do mar, nossas mães.
    Pescadores em algum lugar do Atlântico sonhando com as namoradas

    - Tum...Toc...Brrrr...Tis -

    É inútil querer saber.
    E quem mentiu para o primeiro homem?
    E antes dele? Quem mentiu para Deus?

    - Rá...Rá...Rá -

    Quem mentiu? Deus?
    O grande vazio, a vacuidade libertadora.
    Gurias de 17 anos com seus vestidos-milk shakes-lábios frios de fantasia.
    Um calor infernal, esquife de fogo na realidade modorrenta da cidade pequena.
    Um paredão de nuvens alvoescurecidas, montanhas macilentas erguendo-se imponentes no céu azul celeste para anunciar o apocalipse necessário de vento e dilúvio onde anjos liquefeitos escorrerão lânguidos sobre telhados e cabeças de cachorro sem que ninguém lembre de agradecer a destruição que alivia o sono de alguns em troca da insônia de outros. Afinal, mais uma vez a Natureza podará seus galhos enquanto envia a conta sobre os reinos imaginários da humanidade.

    - E será sempre difícil para os homens agradecerem o que lhes escapa à compreensão -

    Por isso já peço agora em minhas preces para quando eu me for que um desejo me seja concedido e que eu possa voltar peixe, de mar ou de rio - isso para mim tanto faz - Só quero é nadar nadar NADA MAIS


    Por: Raskin









    quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

    Uma máquina de produzir Budas



    Se eu tivesse uma Kombi branca
    dirigiria até à montanha
    e construiria uma casa
    com minhas próprias mãos
    Se eu tivesse uma Kombi branca
    levaria minha filha até lá
    e passaríamos a tarde comendo pão
    e mel tirado das colmeias
    Se eu tivesse essa bendita Kombi branca
    talvez voltasse a sorrir mais
    e dormir melhor
    e me sentir menos inútil no mundo
    Se eu tivesse apenas uma linda Kombi branca
    deixaria minha barba crescer
    e rasparia a cabeça
    e passaria os dias cortando lenha e cuidando dos animais
    para que quando a noite chegasse
    pudesse estender minha rede entre as árvores
    e admirar as estrelas bebendo vinho artesanal

    "Se ao menos eu tivesse essa Kombi..." - me pego pensando -
    meu coração não seria tão apertado
    e teria, durante muito tempo, sobre o que escrever


    Por: Raskin



    sábado, 29 de dezembro de 2012

    Chuva


    Chove no pequeno purgatório natal
    e as borboletas não aparecem por aqui há dias
    as crianças não mais correm descalças no asfalto quente
    ou lutam nos gramados para provar quem é mais macho
    Chove no pequeno purgatório vital
    e eu só posso contar à ela um punhado de aventuras inúteis
    das tardes nos fliperamas e sinucas que vendiam cerveja choca para os guris da redenção
    É tanta água na ilha dos sonhos esquecidos
    que o relento é o melhor abrigo para quem assistiu os puteiros transformarem-se em igrejas
    e os velhos morrerem ou morrendo ou arrastando-se rua abaixo
    Não é raro encontrar nos ônibus um camisa preta dos meus tempos
    bêbado e gritando que só sai daqui em um caixão
    Imbecil, já está morto e não sabe, sempre esteve
    Agora também eu estou de volta à esse Hades suburbano
    E se as ruazinhas de pedra não carregassem tanto charme
    talvez já tivesse me deixado escorrer suave até o Gravataí

