terça-feira, 29 de março de 2011

Voltando pra casa, voltando pro nada



Não sei ao certo a dimensão dessas palavras ou o que elas poderão significar para quem as ler, mas sinto que escrevê-las aqui me tira um grande peso, o peso de ser quem sou.
Durante os últimos anos venho buscando afirmação externa, aceitações em massa e amores banais mas aparentemente necessários para uma vida um pouco mais "normal".
Longe de mim querer me incluir nesse rótulo pós-moderno de "alternativo, solitário e incompreendido", até porque ser triste não te faz melhor do que ninguém, pelo contrário, te faz ser triste apenas.
Mas o que realmente estou tentando dizer é que abrí mão de um bocado de alma para me ajustar à certos padrões (a maioria deles nada saudáveis, admito), que talvez suprissem o vazio que eu levo no peito. Um vazio que já tentei preencher com as mais variadas maneiras. Desde a mais revolucionária caridade e desejo de justiça social até o lirísmo pacifísta que teria o poder de salvar a existência por meio da beleza poética.
Todos as tentativas e personalidades eram reais, acreditei de verdade em cada uma das idéias, mesmo quando as intercalava com inconsequências etílicas e rock n' roll.
Todas elas foram frutos de uma época onde realmente nunca me amei, mas que conseguia me admirar e sentir um orgulho enorme sempre que me olhava no espelho, uma época onde me sentia deslocado e inútil por não defender uma causa maior.
Todas as paixões dessa época foram extremas, com nenhuma delas eu soube lidar de forma saudável e moderada. Nessas paixões incluo as amorosas também, todas inesquecíveis como cicatrizes de guerra e lindas como livros de história que deveriam ser usados muito mais para escrever o futuro.
Isso tudo passou, foi se moldando, adquirindo novas faces por conta de grandes desilusões, novas fugas foram sendo usadas, alívios sintéticos, sorrisos com prazo de validade de horas. O medo de ficar sozinho me arrastou para as multidões, no meio dela conheci e escolhi uma nova família, todos fugitivos como eu, todos com medo de ficarem sozinhos, com medo que a música parasse de tocar antes de estarem prontos para pararem de dançar.
Algum tempo se passou desde essa última mudança e parece que agora sinto a ressaca da grande embriaguez que foram esses anos.
Não apenas eu, minha família escolhida também compartilha dessa sensação de estranheza que cresce junto com os espaços entre os encontros, os muros crescendo entre todos nós, a música tocando baixinho no ambiente e as censuras que pouco a pouco dominam nossas relações.
Criamos imagens uns dos outros durante esses últimos anos, acreditamos que nada mudaria e que poderíamos fugir eternamente da velhice, da tristeza, das responsabilidades, dos silêncios e da solidão. Mentimos o tempo todo ao dizer que não nos sentíamos tristes e angustiados às vezes. Censurávamos a tristeza um do outro por medo de admitirmos a nossa, e hoje chegamos ao ponto de censurarmos até mesmo a alegria.
Passamos de uma família de crianças sem pais para uma familía com adultos demais ocupando a mesma casa. Não haveria problema nenhum nisso se não fosse o fato de não sabermos lidar com a vergonha que sentimos de nós mesmos e dos novos medos de parecermos ridículos e desajustados.
Medo de parecermos novamente os bastardos de coração mole que não precisavam de desculpas para trocar um abraço e um beijo sincero, que falavam besteiras sem trava e dançavam como malucos só para acreditar que lá fora era lá fora e aqui dentro ninguém poderia nos machucar.
O que mudou não foi o fato de ter aprendido a me amar, isso eu nunca aprendi, o que mudou foi o fato de não mais me sentir orgulhoso e não conseguir admirar a mim mesmo.
Tenho certeza que se alguns de vocês acabarem lendo essas linhas até o final, irão inevitavelmente me censurar.
Mas não sem antes refletir só um pouquinho e sentir medo da verdade que levam no peito.
Amo cada um de vocês, independente do que outras pessoas pensavam e pensam sobre nós, mas não posso jamais conviver com essas novas censuras enquanto todos fingem não saber o que foram.
Sinto necessidade de me encontrar novamente e medo de ser julgado por isso. Na verdade sempre sentí isso e durante anos escondi uma parte bem grande de mim por medo dessa censura.
Mas então quem é o censor agora? - Todos nós somos.
Só que cansei de abrir mão de demonstrar minha tristeza, minhas paixões, meu afeto e muitas das minhas idéias. Cansei de tentar me manter alegre o tempo todo para passar segurança e tranquilidade para todos nós. Até por que é sempre mais fácil viver quando estão todos sempre alegres, independentemente da veracidade do sorriso.
Sim, muitas vezes me sentí desconfortável e mentiroso.
Sim, muitas vezes odiei atitudes e palavras que saíam da boca de vocês.
Me sentí humilhado e acuado algumas vezes.
Sentí saudades do passado e de ser os muitos que fui antes de conhecê-los.
Mas acima de tudo, amei cada um da melhor forma que pude.
Seremos irmãos bastardos para o resto da vida.
Cheios de defeitos e manias terríveis, mas com uma ligação indescritível.
Espero que pelo menos entendam minhas atitudes daqui para frente, preciso recuperar meu orgulho próprio para quem sabe encontrar o amor que busco a tanto tempo.
Desejo que nosso maior medo nunca se realize e que nosso Rock n Roll seja cantado para sempre!


