segunda-feira, 13 de outubro de 2014
terça-feira, 23 de setembro de 2014
sexta-feira, 5 de setembro de 2014
Só mais uma sexta feira
O ser humano naturalmente destrói o que admira
extingue, empurra para o abismo, dizima, mata
nem sempre come, outras vezes só queima por queimar
O feio também é morto, porque ofende, fede, assusta
e o homem não aceita concorrência quando o assunto
é destruir ou até mesmo canibalizar.
Só o insignificante se salva, escapa do chumbo e da faca
o invisível, o não inspirador, o meio termo, o medíocre
esse tem a perpetuação garantida
Eu costumava sentar em uma praça na hora do almoço
comia macarrão frio direto de um pote plástico
enquanto senhoras levavam cachorrinhos para cagar
Nessa época eu lia Sartre e sentia náuseas em dias de vento
imaginava o mundo vazio de seres humanos, como mágica
e eu o único sobrevivente, sem trabalho, sem hora, sem nada
Me via invadindo aquelas casas bonitas que cercavam a praça
comendo a comida dos armários, dormindo em camas king size
e batendo carros potentes que nunca aprendi a dirigir
Mas é tudo uma grande bobagem, como não haveria de ser?
os homens não desaparecerão assim, de uma hora para outra
eles não podem ser extintos, exauridos, dizimados, devorados
Apenas eu, que sequer existo, posso dar cabo do sonho sinistro
que se abate sobre o coração, que teimoso, insiste em bater
entre frequências de rádio e miséria e gás napalm e bombardeios.
Crianças mortas e tecnologia assassina e poesia quebrada e
leiteveneno e carnedoença e barrigas negrovazias
por toda parte o homem caminha como um senhor de porra nenhuma
Meu Deus! e o Diabo na terra do sol, na cabeça do homem que não aprendeu
que não foi ensinado, que ainda não acordou para o fato
que é preciso respirar em algum momento dessa desgraça que chama de vida
Hoje vi meu rosto no espelho do quarto de meu pai
o espelho era meu próprio pai refletido no meu rosto
cada ruga e cada fio branco de barba era eu
Espelho e pai e calvície e caveira triste anunciando o apocalipse
do corpo e da mente sem cama nem flores,
só chamas e nenhuma montanha que se possa escalar
Só vozes humanas e grandes cães que entre grades insistem em tentar me atacar
o dedinho dela aponta a lua - Olha pai, a lua...a lua! -
e a lua sorri de volta com um foguete cravado no olho direito
Mas não basta estuprar o próprio mundo, penso
nossa viagem segue rumo contrário
e um dia não haverá mais como retornar ao coração
Esse planeta vermelho e pueril, cada vez menos pulsante
seco e esquecido, gritando por ajuda em um cantinho
frio e escuro do peitogaláxia ... mais nada ...
Só o dedinho dela apontado pra lua
- Raskin
sábado, 26 de julho de 2014
Poema antierótico
I
Não haverá amor
não haverá tesão
Ela está nua
de quatro
em frente ao espelho
Ele também está
mas não
Como já havia dito
não é sobre o sexo
úmido
Não haverá coito
não haverá penetração
O poema é tântrico
gozo cortado
anti erótico
não haverá ereção
lubrificantes?
esperma?
gritos abafados?
Não.
II
Mas então
de que diabos
falaria um poeta
se não das delícias da carne?
- Raskin
quarta-feira, 23 de julho de 2014
Deus não estava
Não,
quando nasci Deus não estava enfermo
nem mesmo enfermo grave
como quis Vallejo
Quando nasci, Deus não estava
e se estivesse, gostaria que não
Afinal há trabalho no mundo
muito mais importante
do que acompanhar o nascimento
de uma criança
A morte, essa sim merece uma vela
E aquele que sabe a hora de morrer
terá sempre a minha mais sincera atenção.
Nascer é um dever
Em 1987 ou agora
Em Gravataí ou em Gaza
a miséria e a guerra ainda me parecem
melhores motivos para uma intervenção divina
Meu nascimento não
Não fui o anjinho enviado
que entrou no mundo rodeado de sol
e carinha de joelho. Não.
Vim de olhos tristes e cabelos negros
dividindo o leito com outros bebês
igualmente menos importantes
Chorei
Minha mãe também chorou
E é curioso falar disso agora
depois de homem feito
Dizer que nascer foi doloroso
-E sempre é-
porque de todas as vezes que nasci
ao longo desta curta vida,
a primeira tenha sido talvez a mais tranquila
O resto se aprende com o tempo
cada lição, cada delícia
toda a entrega que com o tempo
o próprio tempo te exige
Sempre se aprende
de uma forma ou de outra
se aprende
Viver é sacrifício
-Raskin
quarta-feira, 16 de julho de 2014
segunda-feira, 7 de julho de 2014
Mediterrânea
Fotagrafia de Paulo Martinez
Queimei a nave
& naveguei a nave em chamas
Porque a vida é uma
e dar-se ao luxo de não se queimar
é desperdício de tempo.
