terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Fim de Século

Imagem: Choque de Carla Barth


O semáforo pisca seu olho elétrico para uma cidade fantasma
na esquina da Carlos Gomes com a Plínio Brasil Milano
Meu crânio em câmera lenta
capta sexo e álcool entre as árvores que penetram muros fendidos
nas enormes orgias do pensamento
Prédios se elevam em galanteios fálicos e mil olhos de sangue e solidão
Picho, piche, sêmen negro que afoga a garganta da terra
e a vida não respira sufocada por essa porra toda
Eu vi um rio sob o viaduto antes da queda uma vez
e mais adiante, Shiga e barulho de água
Eu vi, com os olhos atrás da minha cabeça,
legiões de espíritos e orixás
abrirem caminho para as três crianças do deleite apocalíptico
A criança do Amor, vestida de ouro e pedras preciosas
A criança da Liberdade, leve e rebelde
com as roupas em farrapos despudorados
E a criança da Poesia, etérea, iluminada pela lua
em vestes espectrais de relva e incenso estelar

Mas onde andavam meus amigos que partiram
em busca de garrafas de fogo e diversão?
E os outros, aqueles que nunca vieram?

É terça-feira e me sento ao sol
remoendo estas memórias nucleares de eterna fantasia
Trechos do fabulário adolescente de um poeta rechaçado em bits
por respeitados intelectuais do ânus com suas hemorroidas em chamas

E ainda assim insisto

Com a memória cravada nas coxas macias
de algum fantasma do natal passado

Ainda assim insisto

Cuspindo meu deboche sereno de burguês familiar
nos olhos flácidos de guardiões da pureza poética
orgulhosos de suas teorias

Cães que os próprios cães rechaçariam
Veneno que a própria serpente expurgaria

Desprezodezpresodesprezo
Mil vezes...
E outras mil desprezaria



- Raskin

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Nirvana



Maria sorri,

plena por descobrir como abrir a tampa de um pote.

O universo inteiro vibra em eterno vazio...


- Raskin

Satori



Toda manhã,

a velha varre

com vassoura de galhos

as flores mortas da madrugada.


Eu observo...



- Raskin 

Samsara



Constantemente

meu ego, de tão pesado,

rompe a teia da aranha

que me salvaria da danação...


- Raskin

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Carta as escolas de Buda



Vós que não estais na carne,
que sabeis em que ponto de sua trajetória carnal,
de seu vai e vem insensato,
a alma encontra o verbo absoluto,
a palavra nova,
a terra interior.

Vós que sabeis como alguém dá voltas no pensamento
e como o espírito pode salvar-se de si mesmo.
Vós que sois interiores de vós mesmos,
que já não tendes um espírito ao nível da carne:
aqui há mãos que não se limitam a tomar,
cérebros que vêem além de um bosque de tetos,
de um florescer de fachadas,

de um povo de rodas,
de uma atividade de fogo e de mármores.
Ainda que avance esse povo de ferro,
ainda que avancem as palavras escritas com a velocidade da luz,
ainda que avancem os sexos um até o outro com a violência de um ‘canhonaço’,
o quê haverá mudado nas rotas da alma, o quê nos espasmos do coração,
na insatisfação do espírito?

Por isso, lança às águas todos esses brancos
que chegam com suas cabeças pequenas
e seus espíritos já manejados.
É necessário agora que esses cachorros nos ouçam:
Não falamos do velho mal humano.
Nosso espírito sofre de outras necessidades que as inerentes à vida.
Sofremos de uma podridão, a podridão da Razão.

A lógica da Europa esmaga sem cessar o espírito e volta a fechá-lo.
Porém agora, o estrangulamento chegou ao cúmulo,
já faz demasiado tempo padecemos sob seu jugo.
O espírito é maior que o espírito,
as metamorfoses da vida são múltiplas.
Como vós, rechaçamos o progresso:
vinde, deitemos abaixo nossas moradas.

Que continuem ainda nossos escribas escrevendo,
nossos jornalistas cacarejando,
nossos críticos resmungando,
nossos agiotas roubando com seus moldes de rapina,
nossos políticos arengando
e nossos assassinos legais incubando seus crimes em paz.
Nós sabemos – sabemos muito bem – o que é a vida.
Nossos escritores, nossos pensadores, nossos doutores,
Nossos charlatães coincidem nisso: em frustrar a vida.

