Por: Esmir Filho
terça-feira, 29 de junho de 2010
segunda-feira, 28 de junho de 2010
Quando as linhas insistem
Não suporto olhar no espelho
E só enxergar o reflexo do ridículo do amor.
Os ciúmes, os calafrios, o mal estar das palavras engasgadas.
Mas também (e principalmente), a vergonha das frases ditas.
Sinto o que sinto por não ter mais o que sentir.
Veja que grande tolo eu sou!
Pois não sofro por te amar em demasia,
E sim por querer tão pouco à os demais.
Quantos finais podem existir em um sorriso?
Isso realmente não sei.
Mas versos à uma musa morna
É poesia jogada fora!
Por: Yuri Pospichil
sexta-feira, 25 de junho de 2010
Desejos
O desejo vivo, o anseio eterno.
Não procuro a dor gratuita, mas torno-a banquete
Para assim desfrutar o açúcar do seu sangue amargo.
Faço do açoite a punição perfeita para meus pecados
E purifico-me por teu amor pagão.
Caminho entre a imundície do mundo à buscar prazeres ainda intocados.
Não escolho-te por tua pintura, mas por teu rosto pintado.
É uma pose que desejo, o teu corpo de amanhecer.
O olhar que queima, as mãos que elevam ao renascer
Arrancaria tuas máscaras menos a última,
Para que nunca venha a sentir-se totalmente nua.
Quero-te anjo caído,
Um doce demônio de asas podadas.
Quero-te para o mundo...
...O meu mundo.
Por: Rimini Raskin
quinta-feira, 17 de junho de 2010
Kidult
Sou tudo que desejo.
O guri que fala sério e o amor que retorna ao zero.
Sou tudo que detesto.
O profissional de fala firme e o leigo que não se leva à sério.
Sou aquele que destruo todos os dias pelo prazer de construir mais tarde.
Por: Yuri Pospichil
quarta-feira, 16 de junho de 2010
Minhas melhores cores
Te imagino cercada por minha melhor moldura.
Coberta apenas por beijos e amores plenos.
E como me encantaria desenhar-te um sorriso
Enquanto dormes teu sono de rainha,
Só para depois apagar-te dos olhos as lágrimas
E pincelar sem medo, cores em teu coração.
Faria isso enquanto mergulho minhas mãos em tinta fresca
para marcar-te o corpo com carinho.
Terias de mim o meu melhor,
mas nunca a perfeição.
Te amaria como bom mortal que sou
E erraria para na cama lhe pedir perdão.
Te ajudaria a cuidar da casa
e manter as plantas sempre molhadas.
Por isso só peço-te que não demores,
Para que não acabe por encontrar apenas uma palheta com tinta seca
E um pintor de mãos cansadas.
Coberta apenas por beijos e amores plenos.
E como me encantaria desenhar-te um sorriso
Enquanto dormes teu sono de rainha,
Só para depois apagar-te dos olhos as lágrimas
E pincelar sem medo, cores em teu coração.
Faria isso enquanto mergulho minhas mãos em tinta fresca
para marcar-te o corpo com carinho.
Terias de mim o meu melhor,
mas nunca a perfeição.
Te amaria como bom mortal que sou
E erraria para na cama lhe pedir perdão.
Te ajudaria a cuidar da casa
e manter as plantas sempre molhadas.
Por isso só peço-te que não demores,
Para que não acabe por encontrar apenas uma palheta com tinta seca
E um pintor de mãos cansadas.
Por: Rimini Raskin
domingo, 13 de junho de 2010
Olhares
Ou faz acreditar que os mesmos amigos já não podem ser mais uma surpresa?
Pois te digo que há uma forma toda especial de se amar o tempo,
Maneiras novas de voltarmos ao passado
E vontades de reinventarmos o futuro.
Nos vejo de mãos dadas pelas ruas,
Rimos e olhamos uns aos outros.
Somos partes incompletas de uma mesma vibração.
Fazemos do vinho uma fuga da singularidade fria.
Pedimos uma porção de fritas e cumprimentamos os novos amigos.
Que importa se suas amizades durem segundos, no máximo uma noite?
Existem planos para amanhã,
Relógios que despertam as 9 horas no domingo
E uma noite que terá ficado em um lugar especial da história.
Memórias que não apagam,
Momentos que se fazem eternos
E pessoas que se mostram indispensáveis,
Só reforçam o sentido
De verdadeiros laços de amizade.
Por: Rimini Raskin
terça-feira, 8 de junho de 2010
Fim
Lembro de estar carregando algo.
De estar sentindo calor.
Lembro de como teu rosto parecia perdido
enquanto todos diziam teu nome a sorrir.
Sempre me soou falso.
Mas contigo de repente a rebeldia era real.
Nos teus cabelos o cinema me saltava aos olhos.
E nos teus olhos buracos negros apontavam o vazio de uma alma química.
Me entreguei ao corpo que se entregava.
Partilhei da loucura doce de voltar a ter 15 anos.
Sujei-me de sangue, do meu e do teu sangue.
Lavei-me com lágrimas, as tuas, as minhas e dos anjos.
Escrevemos linhas convulsas,
Presenteamos um ao outro dores e incertezas.
Sorrimos, gargalhamos, transgredimos um mundo de regras.
Te perdi, te busquei e perdi de novo.
Nunca à tive, à mim mesmo sequer cheguei um dia à ter.
Dois personagens de um romance-dramático
Parte comédia, parte non-sense.
Mas olhe pra nós agora.
Quem somos?
NADA.
Nada além do que éramos.
Nada além do que fomos.
Andamos em círculos.
Cuidando um do outro à uma distância segura.
Correndo de volta sempre que a luz apagava.
Seria lindo se não doesse tanto.
Se as mágoas fossem esquecidas.
Mas olhe pra nós agora.
Quem somos?
TUDO.
Tudo que nunca quisemos ser.
Por isso me afasto de um corpo que afasta.
Te olho de uma distância maior.
Não seguro mais a tua mão.
ESCOLHAS.
São elas que decidem os rumos.
O tempo não concerta.
O tempo escorre,
E com ele nossos planos.
Sinto que posso ser melhor.
Sinto em ti uma tristeza que meu toque não cura.
Não há raiva.
Não existe paixão.
E o amor, bem, ele está tão cansado que decidiu dormir.
Só resta carinho por antigas fotos.
Não há pesar.
Não há culpados.
Não há o que não há.
Bem vinda de volta, minha vida.
Sorrisos me brindam.
Os amigos me chamam
E corações dispostos me aguardam.
Como uma parte minha que fostes,
Amo-te como deveria.
Só peço-te que fuja, Amélie.
Pois a solidão aguarda por aqueles que a perseguem.
E ainda espero te encontrar bem longe dela.