    Por: Raskin


    sábado, 22 de dezembro de 2012

    Giramundo



    Beleza, eu pago a próxima
    mas me acompanhe até a praça
    de dia dá para atirar migalhas aos garotinhos
    e ver como os pombos brincam no parquinho
    Beleza, pode trepar nas raízes,
    mas cuidado para não tropeçar nos galhos
    soube que os padres gostam de vir aqui fumar unzinho
    e que alguns viciados rezam nestes bancos nas manhãs de domingo
    Beleza, pode ser que eu esteja realmente fodido
    se me balançar de cabeça para baixo talvez minhas moedas voltem aos bolsos
    tu diz que não tem nada à ver
    mas eu sei que os que governam o país é que são loucos
    Beleza, talvez tu esteja certo nessa
    esse carocinho na minha nuca não é um chip
    os velhinhos não cochicham segredos de guerra
    mas não pode negar que as meninas da festa riram quando eu cantei em inglês
    Beleza, podem ter sido os comprimidos
    o absinto realmente não bateu legal
    aquele telefone tocando perto do palco foi um presságio
    talvez eu deva profetizar, só que ainda não sei o quê
    Beleza, eu sei que tu não existe
    mas fica mais um pouquinho aqui comigo
    aprecio tanto a tua companhia
    te trouxe até um cobertor
    Por favor, cara
    agora só tem ônibus às seis e meia


    Por: Raskin




    A (NÃO) POESIA



    A poesia é uma menina chorosa
    que manda cedo demais a gaita para o conserto
    Uma flor roxa de ipê
    que a chuva carrega pelo canto da rua até a próxima boca de lobo
    Uma lembrança desbotada que talvez nunca se apague
    diante das velas crepitantes da desesperança humana
    A poesia é uma palavra que dança na mão que alcança
    o verso contido nas pequenas coisas
    É a naturalidade da rima rota e disforme
    da vida louca de criança
    Acordar é poesia, amar é poesia, discordar, minha querida,
    também é poesia!

    O sexo, a noite, o dia, o banho de rio, apartamentos de fundos,
    despertadores quebrados, o beijo, os livros sagrados,
    travesseiros, a fome, o frio, o gozo, as ruas, pontes, viadutos,
    árvores de maçã, vermes de goiaba, velhinhos asmáticos,
    os estudantes ofegantes em uma aula de educação física,
    o (TUDO) e o (NADA), (não) (é) POESIA

    Até o ar que não se enxerga, mas que se sente na pele,
    que se escuta assustado no quarto da infância enquanto uiva lá fora
    nas tardes frias do minuano invernal,
    (Não) É POESIA!

    Por isso acreditei em Leminski, lá atrás, quando me convenceu da nossa inutilidade,
    nessa nossa incapacidade de desistir dos devaneios da ilusão.
    Pois poesia, em suma, minha pequena, é tudo aquilo que não carece explicação.


    Por: Raskin


    quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

    Passeios de silêncio e fogo



    Minha rotina consiste em correr
    fugindo a quarenta dias por hora
    em um disparo de vida
    vinte mil anos trinta centavos e onze montanhas
    um milhão de poemas quebrados cem mil corações partidos
    e uma estante de livros
    em branco em chamas em luto
    empoeiradas damas de salão esquecidas pelos pares
    cadelas estéreis vagando em busca do filhote que nunca existiu

    Depois a rua e só ela
    a lua sobre nossas cabeças
    o calor das garrafas de vinho
    meus amigos tombados
    e com eles toda a rebeldia barata
    sozinhos
    abandonados pelos sonhos nus da adolescência
    com suas cabeças de xoxota e bebedeiras tão grandes
    que seria preciso um guindaste para cada olho

    Monges polígonos em cantos de
    Hare Piva Hare Piva Krishna Krishna Allen Allen
    Cristos surrealistas chorando ao pé da cruz
    Uma cerveja gelada para matar a sede
    e outra ainda mais fria
    para curar a ressaca moral
    de não ser um bom escritor