Que todos estes escribas cuspam sobre nós,
que nos cuspam por costume ou por mania,
que nos cuspam porque são castrados de espírito,
porque não podem perceber os matizes,
os barros cristalinos, as terras giratórias onde o espírito elevado dos homens se transforma sem cessar.
Nós captamos o pensamento melhor.
Vinde.
Salvai-nos destas larvas.
Inventai para nós novas moradas.




Por: Antonin Artaud



*Tradução de Irineu Corrêa Maisonnave

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Brasa



Toda essa gente
Falando Falando Falando
Toda essa festa
Todas as peças
Todos os olhos
Fechando Fechando
Todo esse mundo
Findando Findando
Toda essa merda
Essa mente
Na ponta dos dedos
Dormentes
Queimando Queimando Queimando...


Por: Raskin

sábado, 30 de novembro de 2013

Pampa



Mágica de linha hipnótica
Tira amarela
Pintada em intervalos métricos
Magia invisível
Noite densa
De chuva violenta
Sobre campos e estradas pampeanas

Raios como lâmpadas
Explodindo no interior
De imensos algodões doces empoeirados
Caminhões de toras com seus motoristas quimicamente acordados
& aos poucos
Visão laranja ouro
Da aurora divina que espanta tempestades
& revela o vazio

Da minha e da outra e da próxima janela
Verde/verde/verde
E cerros de granito que instigam desejos de elevação
E suaves ondas de capim baixo
Ou trigais amarelos ao vento
Ou uma vaca vermelha
Solitária no campo imenso
O zazem da vaca
A iluminação nos escuros olhos enormes
Onde a alma humana não dá pé

E onde está o homem?
Whitman velho barba louca
Coração em caça
Onde andará teu anjo fraternal?
Onde estão as mãos que um dia rasgaram o ventre da terra
para construir esta estrada?
Sentados em seus galpões ancestrais
De água quente e pelegos e chapéus
Talvez em uno com seus cavalos

Que bela é a imensidão deste pago
Diante dos meus olhos
O reflexo da angústia humana
&
Outra vez as nuvens
&
A noite
&
A volta pra casa
&
O tudo é o nada
&
O NADA
ESTÔMAGO DE DEUS
QUE DE AUSÊNCIA SE ALIMENTA
_______________________________________

O SAMSARA NAS RODAS DO MEU ÔNIBUS


- raskin

domingo, 17 de novembro de 2013

Vem Poeta



Vem poeta
Tygre da palavra
que o mundo é cervo e degola

Das tuas linhas quentes
Água benta / verso fluente
bebido das mãos místicas do universo

Vem,
poeta da fome e da loucura
Veneno das horas
Serpente de plumas
Língua ferina

Destila tua verdade
de carne crua e ossos fortes
Arte a dentro / sangue a fora

Banha no mar teus pecados
Teus cigarros
A lama do teu rosto

Teu cheiro de vinho doce
Tão barato quanto a morte louca
comprada a prazo

Vem poeta
Artista do fim do mundo
Inutilidade necessária

Dos homens o maior

Afinal, quê vida valeria a pena
sem teu poema de farol?

Qual pena, poeta
mereceria a vida sem teu verso de sol?

Vem poeta
Vem poeta

e alimenta com fogo
meu vício de sentir


Por: Raskin

*(imagem: “The circle of the lustful” - William Blake)

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Quinta Noite



Cinco noites para o fim do mundo. Como quando apareceram aquelas luzes no céu e as pessoas sentiram ainda mais medo de Deus. Nós três rimos da ignorância alheia, mas talvez bem no fundo, também tenhamos sentido medo dos holofotes. Nunca se está preparado para o fim. Nunca se está pronto para caminhar no vazio. Nos abraçamos forte como quem abraça pela última vez. E nos olhamos sem enxergar no rosto do outro um futuro seguro. O mundo não acabou naquela semana. O de vocês dois duraria mais três anos. Já o meu, dura tempo demais. Tem um velho que mora no apartamento do final do corredor. Ele não tem ninguém. Me olha como quem se olha no espelho. Como quem reconhece no outro os próprios traços, a própria maldição dos dias que não voltam. Ele poderia ser meu pai. Todos os velhos deste prédio poderiam ser meu pai. Talvez sejam. Talvez eu mesmo seja meu próprio pai. Que se foda esse pai que nunca existiu. Que não existe, mas que insiste em se mostrar em todos os lugares. Não sinto ódio porque o amor nunca existiu e sentimentos só se tornam reais quando precedidos por seus respectivos antônimos. 