Por Yuri Pospichil
Lembro de como teu rosto parecia perdido
enquanto todos diziam teu nome a sorrir.
Sempre me soou falso.
Mas contigo de repente a rebeldia era real.
Nos teus cabelos o cinema me saltava aos olhos.
E nos teus olhos buracos negros apontavam o vazio de uma alma química.
Me entreguei ao corpo que se entregava.
Partilhei da loucura doce de voltar a ter 15 anos.
Sujei-me de sangue, do meu e do teu sangue.
Lavei-me com lágrimas, as tuas, as minhas e dos anjos.
Escrevemos linhas convulsas,
Presenteamos um ao outro dores e incertezas.
Sorrimos, gargalhamos, transgredimos um mundo de regras.
Te perdi, te busquei e perdi de novo.
Nunca à tive, à mim mesmo sequer cheguei um dia à ter.
Dois personagens de um romance-dramático
Parte comédia, parte non-sense.
Mas olhe pra nós agora.
Quem somos?
NADA.
Nada além do que éramos.
Nada além do que fomos.
Andamos em círculos.
Cuidando um do outro à uma distância segura.
Correndo de volta sempre que a luz apagava.
Seria lindo se não doesse tanto.
Se as mágoas fossem esquecidas.
Mas olhe pra nós agora.
Quem somos?
TUDO.
Tudo que nunca quisemos ser.
Por isso me afasto de um corpo que afasta.
Te olho de uma distância maior.
Não seguro mais a tua mão.
ESCOLHAS.
São elas que decidem os rumos.
O tempo não concerta.
O tempo escorre,
E com ele nossos planos.
Sinto que posso ser melhor.
Sinto em ti uma tristeza que meu toque não cura.
Não há raiva.
Não existe paixão.
E o amor, bem, ele está tão cansado que decidiu dormir.
Só resta carinho por antigas fotos.
Não há pesar.
Não há culpados.
Não há o que não há.
Bem vinda de volta, minha vida.
Sorrisos me brindam.
Os amigos me chamam
E corações dispostos me aguardam.
Como uma parte minha que fostes,
Amo-te como deveria.
Só peço-te que fuja, Amélie.
Pois a solidão aguarda por aqueles que a perseguem.
E ainda espero te encontrar bem longe dela.
Por Yuri Pospichil
sábado, 5 de junho de 2010
Heroes

Eu, eu serei rei
E você, você será rainha
Embora nada os afaste de nós
Nós podemos vencê-los, ao menos por um dia
Nós podemos ser heróis, ao menos por um dia
E você, você pode ser egoísta
E eu, eu beberei o tempo todo
Por que somos amantes, isso é um fato
Sim, somos amantes, é isso e pronto
Embora nada venha a nos manter juntos
Nós poderíamos enganar o tempo, apenas por um dia
Nós podemos ser heróis, para todo o sempre
O que você acha?
Eu,
eu gostaria de poder nadar
Como os golfinhos
como os golfinhos nadam
Embora nada, nada nos mantenha juntos
Nós podemos vencê-los,
para todo o sempre
Oh! nós podemos ser heróis
ao menos por um dia
Eu,
eu serei rei
E você,
você será rainha
Embora
nada os afaste de nós
Nós podemos ser heróis,
apenas por um dia
Nós podemos ser nós mesmos,
ao menos por um dia
Eu,
eu me lembro de estar parado
encostado na parede.
As armas atiravam sobre nossas cabeças
E nos beijávamos,
como se nada pudesse cair,
E a vergonha, estava do lado de lá.
Oh nós podemos vencê-los
para todo o sempre
Então poderíamos ser heróis
ao menos por um dia
Nós podemos ser heróis
Nós podemos ser heróis
Nós podemos ser heróis
Ao menos por um dia
Nós podemos ser heróis
Não somos nada,
e nada nos ajudará
Talvez estejamos mentindo,
Então é melhor você não ficar
Mas nós poderíamos estar mais a salvo
Ao menos por um dia
Por: David Bowie
sexta-feira, 28 de maio de 2010
Linhas Apenas

Talvez tenha sido ontem, ou será que foi hoje?
Quiçá amanhã tenha sido,
A manhã tenha tido
Ou a luz tenha feito
O que hoje se esquiva da cor.
Tento tocar-te e atravesso.
Olho através e ao avesso.
Faço o que à nada desejo,
E me entrego ao bocejo
Ao constatar no espelho a morte do amor.
Pois a noite me pego a pensar em coisas sem tempo,
Em mares sem vento
e barcos sem navegador.
Faço com que de tua ausência nasçam poemas,
Linhas apenas.
Curas inúteis de um ferimento sem dor.
O que tenho a dizer-te
É que com o tempo se aprende que só o nada é pra sempre.
E é por isso que te peço que cuide
Pois não existe paixão que não acabe
E MUITO MENOS,
Amor que não mude.
Por: Rimini Raskin
sexta-feira, 14 de maio de 2010
Canção para uma velhice indesejada
Tudo que toco, ao eterno leva um pouco de mim.
Bocas que beijo e mãos que aperto,
Eternas se fazem em momentos febris.
Há um "para sempre" escondido em cada segundo.
Um final anunciado em cada passada
E um "amor da minha vida" por metro quadrado.
Por isso tudo que toco, ao eterno leva um pouco de mim.
Para que em um futuro onde bocas e mãos me faltarem,
Me sobre memória da grama que um dia foi verde,
Da risada que um dia foi farta
E dos amigos que foram um dia, a paixão da minha vida.
Por: Rimini Raskin
segunda-feira, 19 de abril de 2010
Gastura Felina
Motiva um toque de estrelas em todo começo.
A delícia do meio e agora a doçura do fim,
Só me fazem sentir que nada é eterno.
De novo o novo outra vez.
Por isso, aqui deitados, corpo sobre corpo
O menos é mais e por isso me calo.
Porque falar quando tudo é tão simples?
Rápido como um suspiro
Doce como um gemido
E tão lindo quanto tua gastura felina!
Por: Rimini Raskin
domingo, 11 de abril de 2010
O Rei Menino
Todas as manhãs as palavras do menino soavam pelos corredores do castelo. Era impossível não acordar nervoso ouvindo os berros da criança.
- "NÃO QUERO CRESCER!" - Gritava o garoto.
- "EU ORDENO A TODOS PARA QUE NÃO PERMITAM QUE EU CRESÇA MAIS UM CENTÍMETRO!!"
Temerosos por seus empregos, os servos reviravam livros a procura de uma "cura" para seu pequeno senhor.
E assim o tempo passava e o menino repetia sua rotina insana de pular da cama e encostar-se em uma parede repleta de riscos que denunciavam o agravamento de sua terrível maldição.
Mandara chamar bruxos, magos e feiticeiros dos mais diversos cantos do mundo, porém amargou sempre a dor do fracasso.
