sexta-feira, 16 de março de 2012
terça-feira, 13 de março de 2012
Naquela linha o perigo não era o trem
Na garganta dos homens era graxa
Nas mãos dos meninos feito homens eram facas
artesanais
Era plástico quente e moinho
Nos corpos cansados
eram costelas quebradas
cortes, pontos e unhas arrancadas
Era água ácida arrancando a pele das mãos
Choro e cigarro
e pressa,
e pressa,
e pressa
Risadas para compensar
overdoses de remédio para aliviar
o caos organizado
Desacelere se não te derem luvas
E o frio da estanqueidade
O calor das soldas
e dos monstros de metal cuspindo lava negra
aconteceria algo
Eles não esperavam
e por isso aconteceria algo
Dos murmúrios surdos
haveriam aqueles para se impor
Para boicotar suas produções de coisas
produtos que nenhum de nós conseguiria comprar
Eles não acreditaram
Eram tantos sorrindo
que eles não acreditaram
Das revoltas de vestiário
nasciam as pausas
E quando o sol nascia pela janela
alguns sentiam o que eles não acreditaram
Das brincadeiras Chaplinianas
ao revezamento para tomar café
Eram tantos pensando
que eles não acreditaram
Não se enganem
não existia romance nesses dias
Não era bonito acordar cansado
ou sentir dores da manhã à noite
Nós víamos a dor
Mas para eles eram cestos vazios
Nós tentávamos alertar
Mas para eles eram números caídos
Um a um
sentamos à mesa
e despejamos o que queríamos
Mas não ouviram
e nos deixaram com tantas marcas
que nem mesmo eles poderiam um dia acreditar
Por: Rimini Raskin
segunda-feira, 12 de março de 2012
Ficaram Nas Pedras
Quando eu era mais jovem,
Quando o mundo era mais jovem,
Quando tudo já era velho
Mas mesmo assim
mais jovem
Do que um dia será...
Existia um cara,
ele parecia maluco
e tinha facas espalhadas pela casa
ao alcance das mãos
e até sob o travesseiro
Preparado para o que um dia sonhou acontecer...
E tinha outro cara,
Parecia doente
canelas finas e cabeça raspada
E ele não trabalhava
e já era bem mais velho que nós
Esperava por coisas que acreditava serem...
Iguais a eles existiam,
tanta gente existia
e tudo era mais jovem
menos as casas
que já eram velhas
e as pedras
que bebiam sangue dos dedos do pé
E todos esperavam por coisas que ainda seriam...
Até que o primeiro abriu mão das facas,
elas já não supriam a carência
e casou
Hoje mora em uma casa nova
na mesma rua velha de ontem
Talvez espere por algo que eu mesmo não sei...
Já o outro esperou até ir embora
e eu não sei depois
talvez trabalhe em algo,
Talvez todos trabalhem em algo que eu mesmo não sei
E é como se
mesmo os que ficaram
tenham ido embora há muito mais tempo do que eu consiga lembrar
Mas tudo isso foi antes...
Hoje seria loucura.
Por: Rimini Raskin
quinta-feira, 1 de março de 2012
Sleep: 60 min.
Tocam a campainha, já não sei que horas são. Mas é noite, eu sei porque olhei por uma fresta da cortina. Sei que é um pouco tarde, o mercadinho da esquina já fechou, posso enxergar daqui do quarto andar. Continua tocando, maldição. Deve ser algum vizinho, um testemunha de Jeová, talvez. Seja lá quem for, é insistente e acordou o cachorro do apartamento em frente. Talvez seja importante. Pode ser o sindico querendo me entregar a correspondência ou um policial para dar uma noticia de morte. Uma intimação, uma ordem de despejo, quem sabe. Não para de tocar e agora bate na porta. Deve ser sério, algo urgente, talvez alguém vindo informar que ganhei uma herança de um tio distante que não conheci. Talvez seja a mulher do apartamento ao lado querendo ajuda para consertar o chuveiro, ou uma velhinha precisando de uma xícara de açúcar. A campainha não para, e além de bater na porta, agora chama meu nome. - Tem uma voz agradável, lembra o timbre do Scott Walker – penso. Quem sabe possa ser um cobrador, aqueles malditos não perdoam dívidas de jogo, era questão de tempo até me acharem. Mas chamam por meu nome completo, meu nome de verdade, não podem ser os cobradores nem os agiotas. Talvez seja um amigo de infância que decidiu fazer uma visita e perguntar como me sinto. – Bobagem, não tenho mais amigos, ninguém do passado sabe que moro aqui. – refuto de imediato a ideia. Deu uma pausa. Acho que se foi. Mas não, merda. A campainha agora toca sem intervalos, o cidadão aperta e segura a chave fazendo o aparelho berrar a todo volume. Bate na porta com violência incitando a fúria do vira-latas que a essa hora já acordou o prédio inteiro. Me chama mais duas vezes e depois silêncio.