Sorte tinha o Raul com pais tão legais, adultos de sonhos frustrados que projetavam no filho o que nunca puderam realizar. Nunca fui vê-los depois do acidente. Não sei se me culpo por isso. Vi a mãe da Sofia na feirinha uma semana depois do velório que eu não fui. Ela parecia ausente. Talvez aliviada por tê-la perdido para o rio ao invés de perdê-la para nós. Minha mãe também deve ter se sentido aliviada, mas nunca confessou. Ninguém nunca confessava. Nem nós. Queria ter pedido o caderno verde do Raul, tinha medo que os pais dele lessem o que não compreenderiam, mas não fiz. Eu fugi. Era agora o único culpado do crime que cometemos juntos, o de nunca ter feito uma escolha naquele lugar onde todos deviam decidir-se entre uma coisa ou outra. Queríamos colocar a liberdade em prática, mas esbarramos na crueldade das línguas que se alegravam em não se manterem nas bocas para disseminar o pecado mortal que os olhos escondidos atrás das cortinas vigiavam nas madrugadas que o tédio impedia o sono de chegar. E é para me encaixar na normalidade que hoje escolho o fim da chama. É para encher de orgulho o coração amargo dos velhos que apodreceram em vida. Para que nenhum outro o faça. Para que nenhum padre fale bobagens sobre meu corpo, como falaram sobre o caixão do Raul e com certeza sobre o de Sofia também. 

Depois deles, tudo era peso e desconforto. Era quarto fechado, Infelicidade. Um não suportar a própria imagem. Já não chorava mais depois de um tempo. Não sentia sono. Não sentia sequer a tristeza. Estava dormente, gelado, cansado demais das mesmas coisas, mesmas roupas e mesmas vozes. Tornava-me sombra, cria do vazio. Não existiam mais amigos, nem família desmoronando, o trabalho me fazia querer morrer de tédio. Não existia crise existencial e esse era o problema. O que me desanimava e ainda desanima é saber quem sou, quem fui e o que tenho. Talvez tenha sido o idiota mais esperto da turma e de nada valeu. Aproveitei os meios e fui conhecendo os finais mais cedo do que deveria. Não serei levado a sério porque um dia quis assim. Não serei levado a tona, pois a ninguém interessa meu naufrágio. Talvez me falte vontade, me falte paixão pela vida, talvez o que me sobre seja culpa. De uma forma ou de outra, já não vejo graça. Tudo que preciso já fui expresso em telas ou em páginas. A verdade é que talvez o que me falte seja imaginação. As novidades se repetem, as pessoas desvanecem, e mais do que isso, tornei-me desinteressante a meus próprios olhos. 
Pensando bem, talvez o problema nem seja o desânimo, nem a tristeza e nem a saudade. O que eu sinto é o vazio do olhar para o nada, é o pensar a esmo e correr em vão. Gritar por dentro para que não ouçam. Gritar até ficar rouco e calar a alma. O grande problema é que apesar de tudo, nunca existirá um culpado além do tempo. E para sempre o infinito não existe. E para sempre será sempre tarde para quem nasce com a alma maior do que a força para carregá-la. (...)*


- Raskin


* Trecho do romance inacabado "Noturnos - O Final Em Dez Capítulos"

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Arya



Do Verbo meu verso deixado na porta do templo
onde mendigos com frio se cobriram
com o calor das linhas de luz
& no banco de pedra
morada de vagabundos que respiraram a vida 
soprada pelo vento da madrugada

O perfume da mente inundou a solidão
____________________________________________________

Depois
caminharam
até mim de mãos
dadas a Lua e o Sol
e nada mais foi como antes
sob o brilho do nascedouro celeste

O vazio não acaba quando o nunca começa
 _____________________________________

As crianças mudas e os velhos fragilizados
A Lua que sorri com humildade
& cães que morderam calcanhares maternos
na busca de suas ossadas prometidas
O Sol que lambe as franjas da montanha
O que existe e não é visto
 &
Depois disso
quem sobra?