    Por: Raskin

    Porto Alegre é uma puta que chora



    Corre sangue impuro sob o viaduto da conceição
    colchões pedras brasas mijo corrosivo vigas destruídas
    Frio fome sujo surgem os demônios que a noite carrega
    cães coisas e pessoas lâmpadas e poltronas anos noventa
    Sirenes raquíticas negras-sereias olhos vazios de rodoviária
    Cantos ruas desertas esquinas vielas bequinhos aço frio de facadas
    Polícia ronda porrada oferta e procura de cus e bucetas e caralhos
    Voluntários da Pátria em Farrapos rottweilers cafetões traficantes
    Estudantes bêbados estudantes fervilhantes postos de gasolina e correria
    Trans plásticas enfeites de calçada anjos não operados
    Mães solteiras bastardas de camisa aberta e cicatriz enorme na barriga
    Suor maconha máquinas de café farmácias de benflogin
    Chá de cogumelo para curar o marasmo de andar por aí sabendo que anda sem notar que morreu há anos entre a arquitetura fodida mil novecentos e doze que engole tinta e vomita cartazes
    Ah, Porto Alegre, tua música me faz chorar no inverno
    E nos ônibus parques e carecas dos motoristas de táxi
    teu nome me seguirá nos muros


    Por: Raskin





    quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

    É quase sempre sobre amor



    Abençoada seja a mijada bêbada no fim da madrugada
    Olhos grudados no piso-parede janela de madeira
    Cigarros no chão no vaso descarga quebrada
    Olhos vermelhos no espelho com sorriso comedor debochado
    Irmãozinhos empilhados ao redor da mesa de sexta-feira santa
    Cacos de vidro de vida de lentes de aumento embaçadas
    Absurdos ruídos de ratos nas paredes vermelhas da casa paterna
    E quase esqueço como isso explode cabeças em brilhos frenéticos
    Sem sentido outras vezes não sentindo outras vezes não mentindo
    Tantas vezes, tantas vezes meus camaradas, minhas calçadas
    Minhas calças sujas de vômito de vinho e de vinda matinal
    Chapados outras vezes chupados quase sempre mal amados
    Cambaleantes, acordando longe de casa no ônibus errado
    Depois de quartos, estranhos e cachimbos de haxixe
    Quartos estranhos e cachimbos de haxixe
    Quantos estranhos e promessas de amor esquecidas
    Quantas trepadas às claras em apartamentos sofridos
    Paixões sem tino rumo ou direção
    Puro tesão e braços ao redor do pescoço baseados na boca
    Pensando - cara, a vida deveria ser sempre assim
    Um domingo de ressaca chutando garrafas deitados em uma mesa de sinuca
    Rindo à valer das coisas que o álcool apaga
    Filhos de uma puta
    Sagrados filhos de uma puta
    Esse canto é para vocês
    Os que sabem do que se trata
    Os que ainda lembram de quem são



    Por: Raskin






    domingo, 25 de novembro de 2012

    Zodíaco



    Me vejo às voltas  com Urano sob os olhos
    e Netuno na quinta casa com Marte e uma garrafa de cachaça.
    Todos sorriem maliciosamente para Virgem  na esquina de Leão,
    perto das lojas de Aquário com crianças galopando Sagitário.

    Ainda observo os jovens deixarem farmácias com suas camisas de Vênus,
    prontos para noitadas que os velhos com Câncer sonham reviver
    presos em seus leitos de hospital com termômetros de Mercúrio
    e doses químicas capazes de derrubar um Touro.

    Depois disso dou de ombros e sigo em frente com meu jornal do dia
    comprado no cruzamento entre a rua Áries e a avenida Plutão.
    - Que dia é hoje? Pergunto ao vendedor entre o vai e vêm de carros
    - E isso importa? Me responde um mendigo sentado na calçada

    Afinal a bolsa de valores, o guia da TV e os conflitos no Oriente Médio
    terminarão enrolando Peixes na banca de Capricórnio
    ou rolando pelas ruas de Saturno com seus vendedores de anéis importados pagos em Libra.
    Pode ser até que terminem forrando a gaiola de algum passarinho azul
    que canta triste para uma parede de concreto, mas quem pode saber?
    Pobres anjos aprisionados, cantando e cantando sem poder voar.
    Gêmeos do homem na impotência em relação à morte.


    - Mas de que diabos esse cara está falando? Podem se perguntar alguns de vocês.
    E realmente essa é uma boa pergunta,
    porém quem sou eu para responder?


    Por: Raskin


    terça-feira, 13 de novembro de 2012

    Perfume


    Deleitoso delírio de rosto no rosto e cama improvisada
    Espaço louco entre teu ventre e tuas coxas
    Que cheiro é esse que possuem as adolescentes?