Já não mais dormia, amaldiçoando o sono que o fazia crescer.
Quebrava espelhos ao constatar em seu corpo traços de homem e multiláva-se na esperança de impedir o processo.
Como um louco, passou a dar ordens à um castelo vazio e brincar com pestilentas ratazanas como se fossem dóceis cães de estimação.
Enquanto isso, o mundo lá fora mudava, mudava e crescia.
Decididamente não era um bom lugar para uma criança.
Por isso escondeu-se em seu quarto e pintou seu novo mundo com o próprio sangue, desenhava flores nas paredes e comandava seus exércitos de brinquedos quebrados.
Com o tempo as pessoas passaram a sentir pena do pobre Rei, lhe levavam comida e ofereciam ajuda, porém, nada conseguiam tirar do débil homem além de um sorriso e um convite para brincar.
Tornara-se uma lenda entre seu povo, um mito que despertava uma mistura de pena e compaixão entre os adultos.
Entre as crianças porém o sentimento era mais para um misto de admiração e curiosidade.
Eu era uma delas, escrevíamos redações na escola e até desenhávamos nosso ídolo no castelo.
Não era difícil vê-lo nas torres mais altas tentando capturar os pássaros, passava horas lá admirando a liberdade das aves e depois sorria e gritava como se tivesse ganho um novo brinquedo.
Por diversas vezes nos convidava para brincar, não íamos porque nossos pais proibiram, tinham medo de que pudesse ser perigoso.
O castelo era imundo, os vizinhos reclamavam dos ratos e escorpiões que invadiam as casas, mas ninguém era cruel ao ponto de tirar do pobre Rei a única coisa que lhe havia restado.
Lembro de acordar naquela manhã e ver todos sentados atônitos na frente da TV, um repórter jovem, visivelmente abalado dava a notícia que ninguém queria ouvir.
- "A cidade perdeu hoje seu cidadão mais querido. Morreu após uma queda de mais de 30 metros da torre de seu castelo."
- "Suicídio!" - Disseram os jornais.
- "Suicídio!" - Comentavam os adultos.
Porém, para mim...
...Tudo nunca passou de um menino Rei brincando de voar!
...Tudo nunca passou de um menino Rei brincando de voar!
Por: Rimini Raskin
sexta-feira, 26 de março de 2010
Sobre um dia no futuro

Fazia frio e o ar entrava como facas nos pulmões dos poucos pedestres sem pressa.
O vento soprava melodias vintage pelas esquinas de arquitetura antiga e fazia a cidade ganhar um ar lúdico com suas árvores agitadas, praças semi desertas e meninas de roupas retrô e sorrisos que lutam contra o bater de queixo.
Os meninos de cabelo bagunçado levantavam a gola de seus pesados casacos, encolhiam o pescoço e enrolavam o cachecol ao redor da boca.
Os velhos jogavam damas nas mesas de pedra com suas boinas cinzentas e olhares de cobiça inocente ao verem passar as mocinhas da Andradas.
Quintana e Drummond, imortalizados os observavam soprar hálito quente entre as mãos na tentativa de não enferrujarem as juntas.
Não haviam muitos artistas na rua, a estátua viva não criara coragem de enfrentar o frio com tão pouca roupa, e o pintor, adoecido, ficara em casa naquele dia.
Se não fosse o músico a cidade estaria imóvel, e quem de fora olhasse poderia jurar que eram as melodias Dylianas que faziam as coisas pulsarem.
Violão, gaita e uma voz antiga.
Eram esses os três elementos necessários para embalar os sonhos da menina de olhar perdido e ar de forasteira.
O frio não a incomodava, pelo contrário, a fazia se sentir em um filme. Sorria e arrumava a franja enquanto cantava baixinho.
Não perceberia de forma alguma o menino que a observava à semanas tentando criar coragem para puxar conversa.
O vento frio soprava folhas pelos parques, estimulava conversas animadas nas rodas de mate e fazia a cidade ser tomada por uma deliciosa preguiça.
As pessoas caminhavam tão confiantes, sentindo-se ainda mais lindas com suas roupas quentes e gorros de lã.
A noite glacial enchia clubs e pubs de mods, indies e todas aquelas denominações rotulantes que as pessoas adoravam usar para suas próprias definições.
A menina do parque sempre estava entre eles, mas nunca com eles, porém sozinha tão pouco ficava, passava o tempo acompanhada dos próprios sonhos, montando diálogos e atuando como uma atriz do cotidiano.
Sabia que chamava atenção pela beleza, mas sabia também que ninguém ali era seu Romeo.
Tinha dificuldade de entender as pessoas, seus dilemas eram profundos, seu pensamento porém era muito simples.
-"Porque não entendem que não preciso de muito? Um piquenique no parque bastaria para me fazer feliz!!" - Assim dizia ela ao mundo que se negava a ouví-la.
Viera um dia do centro do país em busca dos sonhos no sul, queria ser uma estrela, fugir de tudo que conhecia, queria o novo com a mesma força com que amava o clássico e fazia dos dias seus ensaios para a fama.
Fruto de uma familia desestruturada, aprendera a ser independente desde muito cedo, orgulhava-se de ser quem era e da força que tinha, e talvez por isso era tão severa consigo mesma.
Queria ganhar o mundo, receber a atenção que lhe foi negada na infância e bem no fundo não passava de uma criança durona que buscou na arte uma forma de dissimular e esconder as próprias dores, fazendo sempre acreditarem que pertenciam à uma personagem e nunca à ela mesma.
Em uma tarde qualquer uma criança chorava alto, talvez na rua de trás, mas isso não importava, afinal, não conseguiria incomodar os pensamentos do guri da Cidade Baixa, escorado no para-peito oxidado do apartamento que dividia com os amigos.
Olhava a estética quase estática do inverno de Porto Alegre e sonhava com a garota da praça da Alfândega, fantasiava conversas e sorrisos para logo depois ficar se punindo por tanta covardia.
Filho de uma família liberal que sempre incentivou sua arte, cresceu menino de sonhos fartos e pouca estabilidade sentimental, fazia da dor combustível para sua poesia e das paixões impossíveis sua maldição.
Rodava os clubs em busca de material novo para suas linhas e de uma Julieta para preencher o buraco que trazia no peito, a primeira tarefa sempre fora disparado a mais simples, afinal, a noite sempre reservara dezenas de pessoas bêbadas dispostas a contar uma boa história.
Era despojado, nunca tivera problemas em se relacionar com estranhos, por isso se castigava tanto por não conseguir olhar a menina nos olhos e falar um simples "Olá".
Talvez fosse o fantasma dos natais passados fazendo questão de lembrá-lo sempre sobre seus fracassados relacionamentos anteriores.
Cerrou os olhos com força por alguns segundos e retornou a abrí-los, passou o cachecol ao redor do pescoço e correu rua abaixo.
