sábado, 18 de maio de 2024

Teu qorpo 

Syntese absurda

D'uma d'vyndade perphormatiqa

Rephletida em lâmina d'água... Q resta?

Lautréamont a morder 

- qom malicia pharmaceutiqa -

os qantos da tua boqa.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024


Margarida ama o mestre
Margarida fiel
Margarida desespero
Margarida choro de Maria
sobre a terra seca de Yerushalaim

O mestre louco
quarto 118
Ao lado Ivanuchka grita
para o pavor da gorda Praskóvia
Hegemon insone acaricia o cachorro
com a lua cheia de luz

Margarida bruxa
Margarida nua
Margarida graciosa no salão de baile
sorrindo nervosa ao assassino

Moscou arde sob a espada do estrangeiro
enquanto Behemoth e Korôviev zombeteiros
saqueiam o que lhes dá vontade
Azazello apenas cumpre sua função



O que me desperta fascínio
no ébrio habitual - é a ebriedade
talvez por essa minha dificuldade
de atrelar-me ao vício

Já o que me inquieta
na guerra - é essa vil gratuidade
Essa vil gratuidade em que todas as almas
em mercurial comércio - são trocadas em desleal escambo


segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

Natal

 

Uma sirene insistente

irrompe a noite

estraçalhando vidraças

e minúsculos ossos auditivos

Lou Reed bravamente 

se impõe - sem sucesso -

num duelo de facas

onde as lâminas ressoam

confusas 


- som visão e sabor -


Embriagado tudo parece maior

ou mais complexo

mais triste com certeza

Aqui ou em Nova Iorque

ela me narra sentimentos semelhantes

Estamos todos doentes

e é Natal e os terapeutas

complementam receitas


- pai filho e espírito santo -


Estar sozinho é muito  mais 

do que só uma opção


Segunda feira, vinte e 5 de dezembro de 2000 e vinte e três


segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

Uma casa sempre aberta

                                                

Despedi-me d’Ela
deitando flores ao chão
enquanto rogava em silêncio 
que encontrassem o caminho do rio.
Despedi-me d’Ela aos prantos. – EU –
Ela talvez já houvesse me deixado há muito tempo

- Despedindo-me retomaria enfim o corpo
ao tempo em que entregava a alma. -

Despedi-me d’Ela
tocando-lhe os seios e o sexo
que com doçura me alimentara por anos.
Já Ela tocou-me a face
me exigindo os olhos, a língua e a faca.
Um preço baixo, diria, 
para quem apresentou-me à vida
ao custo módico de um pesado desconforto social.

Com o braço firme ergueu a lâmina 
e pude sentir o gosto ao cortar-me a língua 
e o brilho ao vazar-me os olhos 
aos gritos de: COVARDE! 

Ensanguentado, tateei com a ponta dos dedos 
as paredes do quarto com a desculpa de encontrar a saída,
quando na verdade o que tentava, em vão
era guardar na pele a memória de uma casa aberta
com seus quadros vivos e prateleiras insones
por onde sangraram meus primeiros versos.

Despedi-me d’Ela. 
E tudo agora me pesa.
Menos quando sonho com pássaros
ou gatos enormes premeditando saltos
que nunca se cumprem antes do amanhecer



-Y.P.

Paraíso Perdido



Há uma letra de ouro marcada na porta do paraíso
Uma enorme letra cursiva, mental
Um caractere aberrante [de sentido confuso]
Simbologia de sonhos
um medonho pássaro  que engole as próprias tripas

Letra preciosa gravada na porta do que não existe
e que não existindo, se faz mais real do que nunca
do que o mundo, do que tudo que aspira um dia ser
                                                                      e ainda não é
Um Verbo morto
marca de fogo que já não queima
boca infinita que engole o mundo

Engrenagem humana que maquina o futuro
Uma máquina de ilusões maquiadas
apodrecendo na teia de aranha do tempo
que não vislumbra senão o fora de moda
das velhas adorações pessoais
o fascismo ecumênico
o genocídio
a esterilidade pela ignorância
o extermínio do que vibra
a morte do que vive

Letra [de ouro]
                      marcada com sangue
                                             na porta do paraíso



- Y.P.