- Um bom marujo não se faz no atracadouro -
Me disse o deus que trago no peito.
E Então guardei no bolso
uma estrela cadente
E a lua,
como uma faca curva,
apertada entre os dentes
O pássaro é um homem que aceitou o voo
e jamais voltou a cabeça para olhar atrás
-Raskin
quinta-feira, 12 de junho de 2014
terça-feira, 10 de junho de 2014
Cantos de ar e água salgada V
Galatea of the Spheres, (1952), Salvador Dali
Vi teu corpo gaivota cruzar espelhos de mercúrio
nos entardeceres da nova terra.
Vi teus pés fincarem fortes no estômago monstruoso da areia fina
feito lanças de sonho em um paraíso moribundo &
modorrento onde cordeiro algum pastaria ao lado
de Leões.
Vi também tua cabeça de cavalo em rédeas de ventania
a lançar olhares de navegador em todas as direções
E o céu carregado de uma energia sexual concentrada
qual o ventre de uma deusa
-Que força maravilhosa é esta? -
Me perguntei.
"Mãe água & antigos mil nomes fui e ainda serei" -
Ribombou o trovão enquanto espalhava
seu fogo através do infinito em bandejas de prata.
"E tu, homem semente, vá e erga altares da mente em honra
dessa mãe esquecida e faminta que avistaste na praia"
Obedeci, amedrontado e perplexo como um menino
diante dos seios potentes da primeira mulher
Obedeci, amedrontado e perplexo como um menino
diante dos seios potentes da primeira mulher
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A poesia como holocausto
segunda-feira, 26 de maio de 2014
Cantos de ar e água salgada IV
De ressaca, o mar vomita
na areia da madrugada,
cama dos que amam no verão &
que foi um dia também a nossa cama
memórias-cadáveres indesejadas.
Por isso te digo, querida
é preciso encará-las apodrecer até os ossos
sem levá-las para casa nos bolsos como eu fiz
respirar o fedor sem poder dormir
deitar na cama de pregos de um faquir
Pois não sei mais o que é paz, meu amor,
não agora que os gatos da desesperança
atraídos pelo cheiro da loucura
escolheram meu telhado para brigar
-Raskin
Cantos de ar e água salgada III
Sol sob os olhos
memória de peixe espada
no aquário do teu ventre
Minha casa que nunca esqueci
e que um dia voltarei
para contar uma história
de cardumes fantasmas &
redes rasgadas pela solidão do mar
O mesmo mar que não aceita prisões a longo prazo
nem marujo fajuto que nunca aprendeu um nó
que não fosse na corda das frustrações
-Raskin
Cantos de ar e água salgada II
Sal sob a pele
mesmo depois de mil banhos
e doloridos quinhentos quilômetros de asfalto
O chão do quarto repleto de escamas
não acalma minh'alma como o oceano
um dia acalmou
Mágoas e mágoas
à léguas de serem resolvidas
Tristes baleias flutuando na orla
antes de encalharem chorosas
no meu peito arpoador
Água salobra à inundar os pulmões
outra vez...nunca mais
-Raskin
sexta-feira, 23 de maio de 2014
sexta-feira, 16 de maio de 2014
Vista
Imagem do filme Um Cão Andaluz - 1929
1
Tão pequeno sou
que mergulhei em teu olho
e fiz ondas em tua íris cor-de-infinito
Atravessei pupila
alcancei córnea
invertido
logo convertido
em corpo estranho
Não como um incomodo cisco
mais como uma lâmina cegante
predecessora de escuridão
Lição atordoante do que se esquece
constantemente
diante de tanta falsa grandeza
Por isso eu, tão pequeno
mergulhei para ensinar
que não são teus olhos
a enxergar os fatos
e sim o cosmos
a enxergar teus olhos
2
Agora me diga, menina
se forma é vazio e vazio é forma
essa noite, na tua cama de molas
quem dorme?
- Raskin
quarta-feira, 23 de abril de 2014
Orgasmoprece
Não é sobre sexo
Não é sobre Deus
Não é só sobre sexo
Nem só sobre Deus
É uma sucessão de Ahs! & Ohs!
De saliva e línguas entrelaçadas
De fluídos fluidos e facilitadores de prazeres cármicos
Não!
