quinta-feira, 19 de julho de 2012

Batidas ou Poema para Bessie Smith



Me inundaram os ouvidos

E transbordaram 
pela boca
& pelos olhos
da direita para a esquerda
até as pontas de uns dedos 
trêmulos de mistério

Um blues vivo por toda parte
do meu corpo
feito um louco
chacoalhando ansioso
as batidas suadas 
da tua chegada

Teu rostinho tão pequeno
Teu choro tão fraquinho
Tudo bem menor que imaginei

- Ela é muito linda! [sussurrou Bessie Smith na minha cabeça]

- É perfeita! ... respondi


Por: Y.P.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Para Maria Luisa



Meu melhor poema
é um par de olhos brilhantes
e uma boca pequena

- Esse é meu melhor poema -
Em primavera,
perfume de açucena
exalado de incenso fino.

É Maria,
mãe de tudo que é mais belo e dourado.
Rima simples que o vento sussurra nos ouvidos 
quando a luz do sol, preguiçosa,
avança sobre o mundo.


- Esse é meu melhor poema -
Não o que escrevi, 
mas o que repousa agora no meu colo
nesse corpo de menina.




Por: R. Raskin





segunda-feira, 9 de julho de 2012

Sobre uma realidade não ordinária



Feito patas,
Minhas mãos cavaram este buraco
Onde inato e sem palavras;
Feliz por não ser homem,
Deitei minhas costas nuas
No úmido da terra

Contente por não ser leão,
Cão ou minhoca.
Satisfeito por ser parte
E não ser nada
Além de adubo fresco
Em noite profunda

Adormeci e
Mais do que isso,
Sonhei que nascia planta-homem-fera
Com raízes e ramos de folhinhas verde-escuro
Me saindo das pernas, cauda e costelas
Feliz por não ser mais homem, planta e nem fera
Porque era todos e fui todos em um só

Assumindo essa forma
Soprei um pouco de vida dos pulmões
E ela dançou para mim.
Mais feliz ainda por não precisar provar quem era

Simplesmente contente

Somente por saber dançar.


Por: Raskin



sexta-feira, 6 de julho de 2012

Mente Solta II



"Me recuso a confiar na experiência de quem nunca provou os antônimos."

- R. Raskin

Trechos



"Fuja das frases prontas e das fórmulas batidas, elas até podem te garantir algum prestígio, mas nunca a imortalidade. No fim das contas, quem importa é quem fica mesmo depois de não mais estar. O mundo é bem maior fora daqui, Raul. Bem maior."

(Conselho de Bacana para Raul em Noturnos - O Final em Dez Capítulos)

- R. Raskin

Mente Solta



"Me convenci que nascer todos os dias é a melhor maneira de escapar da morte;
Ao menos até o dia em que a vida decida me abortar."


- R. Raskin

quarta-feira, 4 de julho de 2012

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Passagens 2



Cinco e vinte da manhã, restavam apenas ele e eu na mesa, mal suportando o peso das cartas com a cara cheia de cerveja e remédio. Os outros dormiam exaustos do calor do fogão à lenha e das risadas iniciadas ainda pela tarde.
- Te ligou na última festa? - me perguntou com um sorriso safado no rosto. O cara era um desses tipos admiráveis, capaz de aproveitar o máximo das situações, vivia suas loucuras com muito mais responsabilidade do que qualquer outro que eu já havia conhecido, era realmente um dos bons.
- Depende. Ta falando do que? respondi.
Ele chegou mais perto e começou a falar baixinho enquanto se certificava que os outros continuavam dormindo.
- Quase comi ela ali no canto mesmo, ficou se fazendo mas acabou tocando uma pra mim.
- Que filho da puta, ela também agarrou meu pau quando eu passei no corredor.
- Eu sei, ela me falou. Disse que quer dar pra nós dois, vamos?
- Por mim ta beleza.
- Caralho, só de falar já fico de pau duro. Que puta, cara. Que puta.
- Segura a onda aí, comedor. Não querendo me comer também eu to dentro.

E rimos pra valer vendo aqueles raiozinhos azuis por toda parte e as quinas derretendo.
Mas era claro que não iríamos trepar com ela, no fundo existia uma certa decência de nossa parte em relação à mulheres comprometidas, mesmo com as mais safadas.