O músico não demorou a montar seu arcaico equipamento de som no costumeiro ponto da praça. Sorriu e acenou com a cabeça para a menina de casaco branco que já o esperava para ouvir as mesmas três músicas serem tocadas repetidamente durante as próximas horas.
- "Dylan?" - Perguntou o homem.
Sorrindo a garota responde - "Sim, Hurricane."
As notas enchiam o ar de saudades de um tempo que talvez nunca tenha existido senão nos seus próprios sonhos. Cantando de olhos fechados o tempo voava como os pombos destemidos que catam pipoca entre os pés de passantes destraídos.
Submersa na melodia confortante da voz daquela estrela suburbana, a menina não notaria nada a sua volta, nem mesmo o garoto que sentava a seu lado e cantava em uníssono as palavras de protesto do velho Dylan.
Quando as cordas emudeceram seu coração disparou, e por algum motivo não pode abrir os olhos.
- "Oi!" Com voz embargada disse o menino, mal acreditando que estivesse fazendo o que fazia.
Ela abriu os olhos e sorriu, sem responder nada.
Ele, envergonhado, se desculpa e levanta para ir embora, sentindo-se o maior idiota do mundo.
- "Não...fica, por favor!" Disse com boca de sonho a menina da praça.
- "Eu sou a Joan, e você quem é?" Continuou ela.
Antes de receber uma resposta o violão volta a soar:
"Lay, lady, lay, lay across my big brass bed..."
Os dois juntos olham para o músico que sorri de volta.
- "Gabriel!"
Destraída a garota responde - "O quê?"
- "Meu nome. Meu nome é Gabriel, tu tinha perguntado."
- "Ah, claro, desculpa, sabe, adoro essa música, ela não te faz sonhar?"
- "Faz, sempre." - Responde Gabriel com sorriso de criança sem graça.
- "Eu não sou daqui, cheguei a 2 meses, sou de Brasilia."
- "Legal ... eu nunca saí de Porto, aqui é meu mundo. Tenho medo de ir pra Paris e ela não ser como eu imagino."
Joan ri e Gabriel completa com ar mais relaxado.
- "A frase não é minha, é daquele velhinho simpático sentado alí no banco batendo papo com o Drummond."
Joan continuava sorrindo com satisfação, contente pelo novo amigo, sentia-se quente, esquecera o frio que a fazia tremer até pouco tempo atrás, não poderia explicar o que sentia, satisfação talvez, mas não, era muito mais do que isso, era como estar pela primeira vez em contato com uma alma que a entendesse.
Porém rapidamente deixou os pensamentos de lado, seria precipitado demais confiar em um garoto que mesmo que timidamente, tentava impressionar.
Gabriel notou o semblante de Joan se tornando um pouco mais sério, mais distante, praticamente alheia a tudo o que o menino falava.
- "Falei alguma besteira?" Perguntou Gabriel constrangido.
- "Não!" Disse sorrindo, Joan.
- "É que eu tava pensando, desculpa...é que...você é a primeira pessoa que prende minha atenção. Bom, tirando o músico da praça, mas com ele é diferente." Continuou ela.
Gabriel não sabia se ficava contente ou preocupado com o comentário e então replicou.
- "Entendo, quer dizer, eu acho que entendo. Eu mesmo achava loucura ficar te olhando de longe durante as últimas semanas, não sabia porque tua presença me chamava tanta atenção."
Joan gargalhou para o desconcerto de Gabriel.
- "A quanto tempo você me olha aqui? Porque só agora veio falar comigo?"
- "Não sei, me faltava coragem."
- "E como encontrou coragem para vir hoje?"
- "É que hoje percebi o quanto sou infeliz, incompleto. Rodo as noites conversando com estranhos, tenho amigos ótimos em quem não posso confiar meus segredos e não tenho ninguém que consiga ao menos entender o que eu sinto."
- "E eu sou essa pessoa?" Perguntou Joan com cara de surpresa e vaidade.
- "Não sei.....mas se não viesse aqui hoje, nunca teria a chance de saber."
- "Mas porque eu? Existe tanta gente muito mais interessante na cidade, porque eu te faria ser alguém melhor?"
- "Nessa vida nada somos, todos sempre estamos, por isso precisava vir aqui hoje, não teria outra chance de tentar deixar de estar sozinho."
Joan sorria incrédula diante da sinceridade apaixonante de Gabriel, era como se a praça fosse um enorme palco para o espetáculo da paixão instantânea, um cenário digno de uma nouvelle vague de Truffaut, uma Paris imaginária, uma Nova York preguiçosa ou simplesmente uma Londres cenográfica.
Dois velhinhos observavam o casal a uma distância relativamente próxima, lembraram da juventude e se encheram de saudade de uma Porto Alegre onde as sereias da Rua da Praia usavam vestidos finos para impressionar os cavalheiros de terno cinza e chapéu de feltro que tomavam café e espiavam o movimento por sobre os jornais da manhã.
O músico também os acompanhava de forma discreta, cantarolava Mr. Tambourine Man e lembrava do grande amor que um dia deixara em Uruguaiana.
- "Acredita que pessoas possam se completar?" Indagou Joan.
- "Não sei, acho que podemos sempre somar."
- "Como assim somar?" Replicou a menina.
- "Somar...todos temos uma carga de vivências. Felicidades, tristezas, conquistas, frustrações. Podemos somar alguns de nossos conhecimentos, mas sempre vai caber a outra pessoa pegar apenas o que julga benéfico."
- "Concordo...falta essa ligação na nossa geração. Falta união, me sinto estranha por ser tão sozinha, por me achar caótica ao ponto de não aceitar praticamente ninguém na minha vida. Mas afinal, de quem é a culpa? Minha? Do mundo?...Já nem sei mais, mas sinto falta de me sentir parte de algo...ou de alguém."
Houve um silêncio entre os dois, apenas se olhavam, tentando talvez reconhecer na face alheia um passado em comum, ou pelo menos um futuro em que pudessem acreditar.
O vento soprou com mais força, jogando os cabelos de Joan sobre os olhos. Gabriel sentiu-se tentado a tocar seu rosto, ajeitar-lhe a franja...mas não o fez.
Baixou os olhos e buscou coragem para falar o que sentia, e novamente não fez.
-"Gabriel."
-"Oi."
-"Que houve? Ficou tão calado, sinto como se quisesse me dizer alguma coisa."
-"Não sei, não sei o que dizer, as tuas palavras me deixaram um pouco estático, surpreso de uma forma boa, mas sei lá...me fazem pensar em tanta coisa. Sabe...Qual o propósito de tudo isso?"
-"Tudo isso o que?"
