quinta-feira, 28 de março de 2013

Porque o mar é longe e a lama é doce



Não consegui chorar por carcaças de automóveis empilhadas
Não consegui chorar por dúzias de garrafas vazias
Não consegui chorar por mães com filhos mortos na barriga de nove meses
Não consegui chorar por incompetentes tias suicidas
Não consegui chorar por policiais facistas de escudo e jovens desmaiados
Não consegui chorar por cristãos perseguidores e anjos apocalípticos
Não consegui chorar por girassóis arrancados pelo talo
Não consegui chorar por não ter tanta certeza
Não consegui chorar por velhos amigos apodrecidos
Não consegui chorar por antigos versos incapazes
Não consegui chorar por olhos cegos de tesão
Não consegui chorar por renagados irmãos nutrindo raiva no presídio
Não consegui chorar por linhas tortas de cuzão-zen-punheteiro
Não consegui chorar por todo maquinário bélico nuclear
Não consegui chorar por índios indesejados despejados pelo locador
Não consegui chorar por loucos profetas internados
Não consegui chorar por tantos pratos e nenhum pão
Não consegui chorar por ter pecado contra o amor
Não consegui chorar por malabaristas sujos de sinaleira
Não consegui chorar por jornais mentirosos e manipuladores
Não consegui chorar por televisores tagarelas de medo e silêncio e danação
Não consegui chorar por toda tragédia política do terceiro mundo
Não consegui chorar por todos vocês
Não consegui chorar por mim como um todo
Não consegui chorar por ninguém
Não consegui chorar por não ter visto mais cedo a face do deus sem face de deus
Sem face apenas não consegui

E se o sol ou a lua ou a morte não precisarem de mim
poderei deitar gelado e desperto
até a tristeza passar
até!


Y. Por: Rinkas

quarta-feira, 27 de março de 2013

As Coisas



Não está nas coisas
Elas não existem, as coisas
É entre elas, que não existem,
que está o Paraíso
Nesse estado de não vir a ser
de não estar
de existir na mente que não existe
e não nas coisas que existem na mente que não está

Abra os olhos
Respire pelo nariz
É tudo um sonho



Por: Raskin

sexta-feira, 8 de março de 2013

Supernova



Escorre entre as pedras
               a duras penas
                rente à grade
                           pupilodilatadas
Esvai-se em sopro
               em soco
               experimentais
                            cosmoexéquias

Brilha forte
       
          transparece ao longe
            aproxima o verso
              do meu ouvido
                 do meu ou
                    vido do
                      meu
                       ou

do nosso coração doído
tua visão cansada
não tem mais por que chorar



Por: Raskin
                     
                     
                     
              

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Chove!



Chove...

Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove...

Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.



Porque é que este sonho absurdo
a que chamam realidade
não me obedece como os outros
que trago na cabeça?

Eis a grande raiva!
Misturem-na com rosas
e chamem-lhe vida.



Vai-te, Poesia!

Deixa-me ver a vida
exacta e intolerável
neste planeta feito de carne humana a chorar
onde um anjo me arrasta todas as noites para casa pelos cabelos
com bandeiras de lume nos olhos,
para fabricar sonhos
carregados de dinamite de lágrimas.

Vai-te, Poesia!

Não quero cantar.
Quero gritar!



Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pòlen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono 
ainda tocada por um vento de lábios azuis...







Por: José Gomes Ferreira

Solidão Saturada



  • "Então me diga algo que faça sentido, tipo: em lugares públicos use fone de ouvido, ou ao conversar comigo finja ser meu amigo, também não tema o perigo! Se não for capaz de fazer isso, não dirija a palavra ou nem ouse pensar na minha pessoa! Desperdicei meu tempo ao seu lado só potencializando todo esse processo de mediocridade que me encontro! Então, solidão vá embora por favor e me deixe descansar em paz!"