Por: Yuri Pospichil

quarta-feira, 23 de março de 2011

Passagem


A julgar pela janela fechada,
A porta trancada
E a luz quase nula.

A vida de outrora além de cansada
Mudara de estrada e partiu sem olhar.

E quando a noite chegava à um mundo em festa
Onde metade dormia e a outra cantava,
O morto-vivo com dias sonhava.

Mas não daqueles que a janela mostrava ou o som denuncia.
Eram dias de cor desbotada,
Com cheiro de livro e geladeira vazia.

E ao contrário do que todos pensavam,
Não tinha nada a ver com orgulho ou ser o que queria.

Era sobre carregar no peito uma busca e uma bússola
Que com teimosia apontavam o sul.

Por isso sentar-se em frente à sí mesmo
Não era opção ou tão pouco uma escolha.

Era a saída, a trilha de volta pra vida
Que a muito tempo o deixou.

Sendo assim...

Que assim seja...


Que assim seja...



Por: Rimini Raskin



terça-feira, 15 de março de 2011

About Candies and Searches (música)




In my dreams you make me fly,
And when i wake i feel the taste
Of your candies and spacial bikes.
So i turn to sleep again.

You are my soldier, soldier.
And i am your lover untill the end.

When the trees became our guides
we create our proper place.
With nights full of surprise
and colourful mistakes.

You are my brother, brother.
And i am your follower untill the end.


Por: Rimini Raskin

sábado, 19 de fevereiro de 2011

A Street Called Emptiness (música)



Locked alone inside his room
The days would pass more fast
To proof that world outside
Was dying like a plastic tree
with no plastic roots.
The screaming voices come in waves
Painting dreams in paper planes
Playing with his own mind
A game which makes him blind

Through her window a silver moon
spread her whispers through the room
The walls became so tight
And soon the meds will take the light to roof.
Maybe the boy in the shining screen
Could be right about her fears
And both can find the door to a new way out
A world with no one god
Where they finally can be the stars

Por: Rimini Raskin

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Pessoal Jovem



Se eu te dissesse coisas que eu fiz antes
Te dissesse como eu costumava ser
Você iria junto com alguém como eu?
Se você conhecesse minha história palavra por palavra
Tivesse toda a minha história
Você iria junto com alguém como eu?

Eu fiz antes e tive minha parte
Que não me levou a lugar nenhum
Eu iria junto com alguém como você.
Não importa o que você tenha feito.
Com quem você estivesse amarrado
Nós poderíamos ficar por aí e ver esta noite inteira.

E nós não nos importamos com o pessoal jovem
Falando sobre o estilo jovem
E nós não nos importamos com o pessoal velho
Falando sobre o estilo velho também
E nós não nos importamos com nossos próprios erros
Falando sobre nosso próprio estilo
Tudo o que nos importa é conversar
Conversando somente eu e você.