-"De tudo isso...da vida, dos sentimentos, dessas angústias...das tuas dúvidas que são também minhas dúvidas...me sinto bem, aqui, conversando contigo, alheio de toda rotina estéril do mundo. Aqui, como em um conto de amor escrito por um aspirante a escritor. Sabe? Tipo, sem regras, sem preocupações estéticas...somos nós dois e essa praça...todo resto é cenário, todo o mundo é um set de gravação de algum romance non-sense."
A menina não sabia o que dizer, apenas sentia as palavras de Gabriel lhe tocarem em alguma parte do peito que a muito tempo ninguém ousara tocar. Flutuava em pensamentos novos, vontades novas de ser...de fazer.
Admirava o modo como o hálito do garoto virava fumaça em contato com o ar gelado do mundo.
Sentiu ganas de tocar-lhe o rosto...mas não fez.
-"Nunca ninguém conversou assim comigo...achei que pessoas assim, como você, só existiam em filmes."
Gabriel sorriu lisonjeado.
-"Não sou diferente de ninguém eu acho...é que ao contrário da maioria, acho que nós conseguimos derrubar o muro de hipocrisias que o mundo construiu ao nosso redor desde o nascimento. Não sinto medo de te contar o que eu penso, o que eu sinto e o modo como eu vejo tudo que nos cerca. Sei que não me achará louco, e se achar, será de uma forma admirável."
-"É...eu sinto o mesmo... e isso me assustaria se eu não estivesse me sentindo tão bem."
O garoto cerrou os olhos com força novamente, e outra vez voltou a abri-los.
Afastou os cabelos que o vento fizera cobrir os olhos da menina e tocou-lhe o rosto com ternura.
Joan estremeceu, fechou os olhos e se permitiu ser tocada.
Agarrou-lhe a mão e beijou-lhe a ponta dos dedos.
Deixaram com que seus rostos se tocassem, sentindo todo o calor que o frio do mundo os negara durante todo esse tempo.
Beijaram-se em toque longo e sutíl, quase como crianças, como se o primeiro fosse já o último beijo do resto de suas vidas.
O músico sorria com angústia, com saudade, e por isso tocou ainda mais lindamente para o casal da praça da Alfândega.
Os velhinhos riram e continuaram o jogo de damas com suas tampinhas de garrafa.
Não existia mais o frio, nem a dor e nem a solidão.
Não existia mais a dúvida, o vazio ou o desânimo.
Enterrados por aquele beijo, os problemas sufocavam no rio de lava incandescente que corria no peito.
E como em um conto bobo de amor escrito por aquele que projeta em linhas o próprio sonho, naquela tarde de inverno a vida sorriu.
O vento soprava melodias vintage pelas esquinas de arquitetura antiga e fazia a cidade ganhar um ar lúdico com suas árvores agitadas, praças semi desertas e meninas de roupas retrô e sorrisos que lutam contra o bater de queixo.
Os meninos de cabelo bagunçado levantavam a gola de seus pesados casacos, encolhiam o pescoço e enrolavam o cachecol ao redor da boca.
Os velhos jogavam damas nas mesas de pedra com suas boinas cinzentas e olhares de cobiça inocente ao verem passar as mocinhas da Andradas.
Quintana e Drummond, imortalizados os observavam soprar hálito quente entre as mãos na tentativa de não enferrujarem as juntas.
Não haviam muitos artistas na rua, a estátua viva não criara coragem de enfrentar o frio com tão pouca roupa, e o pintor, adoecido, ficara em casa naquele dia.
Se não fosse o músico a cidade estaria imóvel, e quem de fora olhasse poderia jurar que eram as melodias Dylianas que faziam as coisas pulsarem.
Violão, gaita e uma voz antiga.
Eram esses os três elementos necessários para embalar os sonhos da menina de olhar perdido e ar de forasteira.
O frio não a incomodava, pelo contrário, a fazia se sentir em um filme. Sorria e arrumava a franja enquanto cantava baixinho.
Não perceberia de forma alguma o menino que a observava à semanas tentando criar coragem para puxar conversa.
O vento frio soprava folhas pelos parques, estimulava conversas animadas nas rodas de mate e fazia a cidade ser tomada por uma deliciosa preguiça.
As pessoas caminhavam tão confiantes, sentindo-se ainda mais lindas com suas roupas quentes e gorros de lã.
A noite glacial enchia clubs e pubs de mods, indies e todas aquelas denominações rotulantes que as pessoas adoravam usar para suas próprias definições.
A menina do parque sempre estava entre eles, mas nunca com eles, porém sozinha tão pouco ficava, passava o tempo acompanhada dos próprios sonhos, montando diálogos e atuando como uma atriz do cotidiano.
Sabia que chamava atenção pela beleza, mas sabia também que ninguém ali era seu Romeo.
Tinha dificuldade de entender as pessoas, seus dilemas eram profundos, seu pensamento porém era muito simples.
-"Porque não entendem que não preciso de muito? Um piquenique no parque bastaria para me fazer feliz!!" - Assim dizia ela ao mundo que se negava a ouví-la.
Viera um dia do centro do país em busca dos sonhos no sul, queria ser uma estrela, fugir de tudo que conhecia, queria o novo com a mesma força com que amava o clássico e fazia dos dias seus ensaios para a fama.
Fruto de uma familia desestruturada, aprendera a ser independente desde muito cedo, orgulhava-se de ser quem era e da força que tinha, e talvez por isso era tão severa consigo mesma.
Queria ganhar o mundo, receber a atenção que lhe foi negada na infância e bem no fundo não passava de uma criança durona que buscou na arte uma forma de dissimular e esconder as próprias dores, fazendo sempre acreditarem que pertenciam à uma personagem e nunca à ela mesma.
Em uma tarde qualquer uma criança chorava alto, talvez na rua de trás, mas isso não importava, afinal, não conseguiria incomodar os pensamentos do guri da Cidade Baixa, escorado no para-peito oxidado do apartamento que dividia com os amigos.
Olhava a estética quase estática do inverno de Porto Alegre e sonhava com a garota da praça da Alfândega, fantasiava conversas e sorrisos para logo depois ficar se punindo por tanta covardia.
Filho de uma família liberal que sempre incentivou sua arte, cresceu menino de sonhos fartos e pouca estabilidade sentimental, fazia da dor combustível para sua poesia e das paixões impossíveis sua maldição.
Rodava os clubs em busca de material novo para suas linhas e de uma Julieta para preencher o buraco que trazia no peito, a primeira tarefa sempre fora disparado a mais simples, afinal, a noite sempre reservara dezenas de pessoas bêbadas dispostas a contar uma boa história.
Era despojado, nunca tivera problemas em se relacionar com estranhos, por isso se castigava tanto por não conseguir olhar a menina nos olhos e falar um simples "Olá".
Talvez fosse o fantasma dos natais passados fazendo questão de lembrá-lo sempre sobre seus fracassados relacionamentos anteriores.