    Por: Zé Luis Reinheimer Mazepa

    quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

    Dualidade



    No atormentado coração adolescente do protótipo de poeta libertino
    nas esquinas mornas de pequeninas cidades subtropicais
    na rebeldia nórdica de alvura desafiadora
    na pureza africana cuspindo-nos na cara milênios mágicos
    nas mentes greco-romanas maquinadoras de séculos
    nos impérios tribais pré-colombianos erguendo sangue virgem aos céus
    nas mãos fortes e seminais dos primeiros homens das cavernas
    na bactéria aquática quântica peixe réptil mamífero alado
    nas estéreis histéricas bombas nucleares
    nas circundantes metálicas sondas espaciais
    na paixão assassina de psicopatas gélidos
    nos noturnos vícios desregrados e imorais do pensamento livre
    nas tentações demoníacas à minar os alicerces dos bons costumes
    no vaso verde de vermelhas flores sobre a mesa
    no bondoso olhar cansado dos mais velhos que já viram muito só não viram tudo
    no aperto de mãos que sela um compromisso de cavalheiros
    na face angelical de bebês recém saídos do útero
    na compaixão
    no amor fraterno
    no limpo e iluminado abraço materno
    nos bons hábitos de higiene
    nas palavras doces do pastor
    no sermão dominical do bom padre
    na outra face oferecida ao tapa
    na cordialidade esfuziante do pretenso homem de bom coração
    na retidão luminosa dos que caminham durante o dia
    na languidez beatificada dos filhos de Abel

    No abraço criador de Abraxas


    Por: Raskin

    terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

    Desapego



    Meu poema é uma prece angustiada
    ditada na clareza do quarto conjugal
    diante da jovem esposa solar

    Um mantra inconsciente sussurrado em pensamento
    preenchendo o vazio intermitente de um coração neandertal

    Lembranças apagadas do mobiliário colorido da casa dos avós
    gosto louco do teso desejo virginal guardado nas calças

    Meu poema é um lamento divino
    um brilho vespertino da ideia esparsa
    Um monstro preguiçoso e carnicento
    ao apagar das luzes depois da última valsa

    No terreiro de umbanda um cachorro de três patas
    Cristo fitando nos olhos o demônio desértico do deslumbre
    ardência demente de liberdade difusa
    poema de vida sentida que diante da morte se insurge

    Verso de ouvidos grudados à terra molhada
    rios que gritam um sexo límpido de ardor ancestral
    meus jeans entre o limo e a lama da roça lavrada
    com alma exposta dentes tortos e a testa alta de hereditariedade cansada

    Oh criaturas que me sopram os louvores do necessário sofrimento
    carreguem meu poema em suas loucas asas de mariposa ordinária
    até o infinito relampeio do pensar
    onde todas as coisas se fazem eternas

    e desnecessárias


    Por: Raskin 










    domingo, 17 de fevereiro de 2013

    POÉTICA




    1
    então é isso
    quando achamos que vivemos estranhas experiências
    a vida como um filme passando
    ou faíscas saltando de um núcleo
    não propriamente a experiência amorosa
    porém aquilo que a precede
    e que é ar
    concretude carregada de tudo:
    a cidade refluindo para sua hora noturna e todos indo para casa ou então marcando
    encontros improváveis e absurdos, burburinho da multidão circulando pelo centro e
    pelos bairros enquanto as lojas fechadas ainda estão iluminadas, os loucos discursando
    pelas esquinas, a umidade da chuva que ainda não passou, até mesmo a lembrança da
    noite anterior no quarto revolvendo-nos em carícias e mais nosso encontro na morna
    escuridão de um bar - hora confessional, expondo as sucessivas camadas do que tem a
    ver - onde a proximidade dos corpos confunde tudo, palavra e beijo, gesto e carícia
    TUDO GRAVADO NO AR
    e não o fazemos por vontade própria
    porém por atavismo
    2
    a sensação de estar aí mesmo
    harmonia não necessariamente cósmica
    plenitude muito pouco mística
    porém simples proximidade
    da aberrante experiência de viver
    algo como o calor
    sentido ao estar junto de uma forja
    (talvez eu devesse viajar, ou melhor, ser levado pela viagem, carregar tudo junto,
    deixar-se conduzir consigo mesmo)
    ao penetrar no opalino aquário
    (isso tem a ver com estarmos juntos)
    e sentir o mundo na temperatura do corpo
    enquanto lá fora (longe, muito longe) tudo é outra coisa
    então
    o poema é despreocupação