Geralmente, quando coisas iam longe
As pessoas costumavam desaparecer
Ninguém irá me surpreender a menos que você o faça

Eu posso dizer que há algo acontecendo
Horas parecem desaparecer
Todos estão partindo, eu ainda estou com você

Não importa o que façamos
Onde nós iremos também
Nós poderíamos ficar por aí e ver esta noite inteira.

E nós não nos importamos com o pessoal jovem
Falando sobre o estilo jovem
E nós não nos importamos com o pessoal velho
Falando sobre o estilo velho também
E nós não nos importamos com nossos próprios erros
Falando sobre nosso próprio estilo
Tudo o que nos importa é conversar
Conversando somente eu e você.


Por: Peter Bjorn and John

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Of Babies, Names and the Other Games (música)


Of babies, names and the other games.
We sit in the dark with a little flame.
Spinning around, living with no blame.
The little king now is ready to came...

You will come to take away
All the pain and sadness.
You'll be a star

Of babies, names and the other games.
We sit in the ground with our heads in space,
Looking around, imagining your face.
The chosen one now is ready to came...

You will come to take away
All the rain and emptiness.
You'll be the light.


Por: Rimini Raskin

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Shining Ride (música)


Keep your words for a better place,
We'll be kings without crown or mace.
Don't face your sun for a long time, love.
Don't blind your chest before we go...

We wait a light in my yard,
For a shining ride to the soundless pains paradise
A place between our love and hate
And the sparkles hidden stars

Por: Rimini Raskin

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Chuva de Sorvete I, II


E todos queriam sair, pular,
correr, se libertar.
Estavam descansando em águas azuis.
Águas limpidas, águas frescas.
E isso era errado?
Ver as pessoas passarem,
sentadas nas paradas.

E chovia sorvete naquele dia.
O tempo indicava calor,
mas todos estavam gelados.
Como num circulo: ora quente, ora frio.

E a Terra girava.
E as pessoas lá dentro giravam por consequencia.
E assim como era normal para a Terra,
não era normal para eles.

Cada egoísta no seu caminho,
cada grupo acorrentado.
Cada passo dado fora da estrada indicava apocalipse.
Cada passo errado era um tempo sem tempo.

Cada giro era normal.
Cada passo anormal.
Cada inverno era um inferno.
E cada calor infernal era um paraíso tropical.

Não havia nada de fenomenal.
E a ignorância pura era normal.
Não havia capacidade de mudança.
Não havia inteligencia para se ter esperança.

Só havia nuvens.
Nuvens de sorvete.
_________________________________________


O correto seria dizer que chovia limão.
Tão ácido, tão gelado, tão refrescante, tão ardente.
Se chovesse morango estaria tudo no seu lugar novamente.
Se chovesse melancia, morreríamos.
Se fossem cocos, abririam.
Esperando uma chuva que não vem...
Que cai e molha
que evapora e vai embora.


Por:

domingo, 30 de janeiro de 2011

Sintaxelagnia


O desejo de sintetizar o mundo
Despeja saudades profundas no abismo.
Pondo em cada tecla de memória, uma história.
E em toda onda curta, uma nova onda curta.

Sintetizar o mundo com vocais profundos,
Como se a importância orgânica fosse nula
E cada introspectivo sentimento
apontasse para os meus sapatos.

Sintetizar o corpo para plastificar
de forma doce minhas paixões
E intensificar o pulso mecânico do coração.

Sintetizar as sombras alheias.
Programar o sol e o brilho dos dias.
Aspirar nuvens de sonhos dispersos.

Sintetizar a vida como a conhecemos.
Compor crianças de sorriso sincero.
Queimar dicionários em fogueiras eletrônicas
E proclamar o nascimento de uma nova língua.

Sintetizando as formas
Encontrei essências e libertei idéias.
Renovei a mente.
Libertei-me de demônios
que não me deixavam criar.