Por: Rimini Raskin

Respeito



Sou muito jovem para o respeito
Estudei muito pouco para o respeito
Respeitei quase nada para o respeito
Não estou pronto para a dignidade dos homens

Por: Rimini Raskin

Onde vive o poema



Existe um poema no fundo de toda garrafa
Em cada quilômetro de estrada
E em todo par de pernas
Sejam elas belas ou não

-Existe um poema-

Basta agarrá-lo


Por: Rimini Raskin

quarta-feira, 27 de junho de 2012

10 centavos



Meus pais devem ter trepado em casa porque faltou 10 centavos para pagar o motel no dia em que eu fui gerado e isso me afetou geneticamente. Papo sério. Não importa o que eu faça sempre me falta 10 centavos para o café. E não fica só no café, se um sanduíche custar, sei lá, 2 reais, eu vou ter somente a merda de 1,90 no bolso. É frustrante, cara. Se eu não tivesse dinheiro nenhum, vá lá, seria uma bosta, mas eu entenderia.
E quando eu ando pela rua e encontro 10 centavos? Cara, eu sou tão fodido que quando encontro, a maldita moeda está cravada no asfalto.
Conspiração, e das grandes!
Até os vendedores, mesmo aqueles de parada de ônibus que vendem balinhas ficam se encolhendo para me vender alguma coisa.

- Quanto custa a bolacha, amigo?
E o cara faz o número 1 com o dedo, o miserável nem se digna a me responder em palavras.
- Me faz por 90? Só tenho 90.
Digo com cara de parceirão.
- Não, é 1 e não 90.
Filho da puta, que grande filho da puta.

E o pior é que nem tenho argumento para convencer o cara.
Em casa eu assalto o Buda, minha mulher fica louca com isso, mas eu já vi ela pegando moedas do gordinho para comprar pão. Em suma, na minha casa o Buda tem tanta grana quanto eu, por isso eu compenso em incenso, sem brincadeira, ele deve ser o barrigudo mais perfumado do mundo.
É foda não ter 10 centavos, quando eu era criança sempre me enrolavam no troco e eu voltava pra casa com umas balinhas na mão, hoje nem isso, 10 centavos sequer compram balas, mas aparentemente terão sempre o poder de empatar o meu café.


Por: Yuri Pospichil

terça-feira, 26 de junho de 2012

Faça!





Abra uma 
         
Luz 
                                 
No seu

Tórax


Por: R. Raskin

domingo, 24 de junho de 2012

A Máquina



Tenho essa velha Lettera 82 verde me olhando, sussurrando nos meus ouvidos que se trata da herança de um homem ainda vivo. Maldita máquina intocável, fiel à mãos que não lhe davam atenção há anos. Mas assim também são algumas pessoas. É difícil entender que chega uma hora em que nos tornamos inúteis para quem um dia juramos amor. Eles apodrecem, eu apodreço, mas a Lettera 82 verde espera sem tinta que os velhos dedos esgotados lhe façam um carinho. Usá-la agora seria um estupro.

Por: Rimini Raskin

Passagens...



- Tu não sabe fumar! Ela me dizia, e ria com aquela cara de quem cresceu na rua vendendo bugigangas .

- Não sei e odeio fumar! Respondi indiferente.

- E por que tu fuma?

- Tem gente que não sabe e outras que odeiam viver e mesmo assim seguem insistindo no erro.

- Que mundo de merda, né?

- Somos todos uns filhos da puta.

- Pelo menos nós dois temos consciência disso.

- E temos uma cama para trepar depois da festa... Pensando bem, até que não estamos tão mal assim.


Por: Rimini Raskin

quarta-feira, 20 de junho de 2012

O Homem



Olhe o homem
Atravessar a rua
Olhe o homem
Comer seu sanduíche de queijo
Olhe o homem
Olhando você o olhar

Olhe o homem
Gritando palavrões no parque
Olhe o homem
Correndo como um louco atrás do dinheiro
Olhe o homem
Pressentindo a doença chegar

Olhe o homem
Com suas contas em dia
Olhe o homem
Carregando sua filha
Olhe o homem
Morrendo de frio a cada esquina

Olhem o homem, meus senhores
Está em todas as partes
Olhe o homem, minha irmã
Dentro de todas as coisas
Olhe o homem, meu deus-do-céu-da-terra-de-lugar-nenhum
que chega tarde demais em si mesmo
que evoca vezes demais seus fantasmas
sofre demais seus problemas e
pensa que pensa que pensa que...