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

Estranhezas

 

Arte: 

LA JUBILACION DE SÍSIFO Jose Ramon Diez Rebanal



I

Faz tanto tempo

minhas mãos frias

quase não conseguem

porque frias são também

                           as mãos dos que morrem

  &

eu sei que quase morri

aquele tipo de morte feia e pouco heroica

como qualquer outra morte possível

nesse planeta cada vez mais quente

        

     II


Foi por pouco, mas sobrevivi

                                    [eu acho]

Ainda que com as mãos mortas

e um coração sanguíneo 

                                     devorando galáxias

e sanduiches de frios

comprados em algum 

secos e molhados da infância

                                              [Consegui]

                                      Como Sísifo, enganei a morte

e agora tenho essa enorme pedra na alma 

para provar que não estou  mentindo


            III


Há uma nova realidade pós vida

com tanta coisa adormecida

que me pego andando nas pontas dos pés

no apartamento onde vivo

                                      - e nem assim obtive sucesso -

Algo acordou

um sentimento estranho em algum lugar

entre o cérebro e o estômago

                                        algo que ainda não nomeei

mas com força suficiente

para arrastar essas mãos glaciais

ao encontro de um poeminha sem jeito

escondido sob a grossa ferrugem do tempo


- Y.P.


quinta-feira, 8 de agosto de 2019


Bem aventurados os raros
os bardos
as hordas de selvagens corações
palpitantes na luz crepitante do mundo

Bem aventurados os poetas
os cometas
Bill Haley ou B.B. King masturbando
o clitóris elétrico de Lucille

Bem aventurados os vagabundos
em pele de lobo
o rombo o roubo ou a quebra
nas bolsas de Wall Street

Bem aventurada a gastrite
a ânsia
a foda perfeita ou o insuportável peso
de não aguentar ser feliz

Bem aventurada a aventura
a ternura
Whitman e seu anjo fraterno
chorando uma América esquecida

Bem aventurada a coragem
a amizade
selada num momento em que
o que sobra é só desolação

Bem aventurada a canção
a benção
a crença vazia e potente
no coração do absurdo

Bem aventurada seja
em face da mão fria da morte
a nossa solidão

- Raskin

Dedilha o cravo do tempo 
as mãos molhadas de inverno. 
Tuas juntas cansadas
seguram a pena
no leito de morte.
Mas poesia não é sobre isso.

Se perde tanto,
sobretudo tempo
na busca inútil
pela poética absoluta
contida nas coisas.

Quando de absoluto mesmo,
somente o nada.
Esse vazio cosmogelatinoso
que serve de ligação para a vida
no instante em que tudo mais 
se faz pequeno.

Por isso não esparrame, meu coração.
Não liquide teus segredos
em uma black friday pavorosa.
Usa tua retina de refletor e
compartilha tua película com os raros.

Tua pena pode até riscar a folha
de amor, de morte, de noite
Mas poesia é mais do que isso.

Paciência é coisa cara - chave -
treina.










Naquela porta
armário louco
dos cheiros da minha avó
guardado em potes e
panos de prato

- o pão -

Café com leite
derramado na terra
Coque minúsculo
feito beija flor estrambótico
mais rápido que o silêncio
Arcaicas verrugas ínfimas
órbitas cadavéricas
Crustáceos alquímicos
de magia absurda
Loucura indizível
saltando da cabecinha miúda
da velha,
uma sombra
um sonho
talvez uma carta que nunca escreveu
Uma sobra
um excesso
- talvez -
sonoros pardais
na porta de casa

- Raskin


quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Se Aprende

Foto: The Real Indians by Andy Prokh

Se aprende
Que a ideia não é a morte
tão pouco o norte é a aldeia
Que os amores são bobos
mas que mesmo bobos ainda são amores
Se aprende
poesia imagética
evocação devota
joelhos dobrados ao lado da cama desperta
estado de alerta permanente – Leve –