    -  Cláudio Willer



    sábado, 9 de fevereiro de 2013

    Asleep



    Sempre achei que fosse sobre estar sozinho - ou pensar estar - procurar algo nas multidões do meu vazio sentimental, algo além do desejo de cura espiritual e um propósito maior que a dor. Achei que a luz azulada banhando o asfalto novo devorado pelas rodas desse ônibus pudesse me fazer dormir sobre as páginas subterrâneas do escritor sem vírgulas enquanto pequenos anjos adolescentes seguramente voam ao lado da minha janela para sussurrar segredos e mistérios que meu coração não consegue mais abrigar.
    Deformado, intragável e ao mesmo tempo pouco me fudendo para o espelho, minha alma anseia por uma santidade barbuda de roupas simples e olhar profundo, mas ninguém canta para embalar meu sonho, ninguém nunca me segura nos braços e eu, tolo, sigo em frente achando tudo tão normal, durão fingido com o peito peludo encarando quem passa como aquele que poderia salvá-lo mas está muito ocupado no momento. Quantas vezes assisti o espetáculo calado? Quantas vezes levantei sem denunciar o tombo? "Ok, não foi nada" era sempre o que repetia até me convencer da nova mentira contada. Todas aquelas noites de porre me sentindo um merda na volta pra casa, porque é isso que o álcool faz, e quem não perceber é porque é um merda ainda maior.
    Dominar o vazio exige esse desapego sacro de poeta russo que me é tão doloroso atingir, talvez o tenha sentido algumas vezes, nos olhos de um bebê que de tão puro me fez chorar 15 minutos ininterruptos  e quase choro agora outra vez por lembrar daquele brilho divino capaz de cegar minha visão de mundo material e me colocar em contato pela primeira vez com o nirvana; Mas depois disso parece tudo ainda mais confuso por reconhecer que a perfeição é confusa e aceitar a confusão é perfeito e confortante, mas aceitar o vazio é complicado, lutar por aceitá-lo como uma ideia, como todas as outras, abstrata, exige de mim muito mais do que só uma boa capacidade de interpretação.
    Então como proceder? Seguir adiante nesse mundo desolado que eu acredito ficar melhor à cada manhã - e realmente acredito nisso - me adaptando e me enquadrando e me escondendo sobre a túnica pesada da conformidade ou abrir mão de toda uma mentalidade ocidental criada em prol da recompensa material e afirmação social por base de acúmulos e desperdícios?
    Nenhuma maldita montanha para escalar, apenas tempestades do lado de fora e um desejo incontrolável de voar...sempre...mais...alto


    Por: Raskin




    quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

    Sacolas ao vento e a coisa toda



    - Tum...Tum...Toc...Psss...Tum...Toc...TumTum -

    É, meu amigo - o universo treme como uma taquara.
    Na cabeça das senhoras, nas mãos dos empresários fonográficos.
    As baleias, as anêmonas do mar, nossas mães.
    Pescadores em algum lugar do Atlântico sonhando com as namoradas

    - Tum...Toc...Brrrr...Tis -

    É inútil querer saber.
    E quem mentiu para o primeiro homem?
    E antes dele? Quem mentiu para Deus?

    - Rá...Rá...Rá -

    Quem mentiu? Deus?
    O grande vazio, a vacuidade libertadora.
    Gurias de 17 anos com seus vestidos-milk shakes-lábios frios de fantasia.
    Um calor infernal, esquife de fogo na realidade modorrenta da cidade pequena.
    Um paredão de nuvens alvoescurecidas, montanhas macilentas erguendo-se imponentes no céu azul celeste para anunciar o apocalipse necessário de vento e dilúvio onde anjos liquefeitos escorrerão lânguidos sobre telhados e cabeças de cachorro sem que ninguém lembre de agradecer a destruição que alivia o sono de alguns em troca da insônia de outros. Afinal, mais uma vez a Natureza podará seus galhos enquanto envia a conta sobre os reinos imaginários da humanidade.