Ele não é especial - O Homem -

Ninguém além de nós todos.

Pedaços de carne.


Por: Rimini Raskin 





O vento é um diabo que nos carrega



Meu peito é cinza-chumbo
e encobre o sol
Toda manhã é meu peito
e tudo que é cinza também é meu

Peito, ponte e até os elefantes
A África e os polos
os índios e os tolos
São chumbo
Sol e manhã

Amanhã

Será sempre amanhã
quando o hoje for cinza
e o peito for feito cascata
em queda livre contra o sol

É meu
Esse todo que não vale nada
Esse mundo tudo que não fala nada
É tudo
E é cinza
Porque é meu

Por: Rimini Raskin

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Ode ao meu pau duro



Homenagem à minha torre de Pisa
minha pissa
companheira de noites gostosas
solidões desastrosas
Meu saxofone
entregue aos lábios
da menina antes da festa

Sufocado
perseguido
por falsos moralismos
escondido

E por quê não?

Por quê não deveria eu
caminhar na rua
com a vara dura?

Por quê não?

A senhora que se choca
é a mesma que deseja na boca
o leite morno dos tempos de moça
É a mesma que roça a xoxota
com o chuveirinho
e lambe os beiços às escuras
quando o entregador de pizza
lhe toca suave a campainha

E então?

Por quê não?

Ah, meu companheiro
desbravador de cavernas
peço que jamais me deixes na mão
Deixes isso para quando eu já estiver muito velho
de cobra mole
indo aos puteiros
mentir a mim mesmo

Nunca irei entender
o por que de toda essa vergonha
Obrigados a andar por aí
como se na cueca levássemos uma pistola
sendo que a munição é puro amor

Nas calcinhas
aprisionadas
todas as rosas
cheirosas
que deveriam aos ventos
florescer sem dor

Caralho
Boceta
Tão normais
completamente naturais
ao ser

E então?

Por quê não?

À eles e à elas
Aqueles e aquelas
que me enchem tanto o saco
mais do que os pentelhos
À todos esses
os envergonhados
deixo essa homenagem
na forma de pau sempre ereto
no escuro e fundo de seus retos
para todas as vezes que pensarem:
- "Que horror!"


Por: Rimini Raskin

terça-feira, 29 de maio de 2012

Opium



Estou deitado na cama
e um raio de
sol-luz-quentura
brada
branda e
de branco
me cega o olho esquerdo

Desfaço-me antes de
reagrupar novamente
líquido ou
denso
tal qual
mercúrio em
bandeja de prata

I want More
and More
Wants me
Please, Miss Pussy
Let me In
To More
and More
Wants me
Miss Pussy
Please
Let me...

Estendo a mão
e a luz
agora é sombra
repousada em
cegueira que
passageira parte
da mesma estação

&
nesse espaço
(vazio)

Penso que...talvez não...
Mas, digamos que seja real
esse ato de pensar
que de negro deveria banhar-se o mar
a cada pensamento que
possivelmente não seja...

E fico na espreita...
Na espera do ouro de toda manhã
O abrigo nos olhos do Buda
profundos e reluzentes como
um presente
de candura elevada
às mais puras esferas da consciência
ou total falta dela

Ah, esse paraíso...
Que não existe
no preciso momento em que
minha boca
se torna capaz de pronunciar

Talvez ele chame
Poesia
Estrada
Loucura
Talvez soe
como os barulhos da noite
quando eu deitava
no campo
para me olhar nas estrelas
Ou ainda,
é possível que
não chame
nem soe
Nem exista além dessa cama

É contra toda minha lógica
de relatividades, eu sei...
Mas, ao voltar minha cabeça para o lado
imaginem quem encontro?

A luz do Sol
encarnada
com toda brancura
do conhecimento
ancestral
maior

Interior

Buda está aqui -
Digo em um suspiro...