Mesmo ser leve se aprende
e que o sal
na água faz flutuar o peso morto

Mas antes disso,
-criança- sentado para ouvir o vento
escutava o discurso fácil do arbusto e
da vaca -do pão e do pasto-
quando do céu – alaranjada –
uma luz descia quase espessa
sobre pomares paranóicos
onde limões sarcásticos,
pêssegos matreiros
e melancias extraviadas
-com astúcia de professor-
ensinavam ao enfant terrible
que o olfato- de todos os sentidos -
é o mais delirante

Como disse, com o tempo
aprendi que tudo se aprende:
vocabulário
estética
sexo
Até mesmo conduzir automóveis
ou lavar o banheiro
com cloro
se aprende

E sem que ninguém explique
às vezes também se sente
principalmente
nos dias em que deus não responde
e os gatos arqueiam as costas sob os portões
para escaparem de um cão atiçado pelo adestrador


- Yuri Pospichil

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Só o Esquecimento é Imortal




O tempo – das entidades relativas- seja talvez
o mais impiedoso carrasco de um poeta.
Eis a verdade: Teu verso imortal será jogado aos porcos
soterrado por toneladas e toneladas de escombros,
desdém e óvulos não fecundados.
Teu poema honesto e sincero acerca do amor
não tocará nunca o coração embrutecido da pós humanidade.
Luxuosos transatlânticos transformados em fantasmas de aço
alimentarão vermes com o papel apodrecido das suas bibliotecas.
O teu livro, aquele tão lindo em que narraste de forma quase mágica
a tua infância...enfim destruído.
Tuas pretensões adolescentes de tocar a face iluminada de Rimbaud
enquanto se masturba escondido na madrugada fria do espírito...
Aniquiladas sem a menor cerimônia por um cyberespaço débil e superlotado.
As tuas lutas políticas, o teu engajamento social através da arte,
mesmo as transas mais libertárias...Tudo suprimido
com a violência muda de uma sociedade tecnocrática.
A tua velhice, maldita e romântica gravada com grandeza
e invejável eloquência em um bloco de papel, tornar-se-a
não mais que um pequeno e insólito bloco de concreto estéril.
A tua morte, tantas vezes revisitada e pranteada pelos amigos mais próximos,
as possíveis homenagens, uma ex namorada já muito velha
amargando os horrores de um asilo, teu rosto ainda bem jovem
no sonho da pobre senhora...TUDO esmagado pelo pesado martelo 

de um justo deus tempo...

Por outro lado, será precisamente nessa hora,
nessa partícula fracionada de um instante,
impossível de ser definida ou observada
nem mesmo pelo telescópio nuclear mais avançado
que a tua alma, a tua sombra de alma
resquício final de uma existência quase insignificante
poderá enfim se libertar.

-Yuri Pospichil

domingo, 18 de junho de 2017


No espaço vazio (ab)surdo
Entre Beethoven e os Depeche Mode
A pornopoética rompe com a blindagem das agências bancárias
temperando com vidro um enorme prato de sopa... 

- Raskin

Thoreau bateu à minha porta.
Eram 3 da manhã de um lugar comum
Destes tão ordinários quanto
a própria realidade.
Trazia consigo um cesto de maçãs
vermelhas e na mão esquerda
um calhamaço mágico...Anárquico
me chamava para fora
para que eu visse com meu próprio
espírito sujo da fuligem industrial
uma enorme fogueira que ardia
alimentada pelas leis do capital.
Thoreau como um xamã
aniquilava toda produção inútil,
a fome e a servidão.
Fazendo-as curvarem diante
de seu olhar caudaloso.
Ao nosso redor relâmpagos
Iluminavam o interior do fumo
espesso da fogueira enquanto
a Terra gritava e os Rios, com violência
arrastavam suas amarras...
De costas coladas à parede de pedra
chorei, entre maravilhado e confuso.


