sábado, 26 de julho de 2014

Poema antierótico



I

Não haverá amor
não haverá tesão
Ela está nua
de quatro
em frente ao espelho
Ele também está
mas não
Como já havia dito
não é sobre o sexo
úmido
Não haverá coito
não haverá penetração
O poema é tântrico
gozo cortado
anti erótico
não haverá ereção
lubrificantes?
esperma?
gritos abafados?
Não.

II

Mas então
de que diabos
falaria um poeta
se não das delícias da carne?


- Raskin





quarta-feira, 23 de julho de 2014

Deus não estava



Não,
quando nasci Deus não estava enfermo
nem mesmo enfermo grave
como quis Vallejo
Quando nasci, Deus não estava
e se estivesse, gostaria que não

Afinal há trabalho no mundo
muito mais importante
do que acompanhar o nascimento
de uma criança

A morte, essa sim merece uma vela
E aquele que sabe a hora de morrer
terá sempre a minha mais sincera atenção.

Nascer é um dever

Em 1987 ou agora
Em Gravataí ou em Gaza
a miséria e a guerra ainda me parecem
melhores motivos para uma intervenção divina

Meu nascimento não

Não fui o anjinho enviado
que entrou no mundo rodeado de sol
e carinha de joelho. Não.

Vim de olhos tristes e cabelos negros
dividindo o leito com outros bebês
igualmente menos importantes

Chorei
Minha mãe também chorou

E é curioso falar disso agora
depois de homem feito
Dizer que nascer foi doloroso
-E sempre é-
porque de todas as vezes que nasci
ao longo desta curta vida,
a primeira tenha sido talvez a mais tranquila

O resto se aprende com o tempo
cada lição, cada delícia
toda a entrega que com o tempo
o próprio tempo te exige
Sempre se aprende
de uma forma ou de outra
se aprende

Viver é sacrifício

-Raskin

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Vi teu rosto no muro e era sangue


O homem
e as lebres do cotidiano
o crime do não sonhar
o sonho
a única realidade possível
inafiançável
um coração cadeado
a mente entre grades
nos tanques-hipopótamos
o trabalho assassino
Que tristeza, meu deus
que tristeza
O leão morreu de fome
na sala de jantar

- Raskin 

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Mediterrânea

Fotagrafia de Paulo Martinez


Queimei a nave
& naveguei a nave em chamas
Porque a vida é uma
e dar-se ao luxo de não se queimar
é desperdício de tempo.

- Um bom marujo não se faz no atracadouro -
Me disse o deus que trago no peito.

E Então guardei no bolso
uma estrela cadente
E a lua,
como uma faca curva,
apertada entre os dentes

O pássaro é um homem que aceitou o voo
e jamais voltou a cabeça para olhar atrás


-Raskin

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Disfunção Profissional



Vejo
todos os dias
homens sérios
apressados
caóticos
cardíacos
todos os dias

os vejo
mas não os enxergo...

-Raskin

terça-feira, 10 de junho de 2014

Cantos de ar e água salgada V

Galatea of the Spheres, (1952), Salvador Dali

Vi teu corpo gaivota cruzar espelhos de mercúrio 
                           nos entardeceres da nova terra.
Vi teus pés fincarem  fortes no estômago monstruoso da areia fina 
                           feito lanças de sonho em um paraíso moribundo &
                           modorrento onde cordeiro algum pastaria ao lado
                           de Leões.
Vi também tua cabeça de cavalo em rédeas de ventania
                           a lançar olhares de navegador em todas as direções
E o céu carregado de uma energia sexual concentrada
                           qual o ventre de uma deusa
-Que força maravilhosa é esta? - 
                            Me perguntei.
"Mãe água & antigos mil nomes fui e ainda serei" - 
                           Ribombou o trovão enquanto espalhava 
                           seu fogo através do infinito em bandejas de prata.

"E tu, homem semente, vá e erga altares da mente em honra
dessa mãe esquecida e faminta que avistaste na praia"
                           Obedeci, amedrontado e perplexo como um menino
                           diante dos seios potentes da primeira mulher

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A poesia como holocausto









                         

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Cantos de ar e água salgada IV



De ressaca, o mar vomita
na areia da madrugada,
cama dos que amam no verão &
que foi um dia também a nossa cama
memórias-cadáveres indesejadas.
Por isso te digo, querida
é preciso encará-las apodrecer até os ossos
sem levá-las para casa nos bolsos como eu fiz
respirar o fedor sem poder dormir
deitar na cama de pregos de um faquir
Pois não sei mais o que é paz, meu amor,
não agora que os gatos da desesperança
atraídos pelo cheiro da loucura
escolheram meu telhado para brigar