    - E será sempre difícil para os homens agradecerem o que lhes escapa à compreensão -

    Por isso já peço agora em minhas preces para quando eu me for que um desejo me seja concedido e que eu possa voltar peixe, de mar ou de rio - isso para mim tanto faz - Só quero é nadar nadar NADA MAIS


    Por: Raskin









    quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

    Uma máquina de produzir Budas



    Se eu tivesse uma Kombi branca
    dirigiria até à montanha
    e construiria uma casa
    com minhas próprias mãos
    Se eu tivesse uma Kombi branca
    levaria minha filha até lá
    e passaríamos a tarde comendo pão
    e mel tirado das colmeias
    Se eu tivesse essa bendita Kombi branca
    talvez voltasse a sorrir mais
    e dormir melhor
    e me sentir menos inútil no mundo
    Se eu tivesse apenas uma linda Kombi branca
    deixaria minha barba crescer
    e rasparia a cabeça
    e passaria os dias cortando lenha e cuidando dos animais
    para que quando a noite chegasse
    pudesse estender minha rede entre as árvores
    e admirar as estrelas bebendo vinho artesanal

    "Se ao menos eu tivesse essa Kombi..." - me pego pensando -
    meu coração não seria tão apertado
    e teria, durante muito tempo, sobre o que escrever


    Por: Raskin



    sábado, 29 de dezembro de 2012

    Chuva


    Chove no pequeno purgatório natal
    e as borboletas não aparecem por aqui há dias
    as crianças não mais correm descalças no asfalto quente
    ou lutam nos gramados para provar quem é mais macho
    Chove no pequeno purgatório vital
    e eu só posso contar à ela um punhado de aventuras inúteis
    das tardes nos fliperamas e sinucas que vendiam cerveja choca para os guris da redenção
    É tanta água na ilha dos sonhos esquecidos
    que o relento é o melhor abrigo para quem assistiu os puteiros transformarem-se em igrejas
    e os velhos morrerem ou morrendo ou arrastando-se rua abaixo
    Não é raro encontrar nos ônibus um camisa preta dos meus tempos
    bêbado e gritando que só sai daqui em um caixão
    Imbecil, já está morto e não sabe, sempre esteve
    Agora também eu estou de volta à esse Hades suburbano
    E se as ruazinhas de pedra não carregassem tanto charme
    talvez já tivesse me deixado escorrer suave até o Gravataí

    Por: Raskin


    sábado, 22 de dezembro de 2012

    Giramundo



    Beleza, eu pago a próxima
    mas me acompanhe até a praça
    de dia dá para atirar migalhas aos garotinhos
    e ver como os pombos brincam no parquinho
    Beleza, pode trepar nas raízes,
    mas cuidado para não tropeçar nos galhos
    soube que os padres gostam de vir aqui fumar unzinho
    e que alguns viciados rezam nestes bancos nas manhãs de domingo
    Beleza, pode ser que eu esteja realmente fodido
    se me balançar de cabeça para baixo talvez minhas moedas voltem aos bolsos
    tu diz que não tem nada à ver
    mas eu sei que os que governam o país é que são loucos
    Beleza, talvez tu esteja certo nessa
    esse carocinho na minha nuca não é um chip
    os velhinhos não cochicham segredos de guerra
    mas não pode negar que as meninas da festa riram quando eu cantei em inglês
    Beleza, podem ter sido os comprimidos
    o absinto realmente não bateu legal
    aquele telefone tocando perto do palco foi um presságio
    talvez eu deva profetizar, só que ainda não sei o quê
    Beleza, eu sei que tu não existe
    mas fica mais um pouquinho aqui comigo
    aprecio tanto a tua companhia
    te trouxe até um cobertor
    Por favor, cara
    agora só tem ônibus às seis e meia


    Por: Raskin




    A (NÃO) POESIA



    A poesia é uma menina chorosa
    que manda cedo demais a gaita para o conserto
    Uma flor roxa de ipê
    que a chuva carrega pelo canto da rua até a próxima boca de lobo
    Uma lembrança desbotada que talvez nunca se apague
    diante das velas crepitantes da desesperança humana
    A poesia é uma palavra que dança na mão que alcança
    o verso contido nas pequenas coisas
    É a naturalidade da rima rota e disforme
    da vida louca de criança
    Acordar é poesia, amar é poesia, discordar, minha querida,
    também é poesia!