Cerrou os olhos com força por alguns segundos e retornou a abrí-los, passou o cachecol ao redor do pescoço e correu rua abaixo.
O músico não demorou a montar seu arcaico equipamento de som no costumeiro ponto da praça. Sorriu e acenou com a cabeça para a menina de casaco branco que já o esperava para ouvir as mesmas três músicas serem tocadas repetidamente durante as próximas horas.
- "Dylan?" - Perguntou o homem.
Sorrindo a garota responde - "Sim, Hurricane."
As notas enchiam o ar de saudades de um tempo que talvez nunca tenha existido senão nos seus próprios sonhos. Cantando de olhos fechados o tempo voava como os pombos destemidos que catam pipoca entre os pés de passantes destraídos.
Submersa na melodia confortante da voz daquela estrela suburbana, a menina não notaria nada a sua volta, nem mesmo o garoto que sentava a seu lado e cantava em uníssono as palavras de protesto do velho Dylan.
Quando as cordas emudeceram seu coração disparou, e por algum motivo não pode abrir os olhos.
- "Oi!" Com voz embargada disse o menino, mal acreditando que estivesse fazendo o que fazia.
Ela abriu os olhos e sorriu, sem responder nada.
Ele, envergonhado, se desculpa e levanta para ir embora, sentindo-se o maior idiota do mundo.
- "Não...fica, por favor!" Disse com boca de sonho a menina da praça.
- "Eu sou a Joan, e você quem é?" Continuou ela.
Antes de receber uma resposta o violão volta a soar:
"Lay, lady, lay, lay across my big brass bed..."
Os dois juntos olham para o músico que sorri de volta.
- "Gabriel!"
Destraída a garota responde - "O quê?"
- "Meu nome. Meu nome é Gabriel, tu tinha perguntado."
- "Ah, claro, desculpa, sabe, adoro essa música, ela não te faz sonhar?"
- "Faz, sempre." - Responde Gabriel com sorriso de criança sem graça.
- "Eu não sou daqui, cheguei a 2 meses, sou de Brasilia."
- "Legal ... eu nunca saí de Porto, aqui é meu mundo. Tenho medo de ir pra Paris e ela não ser como eu imagino."
Joan ri e Gabriel completa com ar mais relaxado.
- "A frase não é minha, é daquele velhinho simpático sentado alí no banco batendo papo com o Drummond."
Joan continuava sorrindo com satisfação, contente pelo novo amigo, sentia-se quente, esquecera o frio que a fazia tremer até pouco tempo atrás, não poderia explicar o que sentia, satisfação talvez, mas não, era muito mais do que isso, era como estar pela primeira vez em contato com uma alma que a entendesse.
Porém rapidamente deixou os pensamentos de lado, seria precipitado demais confiar em um garoto que mesmo que timidamente, tentava impressionar.
Gabriel notou o semblante de Joan se tornando um pouco mais sério, mais distante, praticamente alheia a tudo o que o menino falava.
- "Falei alguma besteira?" Perguntou Gabriel constrangido.
- "Não!" Disse sorrindo, Joan.
- "É que eu tava pensando, desculpa...é que...você é a primeira pessoa que prende minha atenção. Bom, tirando o músico da praça, mas com ele é diferente." Continuou ela.
Gabriel não sabia se ficava contente ou preocupado com o comentário e então replicou.
- "Entendo, quer dizer, eu acho que entendo. Eu mesmo achava loucura ficar te olhando de longe durante as últimas semanas, não sabia porque tua presença me chamava tanta atenção."
Joan gargalhou para o desconcerto de Gabriel.
- "A quanto tempo você me olha aqui? Porque só agora veio falar comigo?"
- "Não sei, me faltava coragem."
- "E como encontrou coragem para vir hoje?"
- "É que hoje percebi o quanto sou infeliz, incompleto. Rodo as noites conversando com estranhos, tenho amigos ótimos em quem não posso confiar meus segredos e não tenho ninguém que consiga ao menos entender o que eu sinto."
- "E eu sou essa pessoa?" Perguntou Joan com cara de surpresa e vaidade.
- "Não sei.....mas se não viesse aqui hoje, nunca teria a chance de saber."
- "Mas porque eu? Existe tanta gente muito mais interessante na cidade, porque eu te faria ser alguém melhor?"
- "Nessa vida nada somos, todos sempre estamos, por isso precisava vir aqui hoje, não teria outra chance de tentar deixar de estar sozinho."
Joan sorria incrédula diante da sinceridade apaixonante de Gabriel, era como se a praça fosse um enorme palco para o espetáculo da paixão instantânea, um cenário digno de uma nouvelle vague de Truffaut, uma Paris imaginária, uma Nova York preguiçosa ou simplesmente uma Londres cenográfica.
Dois velhinhos observavam o casal a uma distância relativamente próxima, lembraram da juventude e se encheram de saudade de uma Porto Alegre onde as sereias da Rua da Praia usavam vestidos finos para impressionar os cavalheiros de terno cinza e chapéu de feltro que tomavam café e espiavam o movimento por sobre os jornais da manhã.
O músico também os acompanhava de forma discreta, cantarolava Mr. Tambourine Man e lembrava do grande amor que um dia deixara em Uruguaiana.
- "Acredita que pessoas possam se completar?" Indagou Joan.
- "Não sei, acho que podemos sempre somar."
- "Como assim somar?" Replicou a menina.
- "Somar...todos temos uma carga de vivências. Felicidades, tristezas, conquistas, frustrações. Podemos somar alguns de nossos conhecimentos, mas sempre vai caber a outra pessoa pegar apenas o que julga benéfico."
- "Concordo...falta essa ligação na nossa geração. Falta união, me sinto estranha por ser tão sozinha, por me achar caótica ao ponto de não aceitar praticamente ninguém na minha vida. Mas afinal, de quem é a culpa? Minha? Do mundo?...Já nem sei mais, mas sinto falta de me sentir parte de algo...ou de alguém."
Houve um silêncio entre os dois, apenas se olhavam, tentando talvez reconhecer na face alheia um passado em comum, ou pelo menos um futuro em que pudessem acreditar.
O vento soprou com mais força, jogando os cabelos de Joan sobre os olhos. Gabriel sentiu-se tentado a tocar seu rosto, ajeitar-lhe a franja...mas não o fez.
Baixou os olhos e buscou coragem para falar o que sentia, e novamente não fez.
-"Gabriel."
-"Oi."
-"Que houve? Ficou tão calado, sinto como se quisesse me dizer alguma coisa."
-"Não sei, não sei o que dizer, as tuas palavras me deixaram um pouco estático, surpreso de uma forma boa, mas sei lá...me fazem pensar em tanta coisa. Sabe...Qual o propósito de tudo isso?"