(ou penso dizer)

&

Ele é perfeito & brilha mesmo quando dorme
dentro dos pequenos olhos escuros que
me fitam ao lado da cama
Eu não posso mexer mas,
meu coração dispara diante das pequenas
lanternas de chama pura e de bondade
dos sorrisos que não são dados

Me sinto leve
ao ponto de segurar-me na cama para
que não rompa com o teto
dessa vida
longe...
longe..

&.

Embora eu saiba que
no próximo passeio
os cães da vizinhança seguirão 
enfurecendo-se ao me ver passar
tão miserável
com meu lobo mostrando-lhes
os dentes...
Agora,
ao menos tenho a
certeza de que
esse pequeno deus
terá sempre o poder de me
presentear com o
perdão


Por: Rimini Raskin

Familiares Aldeias do Ser



Os distúrbios da maquinaria do dia roendo meu nariz causando convulsão em meus ouvidos.
Germes agrupando-se em meus poros & pêlos & pernas que jamais serão amputadas.
A Cidade é cosmopolita – os carros do caos atropelam a vizinhança toda.
Cerne do firmamento – nosso habitat ainda natural – instintos animais não extintos.
Meus intestinos não se adaptam a confusão de frituras, congelados & carnes empapadas ensopadas de sangue venoso.
Eu cuido deste túmulo que eu durmo e ronco até ficar rouco –
locomovido por loucos motivos que me desloca para locais inóspitos que de certa forma me agradam.
Intocado na toca na oca da tribo atribulada triturada por essa sociedade civil desgraçada!
eu não sou como você pensa, como eles pensam, como vocês pensam, como todos nós todos pensamos!
Tenho todos os requisitos para viver em comum paz superior com aqueles que almejam a serenidade –
pois passei todos os meus dias semanas meses anos horas dedicados a consulta e a idolatria dos ensinamentos de Allen Bob Dylan Thomas,
e digo. sim. e confirmo tudo que aprendi fielmente.
As faculdades mentais não me anulam – as faculdades mentais me informalizam ao mundo secreto dos belos e ignorados.
Oh Lua me diviniza! como fizeste perfeitamente aos meus bravíssimos ídolos!
Ponho meu anel de rubro rubi folheadourado escrevo & decanto & declamo para os meus amores únicos & solitários.
Sonho que estou flutuando pelos cômodos da minha casa, voando pelas nuvens arranhadas do Céu do Mar.
A tarde me despertando para agarrar a cabeleira & as barbas negras de Cristo.
E eu sossego neste Infinito nesta infinitude ou melhor numa plena miríade de bocas & bucetas.
Assim visto seu espartilho, minha Mãe!, uso seus óculos quadrados, meu Pai! – sem sapatos & meias – debalde me perco em familiares aldeias do Ser.





Por: Felipe Rey


sábado, 26 de maio de 2012

Minha Boêmia (Fantasia)





Lá ia eu, de mãos nos bolsos descosidos; 
Meu paletó também tornava-se ideal; 
Sob o céu, Musa! Eu fui teu súdito leal; 
Puxa vida! A sonhar amores destemidos! 

O meu único par de calças tinha furos. 
- Pequeno Polegar do sonho ao meu redor 
Rimas espalho. Albergo-me à Ursa Maior. 
- Os meus astros nos céus rangem frêmitos puros. 

Sentado, eu os ouvia, à beira do caminho, 
Nas noites de setembro, onde senti tal vinho 
O orvalho a rorejar-me as fronte em comoção; 

Onde, rimando em meio à imensidões fantásticas, 
Eu tomava, qual lira, as botinas elásticas 
E tangia um dos pés junto ao meu coração!






Por: Arthur Rimbaud

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Rimbaud



Nos conhecemos por acaso, nem sei ao certo como ou onde foi. Corremos entre ruas molhadas com nossas roupas surradas e cabelos ensopados. Gritei - Me espere, Arthur. - E de presente ganhei algumas palavras dos jovens olhos-azuis-lanternas-da-noite, ofegantes palavras de desconfiança. - Não podemos ser vistos juntos neste beco escuro, não seria seguro. - Ele me falou. Tratei de tranquilizá-lo no próximo instante, com meu braço ao redor de seus ombros, - Acalme-se, poeta. Não tema aquele bêbado imundo. O que o louco do Verlaine deseja de ti, à mim não interessa nem um pouco.-




Por: Rimini Raskin

terça-feira, 22 de maio de 2012

Prematuros



Lembra quando o plano era fugir para um lugar onde ninguém nos conhecesse, raspar a cabeça, as sobrancelhas e todos os outros pelos do corpo para nos sentirmos de novo como recém nascidos em uma casa onde portas e janelas estariam outra vez abertas às possibilidades? Eu lembro. E era triste conhecer o futuro antes mesmo de sair da escola.