- Raskin
Foto: Dado Braz

Toda violência de uma vida
gasta a servir aos mecanismos
sórdidos de uma prisão de almas que 
julgamos sociedade
Toda violência, tudo,
toda delinquência do espírito,
dos vícios, das manhãs em que
se acorda excitado sem que se ouse
despertar a esposa que dorme ao lado
Toda a ânsia de vômito, toda, tudo...
o sentir-se como merda na presença do patrão,
nem ódio nem revolta...só um desejo de voar
O corpo pequeno no ar, a densidade do espaço vazio
entre a passarela e o asfalto
Toda a amargura, icebergs árticos, mendigos
beatificados pelo sereno, o conhaque feito o
universo através das lentes de um
supertelescópionorteamericano...
Toda essa merda, tudo, toda
e ainda assim, nada...
nada que valha sequer 

um poema imortal

-Raskin

domingo, 22 de janeiro de 2017

Sonora



O mar, o mar suave
Doce mar suave como
o vinho da noite
Ondas de pequenos beijos
Sensuais ondas de caralhos
sobre o sexo escuro e triste
da faixa de areia
Loucas joias,
Joias salgadas
de imenso cordão submarino
Paixão embriagada
presa aos encantos
dos emaranhados
cabelos da sereia
Abrigo líquido
sob abóbada negra,
espelho da virgem
teus olhos 

- Raskin

sábado, 20 de agosto de 2016

A Cabeça Raspada de Maiakovski


De Maiakovski não trago mais
que a cabeça raspada
Só e tão somente isso
Solitário caminho
de quem nasceu para ser
razoável em quase tudo
Inútil para grandes conquistas
Imprestável para curas, químicas,
filosofias ou viagens espaciais
Só e tão somente isso
Um emprego simples
Um apartamento grande num bairro antigo
As alegrias mornas do proletario
Uma cerveja quase invisível
A loucura quase macabra
O pão e a faca
Talvez pequenos versos
escritos assim, como quem não quer
nem espera nada
Mas de Maiakovski mesmo,
não mais que uma cabeça raspada
- Raskin

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Malabarismos



Cruzo 
através do vermelho difuso 
das horrorosas sinaleiras
contrapostas
ao manto azul escuro
da noite precoce

(Sinto que a poética se aguça)

Caturritas gritam impropérios
do alto de seus coqueiros impostores
E no chão molhado
o reflexo de mil constelações de carne
hipnotizadas
aguardam impacientes
a contagem regressiva
nos mostradores de LED

Suas carcaças vazias
titubeiam tilintantes
por bulevares estéreis
onde assassinos sem libido
descontam frustrações
em enormes sanduíches 
de carne e de desolação

Ah, se meu coração 
não fosse essa pequena bola de plasma
e parasse de bater
nem que fosse por algumas horas
Com toda certeza 
descansaria minhas angústias
em um agradável banho Maria

(Mas ele insiste)

Ou...Ah, e se meu corpo
não fosse esse milagroso amontoado de átomos
e desmanchasse no espaço
nem que fosse por um instante?
Meu ônibus decolaria do asfalto
e as caturritas cagariam
na cabeça de deus
em explosivas gargalhadas

(Assim teria certeza de que tudo pode ficar um pouco mais leve &
 abraçaríamos o abraço que não existe)

- Raskin

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Acto Finale

Imagem: Jaroslaw Jasnikowsk
Sirenes anunciam
através do céu dourado
do final da tarde
querubins assépticos
em comitiva
vestindo jaquetas de couro
e óculos grandes
de escuridão universal
dois cães com cabeça de prata
abrem caminho
nos músculos cansados
do meu peito
apresentadores de TV choram
e rasgam as roupas ao vivo
no telejornal
deputados e sacerdotes
em transe
transam apaixonadamente
sobre leitos de dinheiro
o sectarismo e a ignorância
não enxergam limites
os gênios atravessam espelhos
e se rasgam em flagelo
implorando inútil perdão
à gangue angelical
Gabriel à direita
Azazel à esquerda do trono
com toda nação sob julgo do estrangeiro
a gargalhada de Abraxas ecoa
ao se deliciar
com o dramma bernesco
do apocalipse tupiniquim

 -Raskin

sexta-feira, 11 de março de 2016

Uma aranha

Na garganta  do poeta
      uma sufocante aranha negra
que desliza devagar, mas nem tanto...
      Um imenso exoesqueleto
aninhado na traqueia
      tecendo uma teia [que de tão longa]
alcançaria o inferno...

Uma escada,
um fio fino e frio
trazendo à tona
os antigos demônios da criação

-Raskin