-"Tudo isso o que?"
-"De tudo isso...da vida, dos sentimentos, dessas angústias...das tuas dúvidas que são também minhas dúvidas...me sinto bem, aqui, conversando contigo, alheio de toda rotina estéril do mundo. Aqui, como em um conto de amor escrito por um aspirante a escritor. Sabe? Tipo, sem regras, sem preocupações estéticas...somos nós dois e essa praça...todo resto é cenário, todo o mundo é um set de gravação de algum romance non-sense."
A menina não sabia o que dizer, apenas sentia as palavras de Gabriel lhe tocarem em alguma parte do peito que a muito tempo ninguém ousara tocar. Flutuava em pensamentos novos, vontades novas de ser...de fazer.
Admirava o modo como o hálito do garoto virava fumaça em contato com o ar gelado do mundo.
Sentiu ganas de tocar-lhe o rosto...mas não fez.
-"Nunca ninguém conversou assim comigo...achei que pessoas assim, como você, só existiam em filmes."
Gabriel sorriu lisonjeado.
-"Não sou diferente de ninguém eu acho...é que ao contrário da maioria, acho que nós conseguimos derrubar o muro de hipocrisias que o mundo construiu ao nosso redor desde o nascimento. Não sinto medo de te contar o que eu penso, o que eu sinto e o modo como eu vejo tudo que nos cerca. Sei que não me achará louco, e se achar, será de uma forma admirável."
-"É...eu sinto o mesmo... e isso me assustaria se eu não estivesse me sentindo tão bem."
O garoto cerrou os olhos com força novamente, e outra vez voltou a abri-los.
Afastou os cabelos que o vento fizera cobrir os olhos da menina e tocou-lhe o rosto com ternura.
Joan estremeceu, fechou os olhos e se permitiu ser tocada.
Agarrou-lhe a mão e beijou-lhe a ponta dos dedos.
Deixaram com que seus rostos se tocassem, sentindo todo o calor que o frio do mundo os negara durante todo esse tempo.
Beijaram-se em toque longo e sutíl, quase como crianças, como se o primeiro fosse já o último beijo do resto de suas vidas.
O músico sorria com angústia, com saudade, e por isso tocou ainda mais lindamente para o casal da praça da Alfândega.
Os velhinhos riram e continuaram o jogo de damas com suas tampinhas de garrafa.
Não existia mais o frio, nem a dor e nem a solidão.
Não existia mais a dúvida, o vazio ou o desânimo.
Enterrados por aquele beijo, os problemas sufocavam no rio de lava incandescente que corria no peito.
E como em um conto bobo de amor escrito por aquele que projeta em linhas o próprio sonho, naquela tarde de inverno a vida sorriu.
Por: Rimini Raskin
"No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas que o vento não conseguiu levar:
um estribilho antigo
um carinho no momento preciso
o folhear de um livro de poemas
o cheiro que tinha um dia o próprio vento..."
um estribilho antigo
um carinho no momento preciso
o folhear de um livro de poemas
o cheiro que tinha um dia o próprio vento..."
Mário Quintana
segunda-feira, 22 de março de 2010
My Baby
Em algum lugar, não muito longe de mim, existe uma estrela.
Ela brilha como fogo vivo e quando sorri até a noite se rende a sua luz.
Entristeço quando a vejo tão descrente do próprio brilho.
Entristeço tbm (e principalmente) por não estar mais perto, por não segurar sua mão ou falar frases bonitas ao pé do ouvido.
Existe uma atriz, my baby é como a chamo.
Ela é linda e tem luz como nenhuma outra.
A amo tanto que morreria se visse seu brilho se apagar.
Por isso:
"Não pare de sonhar estrelinha,
Pois teu nome está rodeado de lâmpadas em algum lugar do futuro!"
Pois teu nome está rodeado de lâmpadas em algum lugar do futuro!"
Por: Yuri Pospichil
domingo, 21 de março de 2010
Música que me faz sentir bem
Acordei cansado hoje.
Mas foi um bom cansaço.
Jack na sexta, banho de chuva e falta de ar na manhã de sábado.
Trabalho à tarde, dor nas pernas e garganta ferrada de tanto repetir as mesmas explicações.
K.Y.V. HOUSE à noite, caras cansadas, sinuca e drinks de abacaxi.
Mas o esquema é hoje.
Levantei com o Vitor me chamando e lembrando que eu precisava almoçar com meus avós.
Meio-dia...caramba...
Beijo na Kaory e tchau.
Mas é sobre hoje que quero falar.
Meu dia preferido.
O dia que acordei com a certeza de que poderia mandar o mundo para o inferno.
Não preciso agradar, não preciso sentir vergonha, não preciso me importar com porra nenhuma.
Foda-se esse mundo de monges, de gente padronizada, de "jovialidade medrosa".
De preconceitos babacas, de preocupações físicas, estéticas babacas, comportamentos controlados.
Falsas modernidades, libertinagens artificiais e liberdades limitadas.
Não sou o mais bonito, nem o mais inteligente muito menos o mais agradável.
Mas sou eu, e pra mim pouco importa teu corpo, teu rosto, tua forma de falar, de se vestir, o que me importa é gostar ou não de estar contigo e saber apreciar em ti o que me encanta.
Existem muros entre todos nós, é isso o que eu vejo, enormes muros de medos e preconceitos.
Grande geração a nossa...até a rebeldia foi padronizada, rebeldes estéticos, sem carinho, sem o menor valor.
...MENOS CONTATO...MENOS CONTATO...EU FALEI MENOS CONTATO...
...CONTATO NENHUM...
!Mas só tenho vocês!
Por: Yuri Pospichil
quinta-feira, 11 de março de 2010
Geração Inacabada

Somos uma geração de inacabados.
De incapazes de terminar o que quer que comecemos.
Crias de pais que nos mentiram quando disseram que poderiamos ser o que quiséssemos.
Nós não podemos!!!
só podemos ser nós mesmos.
Mas quem somos??
Temos tantas opções que preferimos nos esconder atrás de vontades de ser.
Acreditamos que não existe mais nada para ser criado e que só algo muito grande nos colocaria na história.
Odiamos o novo, por isso maquiamos o passado pondo-lhe novos nomes.
E acreditamos assim que nossa parte está feita.
Diante da dificuldade de criar, preferimos nos acomodar no velho, esperando a história entregar em nossas mãos o mapa para o caminho do futuro.
Não existe sorte, não existe evolução, não existe uma geração que não existe.
Que belo livro vazio daríamos.
Me pego pensando que meu pai com 25 anos já tinha uma carreira, casa própria, um casamento apaixonado e uma mulher grávida.
E eu? O que eu tenho?
22 anos, um emprego de salário razoável, pais que ainda ajudam a me bancar e amigos tão inacabados quanto eu; adolescentes sem consciência de que o tempo passou.