Por: Rimini Raskin 

sábado, 19 de maio de 2012

A Barata



A barata cruza ligeira
sob meus pés
circulando móveis
da sala de estar
até a cozinha

A barata envenenada
embriagada
de perfume mortal
da nuvem de aerosol

A barata cai,
agonizante
patas imundas
voltadas para o céu da minha casa
que na cabeça da barata
não passa da extensão do esgoto
um depósito de comida
treme em transe o inseto
que pensa senão em viver
e comer quando tem fome.
Quantas aventuras deve ter
vivido a barata
quantos lugares deve ter
visto a barata
o que pensará ela
agora que se contorce?

Morre a barata
sob o olhar de nojo da minha mulher
sob as cerdas plásticas da minha vassoura.
E no fúnebre cortejo
sem qualquer honraria em direção à lata de lixo
dorme a barata
tão superiora a mim
tão superiora a qualquer um
que só sabe chacoalhar uma lata
antes de disparar veneno
em jatos mortais

Olho em volta
depois de ter lavado bem as mãos
e no armário não está mais a flor que assisti morrer
e logo também não estaremos
nenhum de nós estará.
Façamos então as malas, humanos
pois esse mundo em breve
voltará a ser delas


Por: Rimini Raskin

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Lágrimas Negras




Na frente do cortejo
O meu beijo
Forte como o aço
Meu abraço
São poços de petróleo
A luz negra dos seus olhos
Lágrimas negras caem, saem, dóem
Por entre flores e estrelas
Você usa uma delas como brinco
Pendurada na orelha
Astronauta da saudade
Com a boca toda vermelha
Lágrimas negras caem, saem, dóem
São como pedras de moinhos
Que moem, roem, moem
E você baby vai, vem, vai
E você baby vem, vai, vem
Belezas são coisas acesas por dentro
Tristezas são belezas apagadas pelo sofrimento
Lágrimas negras caem, saem, doem

Por: Jorge Mautner

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Não há importância no título do que não foi feito para ser levado a sério



É inútil,
é sempre
inútil.
Quando sento para escrever algo,
quando tento pensar em algo é
inútil.

Me empenho em buscar na lembrança
mulheres,
amigos,
lugares,
ou
qualquer noite fodida
que eu tenha vivido
é
inútil.

Não existe poesia possível
às 13:55
com o estômago cheio
de bacon e batatas

Não existe nada que possa ser dito
nada que os faça prestar atenção.
Imagino apenas personagens bem alimentados
sorridentes
comendo um chocolate
bebendo café
Desejosos por um cigarro.

É patético
Não porque não consigo escrever,
é patético
porque é real.
É triste
e se é triste
é
porque são 14:01
e lá fora algo interessante acontece,
algo que talvez eu teria escrito mais tarde

Mas, ok.
Sobrou café
e tenho chocolates.
Ao menos até as 17:30
posso me desperdiçar sem culpa.
O poema fica para mais tarde


Por: Rimini Raskin

terça-feira, 8 de maio de 2012

Ode ao gigante gentil



O gigante do parque
nos fala,
mas ninguém,
ninguém entende que a piada
por trás do sorriso
é uma profecia
de morte.

O homem verde
grita gentil,
contra a vida.
Desejando dormir
entre folhas cor de laranja,
marrom e ouro
que forram sua cama.

O trovão no peito,
o sarcasmo depreciativo
tentando matar em si...
O veneno contra o veneno,
o lugar vazio na mesa de natal.
As manhãs horrorosas
não querendo sair da cama.