    Tesa pele acariciada na rigidez dos seios
    Lábio escarlate mordido no impulso
    Florzinha selvagem na imensidão do deserto

    Menina, teu corpo é primavera no inferno do meu toque
    Roubei teu momento, saqueei teu templo, corrompi teu leito de amor
    E agora canto teu sexo porque é lindo e louro

    Me diga quem desejaria rimar quando se pode beijar-te os joelhos?
    Esse mundo é a mente e amante é a mente do mundo
    Não temos tempo a perder pois o tempo perdeu os ponteiros no caminho

    Por isso te quero agora - tuas unhas, tua saliva -
    Teu gemido baixinho na altura do ouvido
    Te quero indefesa, cheia de vergonha
    Suada, incontrolavelmente apaixonada
    Ardendo tal qual fogueira na noite de São João Batista

    Na casinha depois do matagal
    No útero do céu de Tathagata


    Por: R. Raskin



    domingo, 28 de outubro de 2012

    Subjeto



    Hermeticamente devorado tantas vezes pela boca mole da vagina da loucura,
        que de muito chorar me nasceram olhos nas bochechas
        e lábios nas costelas feito guelras de peixe.
    Constantemente me transformo nessa criatura disforme - ou não? -
        sou minha própria utopia - Tristeza -
    e vejo o mundo com suas máquinas de guerra
        e fome e músicas MP3 através da enorme ferida aberta nas minhas costas
    A nação da estrela escolhida machucando crianças do outro lado do muro
        de lenços, terra e olhares negros em rostos morenos - já não basta? Que importa? -
        afinal sou só um monstro bebendo refrigerante em frente aos bancos de papel assassino.
    Só um monstro Só lembrando os professores da infância que invadem sonhos
        com suas caras de mulher velha e sorriso canceroso
        para ensinar antigas fórmulas de vida aos filhotes do homem.
    Tempos áureos em que a curiosidade consistia em apenas querer conhecer
        a árvore do queijo ou saber como funcionavam as máquinas de galinha assada
        - Não me deixarão descansar -
    Esse mundo inteiro como um corpo nu sob o sol da criação
        queimando coxas, bundas, seios - Mares de caralhos em chamas -
        Tonéis de bocetas calvas ou abrigadas sob seus hirsutos pêlos de barba arábica
    O Mundo Belo Mundo Belo é O Mundo
    Com seus índios suicidas, ganância branca azeda, negros morro acima,
        determinação asiática, crianças barrigudas, senadores de Satã,
        polícia de ossos e gás venenoso, bem feitores do inferno - É belo o mundo -
    Estou cansado, deixemos isso de lado, esse carro sem freios,
        portas trancadas - Quero outra vez enxergar a beleza -
        Eu lembro que um dia foi lindo
    Talvez antes de me quebrarem as janelas e a lágrima
        misturar-se à sangue e cacos de vidro.
        Tudo tão lindo que
    Até a morte ficava do lado de fora brincando com os viciados,
        e as beatas gordas agarradas à seus terços e à infindável piedade
    do nosso Senhor  Jesus Cristo
    pareciam agradáveis.
        Por isso só peço para ser outra vez eu mesmo - Mas só as vezes -
        Ser outra vez com V me ligando para dizer que descolou um chocolate para essa noite
    Pirados Malditos Macacos de Laboratório
        A noite é F.O.D.A.
        e mais do que isso
    Loucos,
        sacrossantos, sacripantas 
        Dom Quixotes com a língua de fora
    Me deixem ser monstro com vocês uma última vez,
        afinal estou doente da cabeça
        e se sinto medo da loucura é porque já estou louco
    Por isso me deixem enlouquecer um pouco - A vida há de perdoar? -
        Me deixem rastejar nesse lodo
        que logo canso e volto a segurar nas mãos de quem me espera voltar.