Não é só sobre sexo
É sobre pelos e peles
E sobre o outro sobre a cama
É principalmente sobre a tua boca
aberta em orgasmoprece
- "Meu Deus, Meu Deus!"
É sobre minha Deusa
Mãe da minha filha
Mulher da minha vida
- Raskin
sábado, 12 de abril de 2014
Ego
- Cortou-me as asas e chorei veneno mil anos!
Disse a serpente, triste como uma viúva obediente.
- Depois arrancou-me as presas e conheci a fome
que castiga o corpo e a mente!
Continuou a cobra de maneira eloquente.
- Minha toca, meu refúgio, destruída.
E com isso, exposta a medo e paranoia covardemente!
Prosseguiu assim o lamento da confusa criatura
que de tão desesperada já não mais se movia
sob o peso da minha bota de loucura.
Até que por fim, sucumbi a seu lamento.
Pobre serpente!
E permiti ao animal choroso que saísse
sem entender ao certo qual fora seu crime.
E ela se foi,
julgando-se inocente e imprescindível
ao homem que passara a vida com medo de também voar
e acabar morto por um inimigo, na maioria das vezes,
invisível.
-Raskin
segunda-feira, 17 de março de 2014
Coração de Teia
Revelação
na porta do banheiro
de uma loja de materiais
de construção
A teia
captura um pequeno brilho
líquido, advindo de um céu
de proletária poesia
- Ai, ai quem dera! ... eu penso
meu coração também pudesse
como a teia da aranha
guardar gotas de chuva
além de moribundos
insetos celestes
- Raskin
sexta-feira, 7 de março de 2014
Casa de sonhos
São 4h da manhã &
acordei de um sonho em que
"Z" voltava de Londres
com neblina nos bolsos
e uma barba farta de santo ucraniano
Nos encontrávamos em um
Transcal azul-barulhento
cruzando a Av. Flores da Cunha
em uma Cachoeirinha da infância
que não passamos juntos
Daquele tempo de ruas de pedra &
casas de madeira que
ganhavam vida durante a noite
Falávamos do vazio
e do silêncio do que não ouvíamos
e da música e
da música e principalmente dela
Ele me convidava para um festa
com aquele entusiasmo de anos atrás
- vai ser foda - ele dizia, - descolei até um chocolate com o "V"-
& lá fomos nós
como nos velhos tempos
de vodca e apresentadores de TV
preocupados com a reputação
Me sentia tão feliz
O lugar era um emaranhado de níveis
e corredores repletos de portas
interligados por escadas traiçoeiras,
uma cena Escheriana perfeita
Impossível descrever em detalhes,
mas estávamos lá, juntos em um desfile
de tristes ex namoradas esqueléticas
de vestidos negros e cigarros
nos desejando sorte e reclamando da vida
- Que loucura, velho! - ele gritava
enquanto suava em bicas naquele lugar infernal
- É nossa despedida, nossa última loucura -
Mas eu não entendia de que diabos ele falava
e dei de ombros bebendo minha cerveja
- A partir de agora vamos ser sérios e sofrer quietos
para não incomodar os vizinhos ou nossas mulheres! -
Senti uma tristeza enorme,
mas mesmo assim dei risada ainda sem entender
exatamente o que se passava.
- Em noites quentes como essa, as piscinas do tempo são oceanos -
ele continuou...
E nos perdemos entre as portas
de nossas próprias consciências
- Raskin
BOMBA
Me diga, senhor
quanto valho
em teu baralho
de sangue & sonho?
Que rumo tomo, senhor
antes de tornar-me também um embuste?
Rei Gás
montado em teu cavalo de morte,
por que teu peito desnudo
não pôde abrigar um pouco de amor?
Rei Olho
celebrado nos corredores da grande casa
Arcano 13
Quem te deu a chave mestra
do mundo?
Rei Vermelho Sangue
fome de monstro-carniça
já sugou teu bilhão de almas
para o submundo?
&
Tantos outros Reis
e secretários
apressados
tão pouco tempo
vago
pouca água
pouca mata
pouco pão
tanto circo
macabro
A faísca terminará
por queimar tua casa
!!BOMBA!!
Guerra
é pornografia
para a punheta do opressor
Sexo
é lava
que fertiliza o solo
Amor é Amor
Força criadora
A rua
tua boca
teu grito
teu silêncio quando
calas para ouvir
teus seios
tua informação
teu manifesto de sonho
teu carinho
tua família de mundo
teu amor é amor
Por isso, vos digo
Eu,
Rei Tutti Frutti
o que não existiu
porque nunca deveria ter existido
Eu,
pelo bem da verdade
amo o mundo
com a boca ao ouvido
como quem sussurra
Liberdade...
- Raskin
sábado, 1 de março de 2014
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