Ainda consigo escutar os passos pesados e irritados se distanciando no corredor.
– Que loucura, seria Jesus vestido de mendigo para testar minha fé? –
Por: Rimini Raskin
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
Já ví gente demais por uma noite
Sanidade é estar bêbado
correndo lomba acima
enquanto chovem garrafas ao redor
É rir sem controle
com o coração disparado
Frustrado por terem errado a pedrada
O negro correu primeiro
depois o polonês
Eu gritei de volta
e os carecas xingaram
antes de correr também
Do IAPI à
Av. Plínio Brasil Milano
Eram esses os dias
que me faziam
santo
Por: Rimini Raskin
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
Poema de boca cortada
Ele nunca vai poder reclamar,
falar que não sou um bom amigo.
Pode até não conversar mais comigo
ou me olhar na rua
Ele nunca vai poder duvidar
que ao menos fui sincero
que enquanto ele dormia ela passeava de calcinha na sala
sabendo que eu não dormia
Maldição de mulher,
me ligando enquanto ele estava no trabalho
e eu não querendo estragar nada
eu não
Me mandou um bilhete uma vez
A irmã entregou
A irmã que eu já conhecia bem
Mas eu não
Caralho, não quero saber se os dois não dormem na mesma cama
Eu não
Mas ele sim
me acorda no meio da noite,
quer conversar
falar que já sabe de tudo
Que mandou ela embora
Por que eu não contei nada?
Eu não...
A mulher não é minha
mesmo que tenha vindo bater na minha porta na noite seguinte,
dormido comigo em um sofá velho
ou dividido um quarto com o papa-léguas e a namorada estranha dele
Depois de um tempo eles voltaram
Mas eu não
Eu acabei gostando dela
das mentiras e das vontades de ser o que eu já era
A questão não é quem somos
Era quem eu representava
Eu era o desapego
o anti-amor bêbado
trazendo a aurora com as costas e os joelhos queimados do carpete
enquanto ela vestia minha camisa e gozava pedindo perdão
Não vou mentir
que a situação me divertia,
Mas isso antes da merda da consciência me acertar em cheio na cabeça
e eu deixar de ser fiel ao meus desejos
Creio que ele não deva me odiar,
mas se pergunta
eu também me perguntei várias vezes.
Sei que deveria,
que poderia ter contado no início
mas eu não...
E quando, depois de tudo,
for 3:40 da manhã no futuro,
eu estarei pensando pela última vez,
que aquele presente merecia silêncio
e uma boca cortada na borda do meu copo de vinho...
Por: Rimini Raskin
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
Uma coisa é simples, uma tinha cheiro, a outra não
Ela bateu na porta do meu quarto
Não lembro que horas eram,
Deixaram ela entrar.
Roupas de loja de conveniência
Um pouco largas no corpo magro
De peitos pequenos
De cabelo curto e uma carteira de cigarro no bolso
De desejo pré festa
De colchão no chão para não ranger a cama de ferro
Os ônibus na madrugada
não são muitos
Carregam poucos, extraviados ainda cedo
Embebedados por antecedência
Eu não conheço a festa, ela tão pouco
Quem leva é um amigo, quem convida é ele
Quem nos coloca na fila e cumprimenta o travesti na porta
A música é péssima,
A cocaína no banheiro unisex
é uma droga
A velha que tenta me vender pastilhas
é uma droga
Mas a pequena é quem eu escolhi para passar esse aniversário
Me esforço por ela que se esforça por ele
Mais tarde vou ganhar meu presente
No banheiro nojento
Sem papel
De chão escuro e grudento
E as portas não tem tranca
E alguém nos espia
E nos pede para entrar
Mas eu não deixo
é meu presente
O amigo deve estar no darkroom
Com um cara baixo e forte que ele viu na pista
Vejo uma vizinha no sofá com um cara
Me olha com cumplicidade
e tesão de reconhecer alguém
A música realmente é uma droga
O filme pornô no telão
é uma droga
A dançarina gostosa
é uma droga
Minha namorada ligando a noite inteira
é uma droga
Não gosto que encostem em mim
Nem quando aceito comprar água
para o cara passando mal,
pastilhado demais
talvez
Ela passou na porta por mim.