    Por: R. Raskin

        

    sábado, 20 de outubro de 2012

    Deus ou A Fábula da Limpeza



    Reviro a casa feito um louco, de cima à baixo.
    Olho atrás dos armários e dentro da geladeira...
    Nada!
    Quebro a cabeça pois sei que o deixei aqui em algum lugar.
    Arrasto a escrivaninha e levanto as almofadas...
    Nada!
    Talvez tenha caído entre as tábuas do assoalho e então arranco-as,
    uma a uma, para espiar com minha lanterna minuciosamente.
    Ratos e baratas, olhos vermelhos e patinhas frenéticas, de resto...
    Nada! Nada! Nada!

    Abro a cristaleira e lanço os copos contra a parede.
    Arremesso  pratos e talheres através da janela,
    estouro lâmpadas com meu cabo de vassoura
    "INFERNOS, EU SEI QUE ESTÁ AQUI, EU SEI DISSO!"
    Me desespero
    Rasgo as fotos
    Incendeio roupas sobre o colchão
    Espanco até a morte a pustulenta televisão
    "MALDITO SEJA, MALDITO SEJA!"

    Espalho as garrafas de bebida pela casa entre goles maiores que minha própria garganta
    Afogo as flores em álcool
    Me arrasto, serpenteando, até o banheiro
    Nu como um filhote de cão sarnento
    Meu rosto no espelho é profundo e nele as nebulosas concentram todas as estrelas
    Mesmo as que não mais existem
    "SOU CINZA!"
    Choro tanto e tremo tanto,
    que vai ficando difícil continuar em pé...
    Sento no chão e dou cabeçadas contra os azulejos
    A fumaça das roupas e da cama e do que mais estiver queimando
    entra sorrateira sob a porta
    Logo, logo estarei sufocado...
    "VOU SUFOCAR!"
    Abro a gaveta por reflexo, por um último reflexo
    E então lá está ele!
    Entre o pente aposentado e uma enferrujada lâmina de barbear

    "SEU SACANA MISERÁVEL, ESTEVE AÍ O TEMPO TODO?"

    Saio despido senão por sorrisos e uma tosse que quase me faz vomitar
    Enfrentando fumaça, móveis em brasa e cacos de vidro antes de chutar a porta de entrada e gritar atirado no gramado:

    "OLHEM PRA MIM, NÃO TENHO MAIS CASA, NEM ROUPAS, NEM NADA DE NADA...ESTOU LIVRE, E O NIRVANA É MESMO DOURADO COMO UMA CRIANÇA!"

    Completamente coberto pela fuligem de toda uma vida
    E é a primeira vez que me sinto limpo de verdade.


    Por: R. Raskin

    domingo, 7 de outubro de 2012

    A BAGUNÇA TODA... QUEM SABE





    Subi seis lances de escada
    até meu pequeno quarto mobiliado
    abri a janela
    e comecei a jogar fora
    as tais coisas mais importantes na vida

    Primeiro, a Verdade, ganindo como um dedo-duro:
    “Não! Direi coisas terríveis de você!”
    “Ah, é? Não tenho nada a esconder... FORA!”
    Depois, Deus, assombrado, corado e choroso de espanto:
    “Não é culpa minha! Não sou a causa de tudo isso!” “FORA!”
    Depois o Amor, aliciando subornos: “Você não conhecerá a impotência!
    As garotas da capa da Vogue, todas suas!”
    Apertei sua bunda gorda e gritei:
    “Seu destino é um desvalido!”
    Peguei a Fé, a Esperança e a Caridade
    as três juntas abraçadas:
    “Você não vai sobreviver sem nós!”
    “Estou pirando com vocês! Tchau!”

    Depois a Beleza... Ah, a Beleza –
    Tão logo a levei até a janela
    disse: “Você eu amei mais na vida
    ... mas é uma assassina; a Beleza mata!”
    Sem querer realmente atirá-la
    desci correndo as escadas
    chegando a tempo de apanhá-la
    “Você me salvou!” sussurrou
    Coloquei-a no chão e disse: “Anda.”