Por: Rimini Raskin

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Comentário


Não é estranho como nos "finais" sempre existe
mais conteúdo do que nos "começos"?
Talvez seja essa necessidade humana (muito pouco admitida)
de sofrimento e melancolia.
Linhas tristes são densas,
tocam fundo em um lugar comum à quase todos nós.
Porém funcionam como lindos pássaros de coloração neón
e asas cortadas.
Encantam nossa noite mais escura, mas nunca saírão dela.
Esse é um conselho que deram à mim
(e eu mesmo me dei algumas vezes) por anos,
mas que ironicamente nunca funcionou como deveria.
O passado serve de consulta da alma e o presente de deserto pueril
cheio de possibilidades de criação.
Mas só um coração capaz de imaginar o futuro ficará marcado na história
com a grandiosidade que todo artista almeja.
Desabafar é uma delícia,
mas ousar sonhar o que ainda não aconteceu...é bem mais revigorante!

Por: Yuri Pospichil


Extraído de um comentário feito
sobre um texto de Aninha

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Céu de Baunilha

A vontade que tenho é de amar-te ao contrário.
Beijar-te dos pés à cabeça,
Concentrar-me na boca e nos joelhos.
Olhando de costas para ensaiar
uma chegada em cada partida.

Convidar-te para um jantar onde a comida
foi substituída por carícias.
Um piquinique onde não há praça ou toalha xadrez,
Apenas olhos e luzes e silêncio.

Quero-te à minha frente, correndo.
E para não poder alcançá-la, ficarei imóvel.
Pois só um amor ao contrário é amor,
E só o contrário do amor é completo.

Na última cena nos vejo quietos,
Cansados de correr de costas um para o outro.
Deitados em um céu de baunilha,
Admirando lá em cima a verdura da grama!


domingo, 16 de janeiro de 2011

Preciso Tentar


Quando lembro de quem costumava ser,
escondo o rosto no espelho.
Envergonho-me do que à muito tempo ousei provar.
E pergunto à mim mesmo quem acredito enganar
com essas novas aspirações à bom menino.

No fundo da cela alguém rí do que se tornou.

Olha em volta e vê o mundo novo que criei!
A nova vida cheira à plástico quente
como brinquedos recém saídos da caixa.
Matei o lado escuro e afoguei o diferente
para entregar-me à força.

À minha própria força!

Confesso os antigos pecados
com um misto de receio e pudor.
Sensações que multilaram o orgulho sádico de outrora.
Uma máscara que cala a confissão tranquila
Ou pelo menos que me tira a liberdade
de duvidar das próprias incertezas.


Há um novo som ensaiando inundar o peito;
Espero que não seja uma canção de adeus.

Pois até os vizinhos antigos usam novos nomes
e gritam mandamentos de suas janelas.

"...Anestesia é o contrário da paixão!
Normalidade é o carrasco do lirísmo!
Esforço é o assassino do instinto!
Mas só o amor é inimigo do amor!..."

Boa hora para lembrar de esquecer!



Por: Rimini Raskin

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Lembre-se de um dia



Lembre-se de um dia anterior ao hoje.
Um dia quando você era jovem.
Livre para brincar sozinho com o tempo.

A noite nunca vinha!

Cante uma melodia
que não pode ser cantada sem beijos matutinos.
Rainha!
Você poderá ser o que desejar
Procure por seu rei

Por que não podemos brincar hoje?
Por que não podemos ficar daquele jeito?

Suba na sua macieira predileta,
Tente capturar o sol,
Esconda-se da arma do seu irmãozinho,
Sonhe contigo ausente!

Por que não podemos alcançar o sol?
Por que não podemos soprar os anos para longe?

Soprar para longe
Soprar para longe
Lembre-se
Lembre-se


Por: Richard Wright

sábado, 25 de dezembro de 2010

Uterino



Há, de fato, uma foto,
um furto e um feto.
Um O e um F.
Fosco, faminto.
Na janela de vida, no tubo de vidro;
A foto de um fato, furtivo,
Como o som e a magia de Fito.
O Um e o Infinito.


Por: Rimini Raskin

domingo, 19 de dezembro de 2010

As vezes cansa


Parece sempre que uma peça caíu atrás do armário pesado.
A última peça.
A que completa.

Me falta força.
Um par de braços extras talvez.
Me falta o básico.
Um par de olhos novos também.

Me falta tato.

Me falta gosto.