Ilusão
_______________________________________________________
Pai
Mãe
O fruto adoecido
Podre
Caiu ao solo
Brotou na terra
Cresceu na luz
Bebeu da água do desconhecido
& saiu vivo
Porque aceitou
Que o que morre é dor e matéria

A boca cósmica engoliu o EU




Por: raskin



sexta-feira, 27 de setembro de 2013

In Natura


   
Mãe Gaia longas tranças verdes e mares de lágrimas,
o que há de ser de tua pureza?
Linda Juno,
será nossa ruína o ciúme?

Em vossos úteros cálidos
de sangue e de terra e de renovação
Em vossos seios provedores
do leite vivo da evolução
Vossos carinhos

Pacha Mama
estuprada pelo filho querido
carregando no ventre a dor
                                 do prematuro fruto
                                                         de fúria apocalíptica
que em breve inundará o mundo
de sangue sujo & sêmen venenoso

Maria de Nazaré filha de Ana
Devaki mãe zelosa
Mahamaya fim precoce
Amina
     Oxum,
               Ixchel,
Atlacoya,
              Isis,
Jaci

No dourado de seus cálices,
um brinde a iluminação


Por: Raskin







                                 

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Outono




Se eu pudesse uma outra vez, como naquela vez
encostar-te tremendo contra muretas de becos discretos
com tuas coxas enluaradas ruborizadas por meus beijos cretinos
Mordendo a boca para aprisionar a liberdade do gozo
escondendo o rosto toda vez que faróis de carros
feitos lanterna inquisidora de um guarda rodoviário
ou holofotes reveladores de prisioneiros fujões
anunciavam-se nas esquinas do nosso segredo
para expor-nos ao ridículo julgamento do mundo
como se fôssemos criminosos e merecêssemos a pena máxima
da frigidez e da hipocrisia social.
Dois corpos competindo com o calor de uma noite de sexta                                  
de sexo, de sensual brisa apocalíptica soprando para longe
um tempo que só podia existir em mistério e silêncio
Ah, se eu pudesse uma última vez, como naquela vez.
morder-te o pescoço com tua espalda pressionada contra meu peito
Cochichando-te ao ouvido profecias de natureza sacana
em um sábado a noite quando todos estão dançando ou
se masturbando com programas de pornô leve na TV a cabo
Se ao menos eu pudesse...pela última vez


Por: Raskin

Quanto?



Quanto vale o descanso?
E a pressa?
Quanto valem?
Quanto valem as crianças?
E o amor, quanto vale?
Casas, prédios inteiros
gradeados de medo
Quanto vale o programa
com boquete e tudo?
Quanto vale um poema?
E o dinheiro, quanto vale?
Quanto vale viver?
E a liberdade?
Eae,
quanto vale
a
nossa
S
  a
    n
      i
       d
         a
           d
             e
               ?


Por: Raskin

POA-TE


As lojas de peças para veículos
Enegrecidas pela fuligem
Compondo paisagens intragáveis
Alternam-se de tanto em tanto
Para dar espaço a locadoras de vídeo
Ou algum cinema pornô recém incendiado
Bugigangas e quinquilharias
Aposentados panfleteiros
Bancas de verdura fresca
Pressa e pressa
Presas fáceis para batedores de carteira
E aleijados esmoladores
Crianças índias comendo batatas fritas do Mcdonald
Executivos de cavanhaque ensaiando ataques cardíacos
Cegos vendedores de bilhetes de loteria
Passeatas de professores tilintando sinetas ensurdecedoras
Pichações maoístas sobre a cabeça de mendigos ignorados
Arquitetura esquecida derrubando suas marquises diante dos pés de quem passa
Pasteis gordurosos de cinquenta centavos acompanhados de um copo de suco
Passeio no cais para assistir o sol mergulhar no Guaíba
Enquanto casais de mãos dadas observam tudo de maneira apaixonada
Venta sempre mais forte perto do rio
E escurece cedo no inverno
E os shoppings lotam
E os hospitais ficam sem vagas
Mas quando cai a noite
Com meu poema em ereção
Penetrando corações despedaçados
Doces prostitutas colocam os filhos na cama com um beijo na testa
antes de encarar outra vez o gelo da madrugada.