    Subi de volta as escadas
    procurei o dinheiro
    não havia dinheiro pra jogar fora.
    Só restava a Morte no quarto
    escondida atrás da pia da cozinha:
    “Não sou real!” gritou
    “Não passo de um rumor espalhado pela vida...”
    Atirei-a fora com a pia e tudo, sorrindo
    e então notei que o Humor
    era tudo que havia restado –
    Tudo que pude fazer com o Humor foi dizer:
    “A janela fora com a janela!”


    Por: Gregory Corso

    sábado, 6 de outubro de 2012

    Primeiras Iluminações



    Caminhei sob o brilho das luzes celestes
    chutando pedras e
    tampas de garrafa
    Sobre trilhos de pensamento os
    trens da imaginação
    carregados de vida
    deixavam escapar entre as frestas
    lascas de sonhos e letreiros opacos
    no profundo da noite fria
    e dos ventos
    que uivavam nas esquinas
    com seus gritos de índias ancestrais

    Caminhei por caminhar como quem não quer -
    quem não quer, mas que no fundo quer sim
                                                          encontrar
    uma razão, um sentido ou porra nenhuma
    desde que seja encontrada enquanto se caminha sem querer

    Um passo depois outro passo e
    assim passava o tempo em círculos perfeitos
    desenhados pelas mãos trêmulas da incerteza

    Não sabia, juro que não sabia
    Nunca tive ideia
    Queria tanto
    Penso que ainda quero
    Mas não sabia, juro que não sabia
    Ninguém nunca sabe
    Saber é pesado
    Pesado demais
    O melhor era não saber
    E eu não sabia, juro que não sabia

    Mas,

    Não saber me trouxe Frio
    Não saber me trouxe Fome
    Não saber me trouxe a Poesia

    E só então eu estive livre para saber
    que o poema era pão
    E o comi com deleite
    Juro, juro que soube - naquele momento -
    que o poema era abrigo
    e meu travesseiro de folhas
    era o poema
    Eu soube, juro que soube
    No instante em que enchi a barriga de palavras
    e o coração de cor

    Por isso não morro, não mais
    Eu vivo, vivo poema
    vivo no poema vivo
    visto do alto da montanha mais alta

    &

    Na cidade lá em baixo
    com suas formiguinhas cigarreando
    agora vivo cantando
    vivo cantando
    por cada girassol -agonizante-
    na prateleira do supermercado


    Por: R. Raskin





    domingo, 30 de setembro de 2012

    Anjos ou Uma viagem para Ginsberg


    Em um rancho quente no fundo do Mato Grosso, o vigésimo anjo alfabético engole poeira e vazio enquanto se afoga agonizante em um rio de preconceitos e estática repressão. Esse talento acorrentado à terra fofa depois da tempestade não sou eu mas poderia. Milhares de anjos chicoteados -suspensos- em ganchos de açougue humano por línguas estéreis e destrutivamente mal amadas por toda parte da minha cabeça. Anjos nus empurrados para o abismo por mãos invisíveis. Anjos mirando com dignidade e medo um céu ao contrário de onde a segunda vinda não significa nada. Anjos como o poeta barbudo sonhando voar em espírito montado em um caralho celeste sobre plantações de girassol


    Por: R. Raskin

    Santos



    Santos de coração sujo e pés enlameados
               Ocas imagens ansiosas por engolir
        todo o ouro das manhãs sagradas
    Ocidentais amargores cerebrais
                devorando carne gelada
        nas madrugadas primordiais do pensamento
    Embriagados de vinho e juventude ancestral
                 por ruas e muros astronômicos
        tagarelando convulsos
    por medo da magia negra do tempo

    --------------------------------------------

    Ali, que sabíamos da vida
    senão varrer calçadas imundas com as solas
    de nossos sapatos?
    Que poderíamos saber, com frio e risos de cumplicidade
    por uma maldita realidade em comum?