Falta eu me sentir único de novo!


Por: Rimini Raskin



quarta-feira, 8 de dezembro de 2010



Da tua pálida carícia envenenada
me sobrou a cicatriz.
E o perfume do azeite que usavas
dorme preso sobre mim.

Vou de noite, vai por ti a madrugada.
Por teu sol minha lua ardente
vai chorando lágrimas de água salgada
que não pode reprimir...

Flui em mim, flui em mim o desejo
de sentir-te a meu lado.
Flui em mim, flui em mim o desejo
de exigir-te amor.

De tua polida língua envenenada
Roubei a inspiração
para logo falar-le ao mar do teu olhar
e do fogo em meu interior.

Sou a água que na fúria se desgasta.
Em meu ser já não há mais força
Me vou lenta a morrer sobre a praia
e me afasto com amor.

Flui em mim, flui em mim o desejo
de sentir-te a meu lado.
Flui em mim, flui em mim o desejo
de exigir-te amor.


Por: Ely Guerra

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Por aí



Sabendo somente o que não quero,
procuro experiências de tempo limitado.

Cafés e bares e cigarros.

Atrás de sonhos de pessoas que suspirem arte,
De amores incompletos,

Sorrisos e lágrimas e loucuras sem espaço.

Por aí, eu!

Buscando criminosos do pensar
em gravuras sem traçado.


Por: Rimini Raskin

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Cantinho no mundo


Te busco em horas de tristeza.
Mas também em meus momentos de leveza
à teu encontro me lanço
com egoísmos líricos de fim de tarde.

Amo tuas sombras e tuas brisas confortantes.
Mas também tuas personagens ambulantes
de charmes eloquentes e estéticas retroativas.

És meu cantinho no mundo.
Um tesouro valioso que divido
apenas com almas sedentas,
que buscam em tua beleza
uma paz necessária!


Por: Rimini Raskin







terça-feira, 2 de novembro de 2010

Poema

Eu hoje tive um pesadelo
E levantei atento, a tempo
Eu acordei com medo
E procurei no escuro
Alguém com o seu carinho
E lembrei de um tempo

Porque o passado me traz uma lembrança
Do tempo que eu era ainda criança
E o medo era motivo de choro
Desculpa pra um abraço ou consolo

Hoje eu acordei com medo
Mas não chorei, nem reclamei abrigo
Do escuro, eu via o infinito
Sem presente, passado ou futuro
Senti um abraço forte, já não era medo
Era uma coisa sua que ficou em mim
E que não tem fim

De repente, a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio, mas também bonito porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu há minutos atrás

Por: Cazuza / Frejat

Ensaio Sobre a Tristeza


Desconfio de todo tipo de felicidade que pese menos de 1g, mas frequentemente às aceito.
Me traí ao tornar-me uma criatura desejável e ajustada de forma doente ao teatro de aparências.
Não estou feliz, minha piada é química, meu groove é sincero mas a risada é fraudada!
Vejo corações seguindo novos caminhos, abraços afrouxando e sorrisos cada vez mais irreconhecíveis ... mas me sinto feliz, os vejo felizes e é isso que importa!
Só queria fechar os olhos e acordar no meu cantinho predileto do mundo!
Escrevendo, bebendo ... observando as personagens que sem pressa completam a noite!
Vejo o Esqueleto se tornar um rascunho da insanidade feia daquela que me habita e me destruo por isso.
E é triste como o sono, o dia de sol e as ruas de algodão cabem em algo tão pequeno quanto um comprimido.
É triste e é sujo ver toda arte arrastar-se por dedos cobertos de lama.
Me deixem ficar triste, e peço que não façam piadas sobre a voz que me consola e muito menos sobre as imagens que transporto.
Não lhes devo nada, e se devo, as linhas devem servir de satisfação!
Dói mais à noite...mas há de passar...
Como a água com sono, a água com luz e a água com algodão sob meus pés!

Por: Yuri Pospichil (e aquela que o habita)

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Para Quando Caem as Cortinas


Sempre que mentires, rogo-te que vista o veneno
com seda nobre e ouro vivo,

Que me olhes com doçura
enquanto seguras o punhal em tuas costas

E que de mel embeba tuas palavras de despedida.