Linda, quase uma criança
Mas aqui dentro ela não é
Não tem peitos
Fico bêbado com cerveja cara
volto pra casa que não é minha
É do amigo
E ela dorme no meio
até eu acordar
É meu aniversário e estou de mau humor
Com as costas arranhadas
Uma namorada chorona que não entenderia
Que não era com ela que eu passaria a noite passada
que não era com outra senão aquela
de ontem
Hoje eu sou dela
E a outra me liga chorando
reclama que fui um cretino na pizzaria mais cedo,
que me odeia...
Por: Rimini Raskin
domingo, 26 de fevereiro de 2012
A Condição
pelas avenidas
as pessoas sofrem;
elas sofrem a dormir, elas acordam
a sofrer;
até os edifícios sofrem,
as pontes
as flores sofrem
e não há salvação –
o sofrimento senta-se
o sofrimento paira
o sofrimento espera
o sofrimento é.
não perguntem por que há
bêbados
drogados
suicidas
a música é má
e o amor
e o argumento:
agora este lugar
enquanto escrevo isto
ou enquanto lês isto:
agora é o teu lugar.
Por: Charles Bukowski
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
PEDAÇOS DE UM CADERNO UM POUCO CHEIO
Ela era loira e alta e tinha um riso um pouco vulgar, no sentido gostoso.
Tinha sapatos bonitos e roupas de adolescente.
Tinha malicia e achava engraçado me enganar.
Ela era desbocada, era olhos azuis esverdeados de água do mar,
era cheiro de ano quente e bronzeador e melão em flor.
Ela não era minha no começo, nem no meio foi, tão pouco ao final.
Apaixonada por um homem que não era eu,
Mas depois de um tempo isso pouco importava.
Eu, tão aprendiz, aprendi que não poderia tê-la no sentido de pertence,
não era uma jóia antiga ou prataria de familía, era loira com uma estrela no cabelo e unhas afiadas.
Era meu pouso, meu choro e outras vezes o dela.
Era minha cama na volta da escola com The Libertines tocando na TV.
E depois era casa, minha cama de solteiro e sono de desejos saciados.
Gostava quando me esperava na porta e eu não precisava bater na janela,
Nem pular por cima dos carros para não apanhar do irmão mais velho que morava nos fundos.
Gostava de vê-la caminhar no escuro, com a luz que vinha da cozinha clareando meio corpo;
E meio sorriso voltado me convidando para tomar um banho antes do jantar
de macarrão instantâneo e vinho doce de boteco.
Podíamos beber na calçada e falar todas as sacanagens que quiséssemos sem precisar chamar de amor,
Ir ao cinema e morrer de rir com o tesão dela por Jesus Cristo.
Isso antes de eu me tornar o messias com uma garrafa de vodka com coca-cola e mordidas nas costas.
Lembra quando joguei fora os teus cigarros e tu me deu um soco por eu passar cantadas na coloninha?
Era uma grande amiga, do tipo que poucas vezes se pode ter,
Um pouco louca, um pouco traumática, como só as mulheres podem ser.
Mas agora olhe pra nós!
Ainda consegue me reconhecer?
Preciso muito que me diga...
...Pois faz muito tempo que nem eu mesmo consigo...
Tinha sapatos bonitos e roupas de adolescente.
Tinha malicia e achava engraçado me enganar.
Ela era desbocada, era olhos azuis esverdeados de água do mar,
era cheiro de ano quente e bronzeador e melão em flor.
Ela não era minha no começo, nem no meio foi, tão pouco ao final.
Apaixonada por um homem que não era eu,
Mas depois de um tempo isso pouco importava.
Eu, tão aprendiz, aprendi que não poderia tê-la no sentido de pertence,
não era uma jóia antiga ou prataria de familía, era loira com uma estrela no cabelo e unhas afiadas.
Era meu pouso, meu choro e outras vezes o dela.
Era minha cama na volta da escola com The Libertines tocando na TV.
E depois era casa, minha cama de solteiro e sono de desejos saciados.
Gostava quando me esperava na porta e eu não precisava bater na janela,
Nem pular por cima dos carros para não apanhar do irmão mais velho que morava nos fundos.