    O sexo, a noite, o dia, o banho de rio, apartamentos de fundos,
    despertadores quebrados, o beijo, os livros sagrados,
    travesseiros, a fome, o frio, o gozo, as ruas, pontes, viadutos,
    árvores de maçã, vermes de goiaba, velhinhos asmáticos,
    os estudantes ofegantes em uma aula de educação física,
    o (TUDO) e o (NADA), (não) (é) POESIA

    Até o ar que não se enxerga, mas que se sente na pele,
    que se escuta assustado no quarto da infância enquanto uiva lá fora
    nas tardes frias do minuano invernal,
    (Não) É POESIA!

    Por isso acreditei em Leminski, lá atrás, quando me convenceu da nossa inutilidade,
    nessa nossa incapacidade de desistir dos devaneios da ilusão.
    Pois poesia, em suma, minha pequena, é tudo aquilo que não carece explicação.


    Por: Raskin


    quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

    Passeios de silêncio e fogo



    Minha rotina consiste em correr
    fugindo a quarenta dias por hora
    em um disparo de vida
    vinte mil anos trinta centavos e onze montanhas
    um milhão de poemas quebrados cem mil corações partidos
    e uma estante de livros
    em branco em chamas em luto
    empoeiradas damas de salão esquecidas pelos pares
    cadelas estéreis vagando em busca do filhote que nunca existiu

    Depois a rua e só ela
    a lua sobre nossas cabeças
    o calor das garrafas de vinho
    meus amigos tombados
    e com eles toda a rebeldia barata
    sozinhos
    abandonados pelos sonhos nus da adolescência
    com suas cabeças de xoxota e bebedeiras tão grandes
    que seria preciso um guindaste para cada olho

    Monges polígonos em cantos de
    Hare Piva Hare Piva Krishna Krishna Allen Allen
    Cristos surrealistas chorando ao pé da cruz
    Uma cerveja gelada para matar a sede
    e outra ainda mais fria
    para curar a ressaca moral
    de não ser um bom escritor




    Por: Raskin

    Porto Alegre é uma puta que chora



    Corre sangue impuro sob o viaduto da conceição
    colchões pedras brasas mijo corrosivo vigas destruídas
    Frio fome sujo surgem os demônios que a noite carrega
    cães coisas e pessoas lâmpadas e poltronas anos noventa
    Sirenes raquíticas negras-sereias olhos vazios de rodoviária
    Cantos ruas desertas esquinas vielas bequinhos aço frio de facadas
    Polícia ronda porrada oferta e procura de cus e bucetas e caralhos
    Voluntários da Pátria em Farrapos rottweilers cafetões traficantes
    Estudantes bêbados estudantes fervilhantes postos de gasolina e correria
    Trans plásticas enfeites de calçada anjos não operados
    Mães solteiras bastardas de camisa aberta e cicatriz enorme na barriga
    Suor maconha máquinas de café farmácias de benflogin
    Chá de cogumelo para curar o marasmo de andar por aí sabendo que anda sem notar que morreu há anos entre a arquitetura fodida mil novecentos e doze que engole tinta e vomita cartazes
    Ah, Porto Alegre, tua música me faz chorar no inverno
    E nos ônibus parques e carecas dos motoristas de táxi
    teu nome me seguirá nos muros