    --------------------------------------------

    Tolos santos de coração etílico e pés de barro
                Olhos semi-cerrados contra a ventania fantasmagórica
         que feria quem nela pudesse enxergar  os espectros negros de Satã
    Clamando por Salvação durante o dia depois de ter encarado no escuro
                a face de fogo de Moloch em sua ânsia por devorar almas infantis
          com a capacidade de inspirar
    Santos acuados pelo terror de que a doença cegasse os olhos da mãe
                Que o pai morresse como naquele pesadelo em que as contas
           não paravam de chegar pelo correio exigindo pagamento
    Santos com a família na merda, cerveja e cigarros
                Dependentes da caridade humana, comida e sapatos
           Prostrados, de cabelos longos e olhos cheios de curiosidade

    E então, seguir adiante
                Montados em motores de sonhos e quilômetros rodados
           Datas, estradas e tudo mais que nos deixasse o mais longe possível
    dos caminhos pisados à exaustão

    -----------------------------------------------

    Mas o tempo é um criminoso nato. Um bruxo inatingível que rouba e mata corações ao conceder-lhes pequenos confortos - regalos ilusórios - que nos distraem enquanto a mão gelada de Beatriz segue seu rumo devastador de separação. Pobres querubins empoeirados de beira de estrada, extraviados cedo demais no caminho para o paraíso. Onde quer que estejam, quem quer que sejam, tenham o rosto que tiverem
    - Que os caminhos lhes voltem a ser dourados uma última vez-


    Por: R. Raskin

    segunda-feira, 17 de setembro de 2012

    Não! ou O Tango das Palavras



    Não me chame pelo nome
                                           Não tenho nome
    Não me olhe direto nos olhos
                                           Não tenho olhos
    Não diga que me ama
                                           Não tenho força
                                                                    Não tenho passo
                                                                                            Não tenho verso
                                                                                                                     Pronto
    Só tenho o vício
                            Imerso
                                     Até o pescoço
    Não tenho calma
                             Não tenho alma
                                                    Nem cama que me descanse o
                                                                                                 Karma
    Só tenho o mundo
                               Absurdo
                                           Vazio até o âmago do
                                                                           Existir
    Por existir
                  Não tenho sono
                                         Não tenho como
                                                                 Não sinto
                                                                               Nada
    Não!

                                  Sinto nada. Não! Sinto. Nada. 




    Por: R. Raskin

    domingo, 9 de setembro de 2012

    Rock N' Roll



    como um beijo no pescoço
    uma mordida de leve no lado interno da coxa
    as unhas na carne navalhas do gozo
    tum dum putz ... o amor

    como um gemido surdo calado
    a cãibra  de leve leva o traçado
    além do sussurro melado transpira os lençóis
    tum dum putz ... o amor

    vermelho quente molhado
    língua pelo invasão
    encarnando minh'alma em teu corpo
    tum dum putz ... o amor

    a entrega plena de boca
    tato e tesão
    mergulho corpo adentro até  o talo
    no embalo vai e vem e vai outra vez
    por noite a dentro mundo a fora
    curtindo um sonho que um dia já foi
    e agora não vai
    tum dum putz ... o amor


    Por: Rimini Raskin

    sábado, 11 de agosto de 2012


    Já vi algumas bocas engolirem o sol,
    mas não sem queimarem a língua.
    Assim como braços arrancarem árvores enormes,
    mas não sem rasgarem a pele.
    É fácil ser o melhor, o maior ou o mais forte.
    Basta estar disposto a pagar o preço.