Gostava de vê-la caminhar no escuro, com a luz que vinha da cozinha clareando meio corpo;
E meio sorriso voltado me convidando para tomar um banho antes do jantar
de macarrão instantâneo e vinho doce de boteco.
Podíamos beber na calçada e falar todas as sacanagens que quiséssemos sem precisar chamar de amor,
Ir ao cinema e morrer de rir com o tesão dela por Jesus Cristo.
Isso antes de eu me tornar o messias com uma garrafa de vodka com coca-cola e mordidas nas costas.
Lembra quando joguei fora os teus cigarros e tu me deu um soco por eu passar cantadas na coloninha?
Era uma grande amiga, do tipo que poucas vezes se pode ter,
Um pouco louca, um pouco traumática, como só as mulheres podem ser.
Mas agora olhe pra nós!
Ainda consegue me reconhecer?
Preciso muito que me diga...
...Pois faz muito tempo que nem eu mesmo consigo...
Por: Rimini Raskin
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
Effervescent Elephant
Um Elefante Efervescente
Com olhos pequenos e uma tromba enorme
Uma vez sussurrou para uma orelha pequenina
A orelha de um assustado
Que para o próximo mês de Junho ele morreria, oh yeah!
Pois o tigre iria vagar.
O pequenino disse: "Ai minha nossa, eu tenho que ficar em casa!
E toda vez que ouvir um rosnado
Eu saberei que o tigre está na espreita
E eu estarei bem seguro, sabe
O elefante me disse isso."
Todos estavam nervosos, oh yeah!
E a mensagem foi espalhada
Para as zebras, os mangões, e os hipopótamos sujos
Que brincavam na lama e mastigavam
Suas comidas hipo-plâncton apimentadas
E tendiam a ignorar o mundo
Preferindo examinar um rebanho
De bisões de água estúpidos, oh yeah!
E toda a floresta ficou com medo,
E correram o dia e a noite toda
Mas tudo em vão, porque, vê só,
O tigre chegou e disse: "Quem, eu?!
Vocês sabem, eu não machucaria nenhum de vocês.
Eu prefiro bastante coisa para mastigar
E vocês todos são muito magricelas.", oh yeah!
Ele comeu o elefante.
Por: Syd Barrett
O que exatamente esperam de mim?
O que exatamente esperam de mim?
Linhas bonitas, palavras de incentivo ou tolices sentimentais?
O que exatamente esperam de mim?
Um caminho, um campo florido e narrativas de bravura?
Por que ainda esperam de mim?
(...)
Quero entender o que exatamente esperam de mim?
Que não os faça sentir mal pela palavra lançada ou os sentimentos atravessados?
Que os faça flutuar em profundidades coloridas e fábulas de crescimento?
Afinal, o que diabos exatamente esperam de mim?
(...)
Porque eu, de mim, não esperaria nada...
Por: Rimini Raskin
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
Sobre Meteoros e os Ventos da Existência
(...) A televisão falou algo sobre uma chuva de meteoros que acontecerá hoje à
noite, a maior dos últimos não sei quantos anos. Ela não mentiu. Talvez tenha
mentido sobre ser a maior. Ou não, afinal não lembro de nenhuma outra antes dessa. Se vocês dois ainda estivessem aqui assistiríamos a tudo, acampados no
morro, disso bem tenho certeza. Fiquei na janela, apoiado no parapeito oxidado,
estático, observando como as pedras do espaço se dissipam ao entrar no mundo
que erroneamente chamamos de nosso. Tem-se de ser realmente muito grande para
sobreviver a essa atmosfera venenosa. Tem-se de ser realmente muito forte para
penetrá-la e deixar uma marca bem grande no chão. Poucos conseguem, a maioria
vira poeira. E depois que o vento do tempo sopra, nem isso. (...)