-Raskin

Cantos de ar e água salgada III


Sol sob os olhos
memória de peixe espada
no aquário do teu ventre
Minha casa que nunca esqueci
e que um dia voltarei
para contar uma história
de cardumes fantasmas &
redes rasgadas pela solidão do mar
O mesmo mar que não aceita prisões a longo prazo
nem marujo fajuto que nunca aprendeu um nó
que não fosse na corda das frustrações

-Raskin

Cantos de ar e água salgada II



Sal sob a pele
mesmo depois de mil banhos
e doloridos quinhentos quilômetros de asfalto
O chão do quarto repleto de escamas
não acalma minh'alma como o oceano
um dia acalmou

Mágoas e mágoas
à léguas de serem resolvidas
Tristes baleias flutuando na orla
antes de encalharem chorosas
no meu peito arpoador

Água salobra à inundar os pulmões
outra vez...nunca mais


-Raskin

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Cantos de ar e água salgada


Não me contento em ser
não mais que uma peça
desta infernal engrenagem

Não depois de ter escutado
dos lábios de deus
que o melhor passarinho
                                     é sempre
                                                    aquele
                                                              que
                                                                    voa
                                                                          pra
                                                                                longe
                                                                                        da
                                                                                             margem... 


-Raskin
                                   

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Vista


Imagem do filme Um Cão Andaluz - 1929


1
Tão pequeno sou
que mergulhei em teu olho
e fiz ondas em tua íris cor-de-infinito
Atravessei pupila
alcancei córnea
invertido
logo convertido
em corpo estranho
Não como um incomodo cisco
mais como uma lâmina cegante
predecessora de escuridão
Lição atordoante do que se esquece
constantemente
diante de tanta falsa grandeza
Por isso eu, tão pequeno
mergulhei para ensinar
que não são teus olhos
a enxergar os fatos
e sim o cosmos
a enxergar teus olhos


2
Agora me diga, menina
se forma é vazio e vazio é forma
essa noite, na tua cama de molas
quem dorme?


- Raskin


quarta-feira, 23 de abril de 2014

Orgasmoprece



Não é sobre sexo
Não é sobre Deus
Não é só sobre sexo
Nem só sobre Deus
É uma sucessão de Ahs! & Ohs!
De saliva e línguas entrelaçadas
De fluídos fluidos e facilitadores de prazeres cármicos
Não!
Não é só sobre sexo
É sobre pelos e peles
E sobre o outro sobre a cama
É principalmente sobre a tua boca
aberta em orgasmoprece
- "Meu Deus, Meu Deus!"
É sobre minha Deusa
Mãe da minha filha
Mulher da minha vida

- Raskin

sábado, 12 de abril de 2014

Ego



- Cortou-me as asas e chorei veneno mil anos!
Disse a serpente, triste como uma viúva obediente.

- Depois arrancou-me as presas e conheci a fome
que castiga o corpo e a mente!
Continuou a cobra de maneira eloquente.

- Minha toca, meu refúgio, destruída.
E com isso, exposta a medo e paranoia covardemente!
Prosseguiu assim o lamento da confusa criatura
que de tão desesperada já não mais se movia
sob o peso da minha bota de loucura.

Até que por fim, sucumbi a seu lamento.
Pobre serpente!

E permiti ao animal choroso que saísse
sem entender ao certo qual fora seu crime.
E ela se foi,
julgando-se inocente e imprescindível
ao homem que passara a vida com medo de também voar
e acabar morto por um inimigo, na maioria das vezes,
invisível.


-Raskin

segunda-feira, 17 de março de 2014

Coração de Teia



Revelação
na porta do banheiro
de uma loja de materiais
                   de construção

A teia
captura um pequeno brilho 
líquido, advindo de um céu
                         de proletária poesia
                       

- Ai, ai quem dera! ... eu penso
meu coração também pudesse
como a teia da aranha
guardar gotas de chuva
além de moribundos 
insetos celestes

- Raskin

sexta-feira, 7 de março de 2014

Casa de sonhos



São 4h da manhã &
acordei de um sonho em que
"Z" voltava de Londres
com neblina nos bolsos
e uma barba farta de santo ucraniano

Nos encontrávamos em um
Transcal azul-barulhento
cruzando a Av. Flores da Cunha
em uma Cachoeirinha da infância
que não passamos juntos
Daquele tempo de ruas de pedra &
casas de madeira que
ganhavam vida durante a noite

Falávamos do vazio
e do silêncio do que não ouvíamos
e da música e
da música e principalmente dela

Ele me convidava para um festa
com aquele entusiasmo de anos atrás
- vai ser foda - ele dizia, - descolei até um chocolate com o "V"-

& lá fomos nós
como nos velhos tempos
de vodca e apresentadores de TV
preocupados com a reputação