Faça-me morrer com arte e pela arte,
Por que já pouco importa se de luxo é teu teatro,
Ou que teu ouro e tua seda se revelem cópias ordinárias
da beleza de outrora.


Desejo apenas que me faças crer!

E por fim, em paz,
Entre aplausos inflamados
desvanecer.


Por: 
Rimini Raskin

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Acontece

Ohavam-se no espelho do teto, cansados e satisfeitos.
Mariane sorria para um Julian que sorria por retribuição enquanto trocava alguns beijos um tanto mornos e carinhos quase mecânicos.

- Dois anos hein, Julian?

Disse a garota com o sorriso ainda no rosto.

- É, dois anos.

Respondeu Julian em tom enigmático, carregado de significados ocultos.

- Sabe seu chato, as vezes tu me irrita muito, mas compensa na cama, não posso reclamar.

Continuou Mariane, rindo e tocando o namorado com malícia.

-Pelo menos isso né?

A menina estava tão satisfeita que não notaria o sarcasmo na voz de Julian que p
egava um cigarro e levava à boca.

- Odeio que tu fume, já te falei isso mil vezes, poxa.

Mariane completou a frase arrancando e jogando no chão o cigarro.

- Não estraga tudo, Julian. Não faz coisas pra me estressar.

Ele não respondeu nada, voltou a deitar a cabeça no travesseiro e fitar o espelho sobre os dois.
Mariane deitou a cabeça no peito do namorado e principiou algumas carícias.

- Julian...

- Quê?

- Do que tu tem mais raiva?

Por um instante Julian olhou sorrindo para Mariane, não entendia o por quê da pergunta, pelo menos não naquele instante.
Os dois nus, cobertos apenas por um lençol, e de repente aquela pergunta descabida de motivo aparente.

- Por que essa pergunta?

- É só uma pergunta. Pensei nisso agora.

- Tá! Mas como chegou a esse pensamento?

- Não interessa, Julian! Só responde, que saco.

Assustado com o tom da namorada, ele tenta se explicar, mas é surpreendido por uma gargalhada infantil que explode em Mariane.
Sorriu confuso para a garota e continuou sem entender nada.

- E ai? Vai me responder ou não?

- To tentando pensar em algo que me irrite...

- Ai, Julian! Tu parece um monge, leva duas horas para pensar nisso. Todo mundo sente raiva
de um monte de coisas, escolhe uma e fala.

- Tá, espera, enquanto eu penso me diz tu o que te deixa com raiva.

- Essa é fácil, gente que questiona ou leva duas horas pra responder minhas perguntas.

E novamente Mariane cai na gargalhada, só que dessa vez seguida de mordidas e cócegas no namorado bravo pela brincadeira.

- Deixa de ser velho, Julian...

- Não sou velho, to pensando. Todo mundo parece mais velho quando pensa, olha aquelas estátuas gregas, já viu alguma escultura de pensador jovem?

- Ok, Julian. Mas não queira comparar os pensamentos né?

- Claro que não, até porque nenhum deles deveria ter uma namorada fazendo perguntas bestas depois do sexo...

Antes de terminar a frase o garotão já sabia que havia pego pesado com Mariane.
E o soco que levou no peito só confirmou o que já era uma certeza.

- E quando nosso filho te perguntar alguma coisa? Vai ficar igual um mongolão pra responder?

- Agente não tem filho, Mariane.

- Ainda não, Julian..."ainda"!

- Tu acha que ser mãe é fácil...

- E o que tu entende de mãe?

- Eu tenho uma.

- Há, baita exemplo!

Completou Mariane com deboche.
Mas Julian novamente não retrucou, pegou o controle e ligou a TV do quarto.

- Ah não, Julian! Tv não, por favor! Poxa, custa curtir esse momento comigo? É nosso aniversário se é que tu não se lembra!

Pegou o controle da mão do rapaz e desligou o aparelho.
Julian não se mostrou nem um pouco abalado, olhou pela janela e se manteve calado.
Mas Mariane retomou a conversa:

- Já pensou?

- No quê?

- Como no quê, Julian? Na minha pergunta sobre a raiva.