Por: Rimini Raskin
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
Trecho de Noturnos - O Final em Dez Capítulos (III)
(...) Outro sonho. Não entendo como consigo sonhar
em tão pouco tempo de sono. Não entendo muitas coisas, somente as aceito. Na
verdade, não sei se são sonhos de fato. Talvez eu nunca durma. Talvez eu nunca
tenha dormido nos últimos quatorze anos. Sofia me abraçava como se me perdoasse
do crime de viver. Raul não estava. Talvez nunca me perdoe. Talvez nunca tenha
me culpado. Não existem culpados, mas Sofia não teve tempo de aprender isso. O
lugar era escuro, havia água sob meus pés e sobre nossas cabeças. Sofia não
tinha pés, estavam submersos pela água escura e revolta. Entre nós era só
vazio. Pedi perdão convulsivamente, chorei idem. Aquela boca de mulher que
tanto amei, apenas sussurrava que tudo ficaria bem. Em breve. Muito em
breve. Não conseguia soltá-la, agarrava-me com tanta força que meus músculos
doíam. Mas é inútil agarrar-se aos mortos quando não nos pertencem mais. Nunca
mais. Sofia se foi, comigo restaram apenas os medos e a vergonha de ser um
covarde sem forças para enfrentar a vida ainda vivo. Deus não joga dados mas
prega peças, era o que Raul dizia antes de deixar de acreditar no que quer que
fosse. Aquele que não teme se iguala. E por isso não acredito em santos. E por isso odeio
os profetas de rua que disseminam o medo de Deus. A liberdade é um direito
conquistado à duras penas. Vence, o que supera os julgamentos, o que se livra
do veneno da palavra que escraviza. Vence, o que se faz abstrato, tangente,
impossível, inexorável, ileso perante as espadas. Bem aventurados sejam os
loucos, pois à eles pertencem os céus do pensamento livre. Maldito seja todo o
resto. Queimei meus documentos, as cartas, as contas ...Queimei... Teria queimado
a casa toda se não precisasse dela para continuar escrevendo. E assim, aos
poucos me livro da terra que em dias de chuva me deixa na lama. Não verei a
revolução, não estarei com o povo na rua no momento em que os prédios ruírem.
Não verei jamais o que ainda não existe, mas estarei torcendo pelos que nunca
desistiram. Pois deles será a glória e o respeito e as estátuas. Deles serão os
nomes de ruas, parques e museus. Terão o privilégio de continuarem existindo
até a próxima queda. Minhas roupas fedem. Meus pés estão dormentes pelo frio. Quis
fumar um cigarro, mas o maço estava vazio. Todas essas garrafas secas e móveis
empoeirados à minha volta deixam-me nervoso. Tornei-me parte da decoração
decadente deste apartamento. Escondi os espelhos com toalhas de banho por não suportar mais a sensação de estar sendo observado por minha própria desgraça.
Pergunto-me qual teria sido a próxima história a ser contada se não houvessem
assassinado o Bacana. Qual seria a próxima risada, a próxima mentira divertida
ao pé da árvore. Quando matam um bom, os maus não ganham poder. Apenas
descolorem o coração de alguns, gerando um espaço que nunca será preenchido. Já
quando um mal é morto, outros logo aparecerão para tomar o seu lugar.
Orgulho-me de partir sem deixar vazio ou vaga a ser preenchida. De certa forma,
sinto-me feliz por não deixar dor ou saudade. Morro, em suma, como um cão de
rua que no máximo desperta a pena da senhora que o alimentava. Eis a tragédia
da vida dos homens. E não é questão de ser fatalista ou pessimista perante as
situações. O fato é que as coisas não aconteceram para mim de forma bonita.
Isso acontece com alguns, outros se tornam executivos, maridos fiéis, bons
vendedores, amantes, entusiastas, etc... Acredito que no mundo sempre irá existir lugar
para todos e para ninguém (...)
Por: Rimini Raskin
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
A Besta
O que realmente te faz ficar?
O que te impede de sair?
O conforto? A família?
Ou o desconforto é que se torna banal ao ponto de virar rotina?
Quem tu realmente é?
O que almeja provar?
Quer ser feliz? Quer ser planura?
Ou simplesmente já nem lembra o que, por quê, e em quem se pode encontrar a cura?
De repente nos ditaram regras, nos apresentaram cartas.
Nos fizeram aceitar e acreditar que é necessário escolher um lado.
Só não lembraram que somos pessoas,
E que não escolher, também é uma escolha.
Nos mandaram ganhar dinheiro.
Nos fizeram viver de acúmulos.
De carreiras, de status, sobrenomes...
De fronteiras, de trabalhos e consumo.
Não é real!
Não é se não aceitarmos que seja.
Afinal, esse conforto é garantia de leveza, ou não?
O menino rico se joga do prédio...
Mas o que não sabíamos, é que ele já havia morrido muito antes de chegar no chão.
Não é real!
Mas continua sendo porque nos fazem acreditar que seja.
Nos jornais e nas telas iluminadas da hora do jantar.
Nos captam e decaptam...
Andamos e andamos sem saber por que andar.
Morar virou privilégio de poucos...
Construímos muros e erguemos nossas cercas até quase o céu.