Talvez meus filhos, se eles existirem, salvarão o mundo que eu fiz questão de não ajudar a melhorar.
Nos criaram crianças egoístas e geniosas, donos de um mundo que nossos pais conquistaram... e por medo de estragá-lo, nos mantemos sentados esperando um sinal que nunca vêm.
Sabemos mais de filosofia, moda, música, cinema e história do que nossos pais....
E DAÍ??????
No que isso nos ajudou?
Continuamos nos achando caóticos incompreendidos, incapazes de nos sentirmos parte de alguma coisa.
Somos ridículos.
Apaixonados de coração razo e necessidade de sofrimento.
Não passamos de malditos hypes retrógrados e sem futuro.
De incapazes de terminar o que quer que comecemos.
Crias de pais que nos mentiram quando disseram que poderiamos ser o que quiséssemos.
Nós não podemos!!!
só podemos ser nós mesmos.
Mas quem somos??
Temos tantas opções que preferimos nos esconder atrás de vontades de ser.
Acreditamos que não existe mais nada para ser criado e que só algo muito grande nos colocaria na história.
Odiamos o novo, por isso maquiamos o passado pondo-lhe novos nomes.
E acreditamos assim que nossa parte está feita.
Diante da dificuldade de criar, preferimos nos acomodar no velho, esperando a história entregar em nossas mãos o mapa para o caminho do futuro.
Não existe sorte, não existe evolução, não existe uma geração que não existe.
Que belo livro vazio daríamos.
Me pego pensando que meu pai com 25 anos já tinha uma carreira, casa própria, um casamento apaixonado e uma mulher grávida.
E eu? O que eu tenho?
22 anos, um emprego de salário razoável, pais que ainda ajudam a me bancar e amigos tão inacabados quanto eu; adolescentes sem consciência de que o tempo passou.
Talvez meus filhos, se eles existirem, salvarão o mundo que eu fiz questão de não ajudar a melhorar.
Nos criaram crianças egoístas e geniosas, donos de um mundo que nossos pais conquistaram... e por medo de estragá-lo, nos mantemos sentados esperando um sinal que nunca vêm.
Sabemos mais de filosofia, moda, música, cinema e história do que nossos pais....
E DAÍ??????
No que isso nos ajudou?
Continuamos nos achando caóticos incompreendidos, incapazes de nos sentirmos parte de alguma coisa.
Somos ridículos.
Apaixonados de coração razo e necessidade de sofrimento.
Não passamos de malditos hypes retrógrados e sem futuro.
Por: Rimini Raskin
domingo, 7 de março de 2010
Por Adentro
Este invierno de lluvia fina y ramas secas
Mira pa'dentro del pecho hasta tocarme a los huesos.
Por la ventana mojada miro a la calle en tu busca.
Personas que pasan y fantasmas tranquilos
Hacen la vida un tanto más bruta.
Del jardin llegan a mís oídos las risas de los niños
Que para el terror de sus mamás, molestan a los vecinos.
Saltan, gritan y desafian al mundo con sus pequeñas bravuras.
Miro a los pájaros y canto, canto, canto por la cura.
Me convierto en pan, vino y queso.
Me siento vivo, bueno y pleno.
Me regalo amores, me construyo a lejos.
Porque de Dios quedó el adiós.
Y de mí,
Quedó los sueños.
Por: Rimini Raskin
Mira pa'dentro del pecho hasta tocarme a los huesos.
Por la ventana mojada miro a la calle en tu busca.
Personas que pasan y fantasmas tranquilos
Hacen la vida un tanto más bruta.
Del jardin llegan a mís oídos las risas de los niños
Que para el terror de sus mamás, molestan a los vecinos.
Saltan, gritan y desafian al mundo con sus pequeñas bravuras.
Miro a los pájaros y canto, canto, canto por la cura.
Me convierto en pan, vino y queso.
Me siento vivo, bueno y pleno.
Me regalo amores, me construyo a lejos.
Porque de Dios quedó el adiós.
Y de mí,
Quedó los sueños.
Por: Rimini Raskin
sexta-feira, 5 de março de 2010
Los Heraldos Negros
Hay golpes en la vida, tan fuertes... ¡Yo no sé!
Golpes como del odio de Dios; como si ante ellos,
la resaca de todo lo sufrido
se empozara en el alma... ¡Yo no sé!
Son pocos; pero son... Abren zanjas oscuras
en el rostro más fiero y en el lomo más fuerte.
Serán tal vez los potros de bárbaros Atilas;
o los heraldos negros que nos manda la Muerte.
Son las caídas hondas de los Cristos del alma
de alguna fe adorable que el Destino blasfema.
Esos golpes sangrientos son las crepitaciones
de algún pan que en la puerta del horno se nos quema.
Y el hombre... Pobre... ¡pobre! Vuelve los ojos, como
cuando por sobre el hombro nos llama una palmada;
vuelve los ojos locos, y todo lo vivido
se empoza, como charco de culpa, en la mirada.
Hay golpes en la vida, tan fuertes... ¡Yo no sé!
Por: César Vallejo
*Foto de uma das cenas do filme peruano Máncora, minha dica de cinema do dia, não esperem nada de novo do filme, mas para quem gosta de road movies latinos é um prato cheio, fotografia linda, trilha sonora ótima e uma mescla muito boa de liberdade e drama.
*Foto de uma das cenas do filme peruano Máncora, minha dica de cinema do dia, não esperem nada de novo do filme, mas para quem gosta de road movies latinos é um prato cheio, fotografia linda, trilha sonora ótima e uma mescla muito boa de liberdade e drama.
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Bom Partido
Não faço cerimônia
Não sou um bom partido
Tendo para os vícios
Posso causar desgosto
Sou um pervertido
Livre leve e solto
Um vagabundo astuto
Um vira-lata escroto
Mas você pode se divertir
Mas você pode se divertir
Eu não tenho regra
Não tenho destino
Vivo entre profanos
E anjos decaídos
Sou um cão devasso
Mundano e explosivo
Um pecador convicto
Um anti-herói vendido
Mas você pode se divertir
Mas você pode se divertir
Por: Renato Godá
Não sou um bom partido
Tendo para os vícios
Posso causar desgosto
Sou um pervertido
Livre leve e solto
Um vagabundo astuto
Um vira-lata escroto
Mas você pode se divertir
Mas você pode se divertir
Eu não tenho regra
Não tenho destino
Vivo entre profanos
E anjos decaídos
Sou um cão devasso
Mundano e explosivo
Um pecador convicto
Um anti-herói vendido
Mas você pode se divertir
Mas você pode se divertir
Por: Renato Godá
*Presente aferecido a mim (mesmo que inconscientemente, creio eu) por uma amiga cheia de bom gosto!! Tanx Miss!!
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