Teu qorpo
Syntese absurda
D'uma d'vyndade perphormatiqa
Rephletida em lâmina d'água... Q resta?
Lautréamont a morder
- qom malicia pharmaceutiqa -
os qantos da tua boqa.
Uma sirene insistente
irrompe a noite
estraçalhando vidraças
e minúsculos ossos auditivos
Lou Reed bravamente
se impõe - sem sucesso -
num duelo de facas
onde as lâminas ressoam
confusas
- som visão e sabor -
Embriagado tudo parece maior
ou mais complexo
mais triste com certeza
Aqui ou em Nova Iorque
ela me narra sentimentos semelhantes
Estamos todos doentes
e é Natal e os terapeutas
complementam receitas
- pai filho e espírito santo -
Estar sozinho é muito mais
do que só uma opção
Segunda feira, vinte e 5 de dezembro de 2000 e vinte e três

I
Faz tanto tempo
minhas mãos frias
quase não conseguem
porque frias são também
as mãos dos que morrem
&
eu sei que quase morri
aquele tipo de morte feia e pouco heroica
como qualquer outra morte possível
nesse planeta cada vez mais quente
II
Foi por pouco, mas sobrevivi
[eu acho]
Ainda que com as mãos mortas
e um coração sanguíneo
devorando galáxias
e sanduiches de frios
comprados em algum
secos e molhados da infância
[Consegui]
Como Sísifo, enganei a morte
e agora tenho essa enorme pedra na alma
para provar que não estou mentindo
III
Há uma nova realidade pós vida
com tanta coisa adormecida
que me pego andando nas pontas dos pés
no apartamento onde vivo
- e nem assim obtive sucesso -
Algo acordou
um sentimento estranho em algum lugar
entre o cérebro e o estômago
algo que ainda não nomeei
mas com força suficiente
para arrastar essas mãos glaciais
ao encontro de um poeminha sem jeito
escondido sob a grossa ferrugem do tempo
- Y.P.