    Por: R. Raskin

    Rachaduras



    Nesses dias
    em que a vida se esconde nos espaços vazios,
    entre um móvel e outro móvel
    a poeira abriga civilizações invisíveis.
    E o roupeiro fechado
    que antes me levava às estrelas
    agora não é nada
    senão um móvel entre outros móveis
                                             outra vez
    Os fantasmas vagam &
    derrubam garrafas &
    comem a comida dos armários.
    Me finjo de morto, mas não sou aceito,
    - Carne e ossos demais - dizem uns,
    - Ainda não é a hora - outros me gritam
    antes de recolocarem-me na cama
    como já fizeram
    uma vez
    Sendo assim, o que me resta?
    Eu, que morto demais para a vida &
    vivo demais para os mortos
    não posso ser aceito em parte alguma.
    O que resta então,
    senão arrastar-me enquanto o tempo
    renova a realidade
    muito mais rápido
    do que o
    próprio 
    raciocínio
    consegue
    a
    s
    s
    i
    m
    i
    l
    a
    r
    ?
    Sei apenas que os carros seguirão batendo &
    os ônibus dobrarão a esquina de casa
    levando almas, aos montes, em seu trabalho
    de ligar nada à lugar nenhum.
    Sei também, que em breve será outono de novo &
    algumas árvores sufocarão suas raízes
    sob suas próprias folhas.
    Assim como um suicida trapalhão que tenta encurtar o tempo
    com as mãos ao redor do pescoço.
                                 Ambos falharão
    &
    seguirão vivos ao menos até a próxima estação
    do ano, de rádio ou do trem.
    Isso tudo depende de quanto a dor
    realmente comanda
    &
    do quanto ela é capaz
    de levá-los além.
    Li num livro 
    que o mundo não existe e
    vivemos uma ilusão que os hindus chamam de Maya.
    Dizia que Krishna nos ama por nossa bondade e
    que Cristo leva uma nova martelada por cada pecado
    que seus queridos filhos cometem.
    Diante disso, o que posso eu dizer?
    Pois se tudo realmente for verdade,
    poderei me considerar  uma criatura de sorte.
    Ou como se explicaria
    olhos tão lindos
    que me quebraria o coração
    decepcionar?


    Por: R. Raskin

    terça-feira, 24 de julho de 2012

    Bigode


    Cabeça pequena
    Beirando os 50
    Fazendo esse trabalho que eu fiz com 18
    Olho seu cabelo branco
    A careca acentuada
    O bigode
    O caminhar apressado
    Olho esse homem pequeno
    Tentando manter a dignidade
    Nesse emprego de merda
    E de alguma forma
    Eu sei que ele, assim como eu,
    Também odeia esses cretinos
    Olho esse bigode e tenho vontade de chorar
    Mas os ônibus seguem passando
    E entre eles talvez esteja o meu


    Por: R. Raskin

    O Zé e Eu



    Estamos completamente chapados
    Bebendo cerveja do lado de fora da festa
    Está quente, mas nem tanto
    A noite é boa para essas coisas
    "Tu é todo torto, charolastra..." Ele me disse
    "Por isso pega pouca mulher"
    Replico que a diferença entre nós dois
    Era que enquanto ele pegava três gatinhas
    Que não lembrariam da cara dele no final da noite
    Eu arranjaria uma que estaria me ligando daqui um mês.

    Mas agora que estamos mais velhos
    Eu percebo como fui um imbecil
    Fiquei com as malucas depressivas
    Que me ligam no meio da madrugada
    Para falar de suicídio
    Enquanto o Zé segue conseguindo
    Um corpo novinho em folha todo fim de semana

    Talvez seja por isso que me orgulho tanto da nossa amizade


    Por. R. Raskin

    A mosca mais gorda de Porto Alegre



    É a velha mais feia que eu já vi
    No restaurante mais sujo que eu já comi
    Seus olhos caídos
    Boiam em bolsas flácidas de pele
    Logo acima das bochechas vermelhas

    Ela mastiga e os dentes
    Parecem querer fugir da boca enrugada
    Tem o olhar perdido nas janelas imundas
    Quando um pedaço de batata
    Escapa dos lábios
    E ela o apara com as mãos
    Antes de devolvê-lo à dentadura dançante

    As paredes engorduradas
    Os vendedores de artesanato
    Os Rastafaris
    Os vagabundos
    Os malandros batedores de carteira
    Os talheres tortos
    Todos eles dividem o mesmo espaço
    Comem a mesma comida
    E cagam no mesmo banheiro da velha boca murcha

    A desgraça une os homens
    Lhes tira o nojo
    Os faz perceber que somos o mesmo monte de merda
    Merda branca
    Merda negra
    Merda amarela
    Merda mulata

    Só a mosca merece destaque no meio disso tudo
    Pois contei cinco pratos em que ela pousou antes de sair sem pagar a conta


    Por: R. Raskin