Por: Raskin

Sagrado Feminino





Ah mulheres desta primeira vida
                          Que sexos jovens e pureza angelical
                          Teus filhos sonharão com aquelas tardes
                          substituindo nossos rostos pelo sol
                          Erguerão altares imaginários como fizemos
                          Sonharão e acordarão sonhando
                          com os corpos nus da primeira criação
                          Descobrirão a vida com o silvo da serpente
                          nos ouvidos virgens do prazer
                          Por isso não me espanto que o mundo
                          seja tão doce e doloroso nessa fase
                          Com tanto perfume lançado ao vento
                          é compreensível que algum veneno
                          também se desprenda das pétalas da juventude
                          Ah nostalgia que me atinge e fere com força o coração
                          Faz-me cair repetidamente na armadilha do tempo
                          E dormir o sono da inércia 
com falsa doçura no canto da boca


Por: Raskin

Chuva Fina Blues


No caminho lento de pedras irregulares molhado pela chuva,
o chão e a ponta dos meus sapatos
refletem constelações de expectativas
Talvez do bar, o balcão marrom, as mesas indigestas
armadilhas engorduradas do pré-noite
Ou então as mulheres em grupo
lançando sorrisos independentes, de braços dados
acendendo cigarros enquanto batem os pés de inquietação

Sigo rápido, vilipendiando quilômetros
Revirando sacos de lixo
com o
      coração canino
                     que os deuses
                                   me presentearam
Engolindo vento frio feito um gigante adoecido

- Quando era criança jogava tacos nestas mesmas ruas -

Mas agora não é tempo de recordar
A linha entre o passado e a iluminação morna é tão tênue
que já nem sei se sou o dono da sombra pesada que se arrasta no meu encalço

- No futuro as crianças nascerão para montarem tigres -

É esse o tipo de pensamento santo que me ocorre quando caminho rápido
E todas essas casas se repetindo e competindo
& grades & grades & grades
São nossos corações bandidos
na ponta da lança
Mas que bobagem
Meus amigos não entenderiam o que escrevo
Então por que escrever? Por quem?
Para não morrer, eu respondo
Para não precisar caminhar por aí com uma máscara de gás

- Menos de uma quadra e já enxergo o neon azulesverdeado -

Milhões de passos
Micro partículas
Uma vida em prol do esquecimento


Por: Raskin

Metrópole ou nem tanto



Cai a noite
Vestida de laranja ouro
Escurecida até o limite dos sonhos
Dos cânticos e cantos bêbados
Do brinco de pérola pendido do céu
Sobre as cabeças vivas
Com pensamentos vívidos
de seus crimes lúgubres

Cai a noite
E sobre a cidade
Metrópole ou nem tanto
Garrafas se quebram
Criaturas se agitam
E a profundidade dos mares
Tão distantes do alto dos prédios
Não significam nada para quem pula
Do sétimo andar

Quanto se pode esconder no vinco entre os seios de uma mulher?


Por: Raskin

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Anjo de neon vermelho


A garota do bar era você, com uma enorme máscara mortuária pendurada por elásticos ao redor da cabeça enquanto servia cerveja choca para clientes pervertidos que tentavam beliscar-lhe a bunda na primeira oportunidade. Velhos engravatados cheirando a loção pós-barba e Marlboro vermelho recém saídos de seus escritórios de ganância e assédio sexual.

A garota era você, e que prazer observar-te dançar entre as mesas com teu olhar de puta triste endividada até o pescoço, teus quadris perfeitos, nem tão grandes nem pequenos demais, ziguezagueando enfadonha enquanto consultas o relógio de parede, implorando aos deuses que a noite acabe mais rápido que de costume. Resmungando baixinho alguma coisa para o segurança parrudo que apenas olha para o vazio e balança a enorme cabeça de touro em sinal de afirmação.