Trancafiamos nossas portas de aço e ativamos a bateria anti-aérea.
Tudo isso porque nos falaram que lá fora mora um monstro...
Um inimigo com dois braços e um par de pernas,
Uma besta horrenda com cabeça, dois olhos, nariz e boca vermelha.
E agora aqui estamos nós, presos.
Por medo de um demônio tão familiar, que nos mata de susto quando olhamos no espelho.
Por: Rimini Raskin
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
Despertar é Preciso
Na primeira noite eles aproximam-se e colhem uma flor do nosso jardim e não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem; pisam as flores, matam o nosso cão, e não dizemos nada.
Até que um dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua e, conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada.
Por: Vladimir Maiakóvski
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
Trecho de Noturnos - O Final Em Dez Capítulos
(...) Decidi levar à sério essa história de escrever como quem morre. É uma maneira simples de deixar algo para trás. Poderia deixar um filho, mas isso seria cruel, nenhuma criança se orgulharia de ter um egoísta filho da puta como pai. Um filho da puta capaz de colocá-lo neste mundo de merda, cheio de mentiras. Cheio de vazio. Esqueça o filho. Esqueça o legado de sangue e toda essa baboseira sobre eternizar-se. Eu fui uma criança feliz, talvez essa deva ter sido minha maldição. Nunca mais alcancei a alegria de criança, aquela felicidade de filhote que um cão velho nunca mais irá experimentar novamente. A felicidade de encontrar os que hoje se foram. Os que assim como eu, não aguentavam o peso do medo da vida entregue a nulidade de uma cidade pequena. Vivo nesse apartamento. Estou doente como esse apartamento doente de paredes sem tinta. Os médicos me mandaram ficar em casa. Pediram-me para não ficar sozinho. Falam tanta bobagem. Não as falariam se conhecessem o inferno. Não é preciso vivê-lo, basta experimentá-lo para a primeira impressão ser eterna. Sinto falta de coisas que fui. Sinto falta dos sentimentos. Das variedades de almas que me habitaram e que decidiram viajar para bem longe sem previsão de retorno. Como um marido que foi buscar cigarros e não voltou. Noite passada sonhei que um carro me buscava na frente da casa da minha mãe. Nele estavam o Raul e a Sofia, eles não sorriam, mas estavam lá para me buscar no mesmo carro azul que dirigíamos na noite do meu aniversário de vinte anos. O mesmo carro azul que caiu no rio horas depois de terem me deixado em casa. Vinham me buscar porque eu deveria estar naquele carro. Não deveria ter pedido para voltar. Mas agora é tarde. Tudo é sempre tarde. Eu passei mal, os comprimidos não me fizeram bem naquela noite. Queria tanto pedir desculpas. Mas é sempre tarde para quem nasce.
Quando soube do acidente, chorei tanto que minhas lágrimas queimaram o rosto, fizeram gretas como água que corta o deserto. E sempre que o rio transbordava, eu ficava na ponte esperando os dois nadarem de volta para a minha vida. Mas nunca aconteceu. E talvez seja por isso que dói tanto quando chove. Sem eles o fardo era pesado demais. Três anos depois, cruzei a linha que me mantinha preso à um passado indigesto e entrei no ônibus carregando nas costas somente minha condição. Sozinho. Raul escrevia tão bem, certamente seria publicado. Sofia era linda, era nossa. Éramos os donos das estradas de terra que levavam à lugar nenhum. Éramos os detestáveis do boteco do Seu Armindo. Éramos o que ninguém mais poderia ter sido. Mas é sempre tarde para quem nasce. É sempre tarde. Acordei com um aperto no peito. Chamei. Mas não havia ninguém para escutar um grito que não existiu. Olhei em volta e por um segundo estava de novo no meu quarto de guri, com os pôsteres do Led Zeppelin na parede e a lua na janela de madeira. Por um segundo respirei de novo o ar que vinha do rio e consegui chorar como no dia do acidente. Não durou muito. E aqui estou eu decidido a escrever para lembrar. Lembrar para esquecer de onde vim e dos que ficaram no caminho com seus sonhos de guitarra e revoltas nunca muito bem explicadas. Passei a manhã toda cantando aquela canção que escrevi com Sofia. Aquela que falava que é sempre tarde para quem nasce. Tarde. Éramos nós, os contra o mundo e contra nós mesmos, do mundo. Éramos nós. Três. O uno. O balanço da pracinha e as folhas caindo na clareira do parque. Éramos nós. Os planos que ficaram no caminho. O vazio nunca suprido. Éramos nós. Agora não é mais. Nem o frio. Nem a chuva fina nas ruas de paralelepípedo. Não é mais. Agora é um. E nesse apartamento, doente, somente o espelho é testemunha de que tornei-me insuportável como um velho cachaceiro. Ou pior, sou outra vez indesejável como um filho adolescente que se recusa a tomar os remédios. Sou a escória do mundo. O veneno da alma. Por isso tomei a decisão de escrever como quem sangra. Com o fôlego de quem morre em dez capítulos. (...)