Preto e verde
escrito nas bordas da imagem,
todos nós.
Eu, que muito jovem
me deitava na cama para escutar.
Eu, que de quando em quando,
deitava outra na cama para me ouvir,
já não tenho mais esse amigo.
E depois de dois anos,
é como se me sentisse um pouco mais surdo,
mais perto dos ventos de um outono que jamais será esquecido


Para Petrus T. Ratajczyk (A.K.A. Peter Steele) 

(04/01/1962 - 14/04/2010)



Por: Rimini Raskin





sábado, 28 de abril de 2012

O Longo Dia Quinta-Feira


Mal acordei reconheci
o dia, era o de ontem,
era o dia de ontem com outro nome,
era um amigo que acreditei perdido
e que voltava para me surpreender.

Quinta feira, lhe disse, me espere
vou me vestir e andaremos juntos
até que tu caias na noite.
Tu morrerás, eu seguirei
acordado, acostumado
com as satisfações da sombra.
As coisas ocorreram de outro modo
que contarei com íntimos detalhes.

Demorei em encher de sabão o rosto
- Que deliciosa espuma
em minhas faces -.
senti como se o mar me desse de presente
brancura sucessiva,
minha cara foi só uma ilhota escura
rodeada por vieses de sabão
e quando no combate
das pequenas ondas e lambidas
do terno hissope e afiada lâmina
fui fraco e de imediato,
malferido,
malgastei as toalhas
com gotas de meu sangue,
procurei alúmen, algodão, iodo, farmácias
completas que correram em meu auxílio:
só vejo o meu rosto no espelho,
minha cara mal lavada e malferida.

O banho
me incitava
com pré-natal calor a submergir
e encolhi meu corpo na preguiça.

Aquela cavidade intra-uterina
me deixou preso
esperando nascer, imóvel, líquido,
substância cheia de tremores
que participa da inexistência
e demorei para me mover
horas inteiras,
esticando as pernas com delícia
sob a submarina caloria.

Quanto tempo para me esfregar e me enxugar,
quanto uma meia depois de outra meia
e meia calça e outra metade,
tão longo espaço me ocupou um sapato
que quando em dolorosa incerteza
escolhi a gravata, e já partia
para a exploração, procurando o meu chapéu,
compreendi que era tarde demais:
a noite tinha chegado
e comecei de novo a me despir,
peça por peça, a entrar entre os lençóis,
até que logo adormeci.

Quando passou a noite e pela porta
entrou outra vez a quinta-feira anterior
corretamente transformada em sexta-feira
saudei-a com riso suspeitoso,
com desconfiança por sua identidade.
Me espera, lhe disse, mantendo
portas e janelas plenamente abertas,
e comecei de novo minha tarefa
de espuma de sabão até o chapéu,
mas o meu vão esforço
se encontrou com a noite que chegava
exatamente quando eu saía.
E tornei a me despir com esmero.

Enquanto isso esperando na oficina
os repugnantes expedientes, os
números que voavam ao papel
como mínimas aves migratórias
unidas em arremetida ameaçadora.
Me pareceu que tudo se juntava
para me esperar pela primeira vez:
o novo amor que, recém descoberto,
sob uma árvore do parque
me incitava a continuar em minha primavera.

E minha alimentação foi descuidada
dia após dia, empenhado em colocar
um atrás do outro meus adiantamentos,
em lavar-me e vestir-me a cada dia.
Era uma insustentável situação:
cada vez um problema com a camisa,
mais hostis as roupas interiores
e mais interminável o paletó.

Até que pouco a pouco morri
de inanição, de não acertar, de nada,
de estar entre aquele dia que voltava
e a noite esperando como viúva.

Já quando morri, tudo mudou.
Bem vestido, com pérola na gravata,
e já requintadamente barbeado
quis sair, mas não havia rua,
não havia ninguém na rua que não havia,
e portanto ninguém me esperava.

E a quinta-feira duraria todo o ano.


Por: Pablo Neruda

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Fumaça



Noite passada sonhei que estava na pracinha fumando um baseado com o flanelinha que fica na esquina aqui de casa. Nesse sonho ele me contava que tinha me conhecido em uma festa no Carioca's Bar em 2003. Eu falei que não lembrava, mas ele completou a história sem me olhar - O espelho do bar nunca foi muito bom mesmo. -  

Porque hoje a estação dos corações apaixonados e indigentes mortos se reapresenta