Me sentia tão feliz

O lugar era um emaranhado de níveis
e corredores repletos de portas
interligados por escadas traiçoeiras,
uma cena Escheriana  perfeita

Impossível descrever em detalhes,
mas estávamos lá, juntos em um desfile
de tristes ex namoradas esqueléticas
de vestidos negros e cigarros
nos desejando sorte e reclamando da vida

- Que loucura, velho! - ele gritava
enquanto suava em bicas naquele lugar infernal
- É nossa despedida, nossa última loucura -
Mas eu não entendia de que diabos ele falava
e dei de ombros bebendo minha cerveja
- A partir de agora vamos ser sérios e sofrer quietos
para não incomodar os vizinhos ou nossas mulheres! -

Senti uma tristeza enorme,
mas mesmo assim dei risada ainda sem entender
exatamente o que se passava.

- Em noites quentes como essa, as piscinas do tempo são oceanos -
ele continuou...


E nos perdemos entre as portas
de nossas próprias consciências


- Raskin

BOMBA



Me diga, senhor
quanto valho
em teu baralho
de sangue & sonho?

Que rumo tomo, senhor
antes de tornar-me também um embuste?

Rei Gás
montado em teu cavalo de morte,
por que teu peito desnudo
não pôde abrigar um pouco de amor?

Rei Olho
celebrado nos corredores da grande casa
Arcano 13
Quem te deu a chave mestra
                                         do mundo?

Rei Vermelho Sangue
fome de monstro-carniça
já sugou  teu bilhão de almas
para o submundo?

&

Tantos outros Reis
e secretários
apressados
tão pouco tempo
vago
pouca água
pouca mata
pouco pão
tanto circo
macabro

A faísca terminará
por queimar tua casa

!!BOMBA!!

Guerra
é pornografia
para a punheta do opressor

Sexo
é lava
que fertiliza o solo

Amor é Amor

Força criadora

A rua 
tua boca 
teu grito
teu silêncio quando
calas para ouvir
teus seios
tua informação
teu manifesto de sonho
teu carinho
tua família de mundo
teu amor é amor

Por isso, vos digo
Eu,
Rei Tutti Frutti
o que não existiu
porque nunca deveria ter existido
Eu,
pelo bem da verdade
amo o mundo
com a boca ao ouvido
como quem sussurra
Liberdade...


- Raskin





sábado, 1 de março de 2014

Plurivácuo ou O sermão da onda



não sou mar
definitivamente
não sou peixe

não sou céu
e não por acaso
não sou pássaro

não

não sou nada

e por querer ser tudo
e não ser nada
é que sou homem

- Raskin

*Pintura de René Magritte que cosmicamente coincidiu com meu singelo poema.




terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Fim de Século

Imagem: Choque de Carla Barth


O semáforo pisca seu olho elétrico para uma cidade fantasma
na esquina da Carlos Gomes com a Plínio Brasil Milano
Meu crânio em câmera lenta
capta sexo e álcool entre as árvores que penetram muros fendidos
nas enormes orgias do pensamento
Prédios se elevam em galanteios fálicos e mil olhos de sangue e solidão
Picho, piche, sêmen negro que afoga a garganta da terra
e a vida não respira sufocada por essa porra toda
Eu vi um rio sob o viaduto antes da queda uma vez
e mais adiante, Shiga e barulho de água
Eu vi, com os olhos atrás da minha cabeça,
legiões de espíritos e orixás
abrirem caminho para as três crianças do deleite apocalíptico
A criança do Amor, vestida de ouro e pedras preciosas
A criança da Liberdade, leve e rebelde
com as roupas em farrapos despudorados
E a criança da Poesia, etérea, iluminada pela lua
em vestes espectrais de relva e incenso estelar

Mas onde andavam meus amigos que partiram
em busca de garrafas de fogo e diversão?
E os outros, aqueles que nunca vieram?

É terça-feira e me sento ao sol
remoendo estas memórias nucleares de eterna fantasia
Trechos do fabulário adolescente de um poeta rechaçado em bits
por respeitados intelectuais do ânus com suas hemorroidas em chamas

E ainda assim insisto

Com a memória cravada nas coxas macias
de algum fantasma do natal passado

Ainda assim insisto

Cuspindo meu deboche sereno de burguês familiar
nos olhos flácidos de guardiões da pureza poética
orgulhosos de suas teorias

Cães que os próprios cães rechaçariam
Veneno que a própria serpente expurgaria

Desprezodezpresodesprezo
Mil vezes...
E outras mil desprezaria



- Raskin

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Nirvana



Maria sorri,

plena por descobrir como abrir a tampa de um pote.

O universo inteiro vibra em eterno vazio...


- Raskin

Satori



Toda manhã,

a velha varre

com vassoura de galhos

as flores mortas da madrugada.


Eu observo...



- Raskin