A garota era você, de seios volumosos sob uma blusa verde reveladora de porções generosas de pele e pequenos mamilos rosas que se iluminam no instante em que te abaixas para perguntar ao cliente com cara de traficante colombiano se a próxima dose de uísque será também com duas pedras de gelo.

A garota cósmico-sexual era você. Mas qual foi teu nome no instante doloroso do primeiro nascimento? E quais sonhos uma mãe pôde sonhar ao ver a filha sorrir no balanço da praça em um domingo estafante de calor insuportável e missas e churrascos? Qual nome tinha teu primeiro namorado? Quantas vezes choraste por amor ou o que pensava saber sobre ele? Qual teria sido teu brinquedo preferido na infância? Que nomes tinham tuas bonecas? Algum livro predileto? Uma camiseta velha com estampa de desenho animado na hora de dormir, talvez? Aceitarias meus cigarros e minhas carícias de homem carente afogado em mares de dúvidas e insegurança? Me amarias? Farias de mim teu cãozinho atropelado? Passarias esta noite comigo apenas me ouvindo falar com a cabeça entre tuas coxas perfumadas de menina de bom coração?

A garota era você. Eu era mais um esquisito beberrão tímido na mesa do fundo com um bloquinho de anotações, lápis-borracha e apontador. O estranho que desviava o olhar toda vez que me miravas azul por entre os furos de tua máscara ordinária.

A garota era você, só você. Caminhando até mim, curiosa, fazendo meu coração gritar desesperado no vazio do universo que me habita. Teu perfume cada segundo mais perto. Minha respiração cada vez mais afoita. Tua voz no meu ouvido, doce, sensual, velha conhecida de fantasias adolescentes no banheiro simples da casa dos avós.

Ah, e que lábios lascivos, e que palavras etéreas, hipnóticas, poderosa Medusa dos cabelos vivos petrificadora do coração dos homens. Jasmim eterno, margarida inocente entre ramos venenosos do não-me-toque. Como gostaria de beber a vida da tua boca de virgem renascentista e a sabedoria do teu sexo de anjo desolador.

Outra dose? Me perguntas.

Mas o que quero é outro mundo, meu amor!


Por: Raskin

 


Sacrifício



Com mangas de camisa saindo da camisa
                                          até as mãos frias do outono
Quinze anos de vida sedenta dividida com violência
                                          por pássaros negros do campo irregular
Memórias turbulentas de cabelos compridos e cimento fresco
                                          com amigos deitados em rampas de concreto
Noite gelada partindo em três nosso espírito ligeiro e espectral
                                          sem que ninguém soubesse haver o verbo

Assim nasciam as primeiras palavras paridas pela dor do nascimento
de prematuros condenados a maldição do querer saber

                                             &
                       Só os deuses sabem o quanto
                       dói não conhecer outra saída
                       Ou a ferida do tédio sombrio
                       Ou a incerteza do amor futuro
                       Ou ainda a angústia dos mortos que teimam em não deitar

Nesse tempo o poema foi a desconfiança interna em face da vida de menino
                                           Esquecido na beira de uma estrada poeirenta
enquanto caminhões de sonhos e automóveis fantasmas
                                           elevavam ao céu o gosto de todas as coisas
O poema foi uma biblioteca chuvosa de primeiros versos
                                           Neruda vulcânico e salitre araucano
Tardes inteiras de mergulho no fabulário russo de barbas e mofo carcerário
                                           França romântica e rebeldia fatal

Deslumbre ocultista misturado a preguiça adolescente de acreditar no que quer que seja
Mas ainda assombrado pelo inferno impiedoso inculcado no berço
Perseguido no escuro por demônios saídos da boca do homem
Rezando sem vontade para o teto do quarto
Enquanto o deus do céu ficava cada dia mais parecido com meu pai
Que noites aquelas
Que dias intermináveis

Se ao menos soubesse o que ainda estava por vir


Por: Raskin

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Sem Partidos?