As manhãs voltaram a ser frias. O inverno se apresenta como um amigo antigo que na verdade nunca nos abandonou por completo. As noites voltaram a ser frias. Os mendigos falecem, velhos e crianças adoecem. Tudo fica muito mais letal quando o ar é gelado demais. De alguma forma será sempre inverno para a morte, mesmo quando o suor escorre da testa, mesmo quando não há choro ou família, mesmo assim. Há alguns anos reencontrei alguns amigos de escola, bebemos, fumamos, cada um com sua história e um passado em comum. Relembramos os tragos e os risos, os viciados e os suicidas que ficaram pelo caminho. Cada um trazia uma lembrança pendurada pelo pescoço em uma corda. Mas concordamos que apesar de tudo, vencemos um destino lógico de desgraças. Um deles, recém chegado de São Paulo onde morou durante alguns anos, recomeçava uma vida no lugar onde antes vivia. O outro, com família formada, falava sobre o emprego satisfatório e a felicidade de não deixar faltar nada à filha. Além deles, a mesa contava com mais um, que assim como eu, não morou fora ou constituiu família, mas apesar de ter atravessado o passado em pé, e talvez com muito mais retidão do que eu próprio, penava na angústia da falta de perspectiva. Mas era inverno na cidade, eram cigarros e vodka na mesa de churrasco; recordações, pesares, piadas...Naquela noite voltava a ser inverno para os quatro e depois era pegar o carro e devolver  um pai para sua filha, era rodar sem rumo pelas mesmas ruas da infância. Mijar na calçada enquanto as putas gritavam propostas e eu balançava o pau antes de voltar para o meu lugar no banco de trás. Adormeci em um momento que não posso recordar, e acordei na casa dos meus pais com o motorista dormindo no sofá da sala. Abri a porta, mas na rua não era mais inverno. Nem o enorme amassado na traseira do Marea que ninguém soube explicar era inverno. E antes de toda bobagem que possa ser dita, essas noites não falam de passado ou viver remoendo histórias. A questão é que o tempo sempre irá existir enquanto houverem amigos vivendo em uma cidade pequena.

 Por: Rimini Raskin

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Dos dias em que as poças nos molham as meias



Quando fecho os olhos
vejo um homem
e ele é jovem
e ele caminha

Carrega uma pasta
por uma estrada
e
nela passam ônibus
e
um enorme cemitério
que não passa
nem fica
por trás dos muros

Na carteira
nenhum dinheiro
nas meias furadas
se apoia
um sapato bege
velho e feio
um presente
de quem?
ele nem lembra

Na cabeça
apenas uma canção argentina
e
dor nos músculos da perna
e
bolhas nas plantas dos pés

Ele não tem emprego
por isso não tem
pressa
Caminha há mais de duas horas
A água molhou as meias
nem frio
nem quente
nem sente
tão pouco

Não tem mulher
ele não tem
De porta em porta
ele
não
tem
quem o deixe passar
nem um telefone que toque
ele
não
tem
outra saída

As folhas se vão
nas mãos de porteiros
entre janelas e guaritas de segurança
em cooperativas de caminhoneiros
elas
simplesmente
se vão

Entre
os que passam
ele
simplesmente
se esvai
aéreo
heterodoxo
quase decomposto

Ele se vai

Para casa
uma cadeira
e
uma mesa
com pratos
mãe e irmão
arroz
e frango cozido

E
na pasta vazia
deixada de lado
quem sobra
é o mundo.



Por: Rimini Raskin

Kalos Eidos Scopeo



Meu prazer
é
saber 
que
apesar 
de querer
eu
posso

c
  a
    l
   e
  i
d
 o
  s
   c
  ó
 p
i
 o


Por: Rimini Raskin



terça-feira, 17 de abril de 2012

Menina Verde


Ah, menina
Continue
assim
A espalhar tuas jóias aos ventos
Não ouça minhas tolices
Pois, que bobagem essa minha
de julgar o quanto vale
o que só tu sabes quanto custa

Ah, menina
Ah, menina

Viva em mim
com teu verso solto
Com teu sorriso largo
de angústia imensa

Com esse berço
onde encontro sempre um descanso
Com esse encanto
onde me encontro para desfrutar de um canto