Por: Rimini Raskin
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
Sobre o Cão Que Me Habita
É de vagar, devagar, divagando, de vagão em vagão,
Que me faço homem.
Feito planta em temporal, completamente atemporal,
Que não sabe o quanto, mas o tempo faz.
Que não sabe o tanto, mas que o vento traz.
É de viajar, e de ver e de andar, sem prumo e sem lugar,
Que me faço outro.
Feito homem ocidental, sem luz no topo do crânio.
Que não sabe o pranto, mas que se derrama em dor.
Que não vê o sol, mas sente na alma o calor.
É de não saber, e de querer, mais do que o corpo aguenta,
Mais do que a mente sana, que a dor ensina, que o sangue ferva.
É de não ser senão estar.
É de olhar sem foco, sem tato e sem gosto definido.
É de não amar os sinos, aprender os ritos e queimar as vestes.
É por tudo isso, por todo esse nada, solidificado,
Que me faço traço, que me faço verso.
Que me levo à sério na grande piada do universo.
Outro cão, outra noite de trago e de calçada suja.
De carne fria e gordura, de cervejas quentes abertas à dente.
De passado vindo a tona com suas mulheres nuas.
Outras histórias que não serão contadas, banhadas a álcool e cana.
Tilintantes, incompletas, perfeitas se vividas ao contrário.
De ponta cabeça, como se sente o bêbado ao deitar-se na cama.
Por: Raskin
domingo, 8 de janeiro de 2012
A Fuga da Palavra
Quando a palavra saiu do papel e se afastou
da margem
do poema
a face atônita do cotidiano
se desprendeu da prosa
e mergulhou nas sombras
de um poema qualquer
vagabundo e inútil
como este aqui
como eu me lembro daquele dia!
a palavra se ia
cada
vez
mais
longe
e fugaz...
e o poema resistia
tão teimoso que era.
e o poeta já se sentia
o rei! o rei! o rei da poesia!
na ausência da palavra
o poema era um espasmo!
era uma esfera de chumbo
rolando no tapete
entre bolas de cabelo
e pedaços de unha e poeria!
ao longe uma larva verde
com sua grotesca garganta
gritava:
vanguarda! vanguarda!
prendam aquela palavra!
mas a palavra longínqua e pequena
rolou de poema em poema
anêmica e enfraquecida
e por si-só tombou no meio da rua
(a saber: a larva era a lua)
o poema ria-se todo
mas seu torto riso besta
teve que conter
pois a aguerrida palavra
reuniu todas suas forças
armou-se até os dentes e,
cabi
s
baixa
à
margem
retorna
cortês
e formal
como deve ser
Por: Levi Branco
sábado, 7 de janeiro de 2012
A Cidade Adoece
Como diria uma amiga: - A cidade adoece!
E apodrece, até mesmo a mais pura das boas vontades.
A cidade desbota, recoloca e transporta.
As vezes para muito mais longe do que se pode aguentar de cara.
Sem rosto, sem gosto nos tornamos, todos.
Carregados pelo braço, contra vontade.
Com uma seringa pendurada ao pescoço.
Sorriso débil no rosto, morte na tela na hora do almoço.
No alto do prédio um coração bate sem saber.
Embaixo da ponte uma alma se esvazia sem por que.
Não há nada aqui que não atinja e tinja de negro a visão.
No lugar onde santos exercitam-se em vão,
Não se pode competir com o consumo.
Não se é páreo para a tele...
Visão!
Nôs vendem luz nos templos de sangue e fome e mentira.
E nenhum avião te levará tão alto quando o céu está além do fumo espesso e dos ônibus expressos.
E nenhum amor está nas palavras do homem de terno.
E nenhum elevador te poupará as pernas.
Somos vivência e experiência.
Nenhuma essência precederá nossa existência.
Criador e criatura, iluminação e amargura.
Somos a cura!
O vício e o mestre.
Somos a pureza que a cidade adoece.