Como as coisas mudam, quando eu tinha meus 16/17 anos e praticamente morava na biblioteca pública estudando filosofia e política para poder defender meus ideais com argumentos plausíveis e concretos durante minha militância, era taxado de "rebeldisinho". de metido a revolucionário, de chato. Hoje vejo uma galera tomando as ruas sem o menor discernimento de política ou de como se faz política, empurrando o país de volta aos braços da direita conservadora que infiltra seus gritos de "derrube o governo" e "sem partido" afim de influenciar e inflamar os desavisados a andarem por aí com uma bandeira brasileira enrolada no corpo e cantando um hino nacional ostentoso que só serve para camuflar a realidade e a história nada ostentosa do país. Sem partido? É isso mesmo? E quem assumiria para devolver a ordem? Presumo que os militares novamente, e aí amigos, a história vocês já conhecem ou ao menos uma parte exposta dela. Até entendo que nunca tenhamos sido ensinados de forma direta e clara sobre o que foi a ditadura militar, mas na era da informação é inadmissível que as pessoas não estudem antes de saírem por aí despejando bobagens e se deixando levar por informações mentirosas. Não sou contra os protestos, de forma alguma, acho legal que o "gigante" tenha tomado do dia para noite consciência política, mas me assusta. Revolta sem foco e sem planejamento tem o poder de se tornar um tiro no pé, que me desculpem os mais entusiasmados é o que parece estar acontecendo. O Gigante pode estar revoltado, mas acordado de fato eu ainda tenho minhas dúvidas. Alguns "anões" nunca dormiram, eles simplesmente não foram levados a sério como deveriam. Por isso expulsar partidos de esquerda das manifestações é antes de mais nada um erro. Eles sempre criticaram o aumento das passagens e lutaram pela qualidade do transporte, se essa for realmente a pauta. Lembro do PSTU, que eu não simpatizo, mas preciso admitir que sempre estiveram na militância por esse tema, ou do PSOL (partido que eu no início participei, mesmo antes de ter se tornado um partido de fato, mas que não me mantive por talvez não estar alinhado a minha visão de esquerda mais radical na época). Não estou criticando a multidão que tomou as ruas, apenas aconselho a se informarem melhor para que não se deixem transformar em massa de manobra para interesses que em nada tem que ver com democracia e justiça. É preciso se organizar, é preciso estudar, é necessário ter FOCO e reivindicações concretas ( quando digo concretas, me refiro a crítica e planos de solução para as mesmas, e muito importante, direcionadas aos órgãos políticos de fato responsáveis. Presidente não tem poder de mandar prender, vetar PEC ou baixar passagem de ônibus, organizem-se e levem suas propostas aos competentes por cada área.) Exijam e façam uso de seus direitos como cidadãos de uma democracia (ainda que de aparência, como é a brasileira), mas façam isso de forma estudada, coerente e clara. Já mostramos que estamos descontentes, mas esse é só o primeiro passo, agora é a hora de apresentarmos cartas e ideias. A corrupção é um inimigo arraigado na política brasileira que deve ser removido, mas isso não vai acontecer da noite para o dia, não existirá um decreto ou uma mágica que fará ele acabar. O fim da corrupção é um processo paulatino e parte também da conduta do cidadão comum, SIM, de nós mesmos que usamos o jeitinho brasileiro para levar vantagem em cima dos outros. Estamos mais participativos e ligados na política do país, eu sonhei com isso e agora acontece, mas por favor não deixem de se informar e checar fontes antes de disseminar informações, isso só aumenta a força dos inimigos da liberdade e da verdade. Não tenham memória curta, caminhamos e evoluímos muito nos últimos anos, muito também ainda falta ser feito e justamente por isso devemos usar essa energia que têm se mostrado nas ruas para participar no processo de conscientização para um país mais justo. Vá para a rua, mas saiba contra quem lutar. Cobrem dos políticos, mas não esqueçam dos patrões que te exploram de forma direta, seja com condições insalubres, baixos salários ou taxas altíssimas de lucro em nome da fortuna a qualquer preço que só contribuem para aumentar o abismo salarial e a desigualdade social existentes no país.



Por: Yuri Pospichil