    Por: Raskin





    quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

    É quase sempre sobre amor



    Abençoada seja a mijada bêbada no fim da madrugada
    Olhos grudados no piso-parede janela de madeira
    Cigarros no chão no vaso descarga quebrada
    Olhos vermelhos no espelho com sorriso comedor debochado
    Irmãozinhos empilhados ao redor da mesa de sexta-feira santa
    Cacos de vidro de vida de lentes de aumento embaçadas
    Absurdos ruídos de ratos nas paredes vermelhas da casa paterna
    E quase esqueço como isso explode cabeças em brilhos frenéticos
    Sem sentido outras vezes não sentindo outras vezes não mentindo
    Tantas vezes, tantas vezes meus camaradas, minhas calçadas
    Minhas calças sujas de vômito de vinho e de vinda matinal
    Chapados outras vezes chupados quase sempre mal amados
    Cambaleantes, acordando longe de casa no ônibus errado
    Depois de quartos, estranhos e cachimbos de haxixe
    Quartos estranhos e cachimbos de haxixe
    Quantos estranhos e promessas de amor esquecidas
    Quantas trepadas às claras em apartamentos sofridos
    Paixões sem tino rumo ou direção
    Puro tesão e braços ao redor do pescoço baseados na boca
    Pensando - cara, a vida deveria ser sempre assim
    Um domingo de ressaca chutando garrafas deitados em uma mesa de sinuca
    Rindo à valer das coisas que o álcool apaga
    Filhos de uma puta
    Sagrados filhos de uma puta
    Esse canto é para vocês
    Os que sabem do que se trata
    Os que ainda lembram de quem são



    Por: Raskin






    domingo, 25 de novembro de 2012

    Zodíaco



    Me vejo às voltas  com Urano sob os olhos
    e Netuno na quinta casa com Marte e uma garrafa de cachaça.
    Todos sorriem maliciosamente para Virgem  na esquina de Leão,
    perto das lojas de Aquário com crianças galopando Sagitário.

    Ainda observo os jovens deixarem farmácias com suas camisas de Vênus,
    prontos para noitadas que os velhos com Câncer sonham reviver
    presos em seus leitos de hospital com termômetros de Mercúrio
    e doses químicas capazes de derrubar um Touro.

    Depois disso dou de ombros e sigo em frente com meu jornal do dia
    comprado no cruzamento entre a rua Áries e a avenida Plutão.
    - Que dia é hoje? Pergunto ao vendedor entre o vai e vêm de carros
    - E isso importa? Me responde um mendigo sentado na calçada

    Afinal a bolsa de valores, o guia da TV e os conflitos no Oriente Médio
    terminarão enrolando Peixes na banca de Capricórnio
    ou rolando pelas ruas de Saturno com seus vendedores de anéis importados pagos em Libra.
    Pode ser até que terminem forrando a gaiola de algum passarinho azul
    que canta triste para uma parede de concreto, mas quem pode saber?
    Pobres anjos aprisionados, cantando e cantando sem poder voar.
    Gêmeos do homem na impotência em relação à morte.


    - Mas de que diabos esse cara está falando? Podem se perguntar alguns de vocês.
    E realmente essa é uma boa pergunta,
    porém quem sou eu para responder?


    Por: Raskin


    terça-feira, 13 de novembro de 2012

    Perfume


    Deleitoso delírio de rosto no rosto e cama improvisada
    Espaço louco entre teu ventre e tuas coxas
    Que cheiro é esse que possuem as adolescentes?

    Tesa pele acariciada na rigidez dos seios
    Lábio escarlate mordido no impulso
    Florzinha selvagem na imensidão do deserto

    Menina, teu corpo é primavera no inferno do meu toque
    Roubei teu momento, saqueei teu templo, corrompi teu leito de amor
    E agora canto teu sexo porque é lindo e louro

    Me diga quem desejaria rimar quando se pode beijar-te os joelhos?
    Esse mundo é a mente e amante é a mente do mundo
    Não temos tempo a perder pois o tempo perdeu os ponteiros no caminho

    Por isso te quero agora - tuas unhas, tua saliva -
    Teu gemido baixinho na altura do ouvido
    Te quero indefesa, cheia de vergonha
    Suada, incontrolavelmente apaixonada
    Ardendo tal qual fogueira na noite de São João Batista

    Na casinha depois do matagal
    No útero do céu de Tathagata


    Por: R. Raskin