- Nem lembrava.

A namorada possuída dispara palavras furiosas com o olhar fixo em Julian que não perde o ar sereno:

- Olha aqui, guri! Eu só te perguntei uma coisa, quando eu faço isso, a única coisa que eu espero é uma resposta. Não quero um tratado filosófico, só a merda de uma resposta, e nem isso tu consegue me dar, seu inútil.

Silêncio, o namorado sequer a olha.

- Que droga, Julian. Tu consegue sempre ferrar com tudo. Pelos menos olha pra mim quando eu falo, fica aí com essa cara de idiota ouvindo tudo calado.

Novamente o silêncio, Mariane parece não acreditar, torna a deitar, morrendo de raiva.
Coloca o travesseiro sobre o rosto e sente ganas de gritar, só não faz porque é interrompida pela voz calma de Julian :

- Já caminhou na Praça XV em dia de chuva?

- Já. E o que isso tem a ver?

Respondeu a namorada quase sem ânimo.

- Então sabe que tem umas lajotas soltas no chão, não sabe?

Pausou a frase e olhou para o rosto confuso de Mariane que esperava sem entender onde aquela história iria chegar.

- E aí? Sabe ou não sabe que tem as lajotas soltas?

- É claro que eu sei, Julian!

- Pois é, aquelas lajotas juntam água e terra embaixo delas.

Terminou a frase e voltou a ficar calado diante da cara de incrédula da moça que sem entender mais nada, implorava por uma explicação:

- Julian, pelo amor de deus, o que isso tem a ver com a nossa briga?

- Com a briga, nada.

...


- Então por quê tu ta falando dessas malditas lajotas com água embaixo, criatura?

- Porque quando tu pisa nelas, respinga barro nas calças ... e isso me dá raiva!


Julian levantou-se e juntou o cigarro que estava no chão, acendeu-o enquanto vestia-se diante dos olhos atônitos de Mariane que ainda o acompanharam ligar a TV e colocar uma nota
de R$ 50,00 sobre a mesinha ao lado da cama.

- Pra quê esse dinheiro?

- Pro teu taxi...to apaixonado por outra!


Por: Yuri Pospichil


domingo, 3 de outubro de 2010

Azul

Tenho medo que o tempo venha e me coma.
Tenho medo que o vento roube minha voz.
Tenho medo que eles me vejam triste.

É por isso que eu não quero sair.

Tenho medo que abram a porta do banheiro.
Que me vejam nú e dêem a volta.
E se fico comendo, aumenta meu peso

É por isso que eu não quero sair;
É por isso que eu...

Mamãe me espere,afaste-se de mim,
Deixe-me cair,deixa-me sair.
Mamãe espere-me,afaste-se de mim,
Deixe-me cair, deixe-me sair.

Aaaa...

Tenho medo que alguém me roube à noite,
Que a casa queime ou que haja fantasmas.
Escrever mais cartas, perder palavras.

É por isso que eu não quero sair.

Tenho medo de um dia perder meus dedos,
Não ter mais amigos que riam comigo,
Escorregar no gelo e cair no rio.

E é por isso que eu não quero sair;
É por isso que eu não quero sair.

Mamãe espere-me,afaste-se de mim,
Deixe-me cair, deixe-me sair.
Mamãe espere-me,afaste-se de mim,
Deixe-me cair, deixe-me sair.

Tenho medo de ti e da tua voz.
Tenho medo de ti e do teu amor.
Medo que no meu campo deixem de crescer
Flores de cor azul, azul, azul, azul.


Por: Natalia Lafourcade

sábado, 2 de outubro de 2010

A Maçã

Amaldiçoado sou ao sonhar com o cheiro da carne.

O desejo que me fascina e mata,

Fazendo reviver a lembrança



Pois é certo,



Haverá em cada hora vivida uma saudade

E em cada minuto esquecido, um vazio...



Amaldiçoado sou por ser 'vivo'

E abençoado por viver.



Que o cheiro suave persista

Até quando eu não possa mais saber



Para que assim, na luz de um tempo imprevisto,

Possamos gozar de tal fruto

E de sua fonte eterna beber.