Por: Rimini Raskin
domingo, 1 de janeiro de 2012
Trecho de "Noturnos - O Final em Dez Capítulos"
"Décima Noite
Passei muito mal hoje à tarde. Pensei que não aguentaria. Quebrei um copo e minhas mãos sangraram ao juntar os cacos da minha vergonha. Manchei de vermelho os azulejos brancos do banheiro na tentativa de lavar os ferimentos na pia velha já meio lascada. Enrolei as mãos com um pano de prato e bebi um gole de vodka para suportar a dor das fendas abertas. De hora em hora a vizinha vem me perguntar como me sinto. Sorrio e digo que estou trabalhando em umas coisas. Ela sorri de volta. Fala algo sobre os benefícios do trabalho na alma humana. Algo que me lembra aquela frase famosa no portão de Auschwitz. Mas no fundo, gosto muito da Dona Marlí. Lembra minha mãe. Uma vez, quando eu tinha nove anos, subi em um araçazeiro enorme para uma criança de nove anos, despenquei uns três metros até atingir o chão. Quebrei o braço direito e cortei as mãos, não sabia como voltar para casa, tinha vergonha dos machucados, medo de que minha mãe me visse chorando. Eu, o homem da casa, o único homem que ela ainda podia chamar de seu. O único que não tinha fugido durante uma madrugada com outra mulher. Minha mãe não gostava do Raul e da Sofia. Mas no fundo eu até entendia ela. É complicado viver com medo de ser abandonada de novo. Acho também que ela não gostava por medo de admitir que os dois eram a coisa mais certa em uma vida tão errada como era a nossa. Sei que não fui o melhor filho, mas fui o melhor que pude para uma mãe que era a única que eu tinha. Sinto muito não ter estado ao lado dela quando os aparelhos foram desligados. A morte as vezes é longe demais, as vezes nem isso. Uma vez fomos ao funeral de uma guria, Raul a conhecia, Sofia foi por curiosidade. Eu não sei por que fui. Para estar junto eu acho. O nome dela era Camila. Só chegando lá é que descobri se tratar da filha mais nova do Miguelão da fruteira. Estava linda. Era uma criança. Não é mais. Hoje sinto que um pouco da nossa infância ficou ali, com ela. Não por sentimento, nem a conhecíamos direito, mas aquela imagem, aquele corpo pequeno em uma caixa, aquilo marca, e assusta. Na volta do velório, atalhamos pelo terreno baldio onde ficava a antiga fábrica de Schmier. O lugar era cheio de bergamoteiras, sentávamos lá no verão para comer as frutas enquanto conversávamos ou ouvíamos as coisas que o Raul escrevia. Deitávamos à sombra das árvores em uma lona que achamos na casa da avó da Sofia. Era bom. Era quente. Ao contrário desse apartamento. Aqui é frio demais durante a noite e as crianças ao lado parecem não ter sono. A madrugada inteira parece acordada para o meu desespero de solidão. Lembro de uma vez que o Raul falou que o frio só existia na ausência. Hoje entendo perfeitamente o que ele quis dizer naquela noite de inverno em que dormíamos os três amontoados, escondidos no galpão do velho Nestor. Naquelas noites que ninguém sabia. Que ninguém poderia saber. Não sentíamos culpa, mas tínhamos medo do que pudesse acontecer. Medo da vergonha que nossos pais sentiriam. Era comum sentir medo. Mas era ruim. Sofia tinha medo do pai dela, eu também tinha. O Raul não tinha medo de nada. Queríamos montar uma banda e eu até aprendi a tocar guitarra. Hoje não sei se lembro das notas. Sofia cantava, cantava tanto quanto era linda. Sofia. Tinha os cabelos escuros e compridos como uma crina de cavalo. Trazia nos olhos todo brilho que faltava na vida daquela cidade de merda. Gosto de lembrar do Raul escrevendo no caderno velho de capa verde musgo, cabelos pelo ombro, pele muito branca. Escrevia sobre o que encontraríamos no outro lado do rio. Riscava frases do Lou Reed em todo canto. Brincávamos de ser o Velvet Underground, com nossas jaquetas de couro e calças jeans. Ficávamos horas e horas curtindo vídeos das bandas que o primo dele mandava de São Paulo. Víamos e revíamos aquela pilha de fitas VHS. Imitando as atitudes, as poses, as roupas. Naquela época ainda não era tarde. Mas nenhum de nós teria como saber..."
Por: Rimini Raskin
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