Ah, menina
Siga verde
Viva leve

Me leve, menina


Por: Rimini Raskin

Não deixem que cortem-lhes a língua



Não pretendo me alongar, mas gostaria de dizer algo.
Prestem atenção se ainda apreciam o direito de expressão.
Aos pouquinhos nos arrancam a língua e não percebemos
Fazem parecer bobagem, nos fazem sentir bobos por defende-la.
Em um mundo onde a verdade ofende, é preciso estar atento.
Em um mundo onde o sagrado encobre mentiras, é preciso ter muito cuidado.
Não existe nada maior que a verdade
Nada é tão sagrado que não possa ser tocado
Aceitar-se inferior é aceitar-se morto
As mãos do homem criam coisas do homem
O coração do homem cria esperanças do homem
A mente do homem cria os desejos do homem
Os primeiros a entenderem isso deveriam ter ensinado
Mas guardaram para usar o poder de reinar sobre todos os outros.
Não tenho medo de ofender a deus com uma verdade
Pois o medo é uma arma do homem usada contra ele mesmo.

Por: Rimini Raskin

quinta-feira, 12 de abril de 2012

O Jogo



Quando estou entediado gosto de competir com meu copo de cerveja.
A única regra é que o último a se espatifar no chão vence.
O lado bom, é que sempre ganho.
O ruim, é que está ficando caro comprar tantos copos.

Por: Rimini Raskin

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Nostalgia



Me sinto um imbecil
ao constatar que
alguns antigos amigos 
tornaram-se também
imbecis

Me sinto um pouco mais imbecil
por talvez
nunca ter notado 
que muito provavelmente 
sempre tenham sido
uns imbecis

E isso serve para tudo
Coisas
Lugares
Situações
Amores antigos
e transas mornas
que na adolescência 
eu julgara divertidas

Passei tanto tempo
nutrindo esses fantasmas
que hoje os vejo com
enormes barrigas
e rostos redondos
de sorrisos forçados
Cumprimentando-se 
por uma educação que nunca tivemos

Malditos imbecis
Maldito mundo de imbecis

As coisas morrem o tempo todo
Mas frequentemente esquecemos de enterrá-las
E nos seguem fedendo
e fazendo com que nada mais tenha o mesmo gosto
Depois de conhecermos o álcool
nossas línguas já não passam um dia sem desejar 
um doce que deixou de existir

Talvez se não nos masturbássemos tanto
pensando nas namoradinhas adolescentes
As fodas com nossas esposas seriam o suficiente
Talvez se não lembrássemos tanto
dos antigos amigos
bêbados como árvores de natal com o passo em falso,
Os novos parceiros pudessem cantar uma canção
enquanto servem outra vodka
E isso seria o suficiente.
Mas não é assim

Malditos imbecis
Maldito mundo de imbecis na minha cabeça

Ela já não é tão bonita
Eles já não são tão divertidos

E eu 
estou ficando careca.


Por: Rimini Raskin

quinta-feira, 5 de abril de 2012

A Ilha


Saí da cama hoje, ainda com sono, de cueca, bocejando e coçando a bunda. Alguns homens possuem seus rituais matinais, e esse é o meu. Liguei a televisão e um repórter de meia idade falava sobre a nova geração de jovens, sobre a tecnologia, os problemas de assédio, as modas, enfim, essa porra toda que vivem tagarelando. Não consigo mais acompanhar a mentalidade adolescente atual, toda essa padronização estética, todos com a mesma roupa, mesmo cabelo, etc... Sei que existem as excessões, inclusive conheço algumas, mas as coisas mudaram, como era de se esperar. Não me entendam mal, tive uma infância e uma adolescência um tanto filha da puta, em uma cidadezinha mais filha da puta ainda.  Nem faz tanto tempo, mas é como se tivesse acontecido em outra vida. Os jovens não tinham o que fazer, e para nos distrair, sobrava escolher um lado e defender uma causa, brigar por ela; Um estilo de música, uma visão política, um bairro, uma rua, uma banda...tanto faz. Mas o fato é que cada um tinha um lado, mesmo que no final o tédio obrigasse a todos a não ter lado algum. Não conheci ninguém com faculdade ou pretensão de ingressar no ensino superior, todos queriam apenas terminar a escola e conseguir um emprego para descolar uns trocados e poder sair no final de semana. Poderíamos escolher entre trabalhar no comércio ou sermos metalúrgicos em pequenas fábricas ou em uma montadora de automóveis. Até lá, os supermercados ou a construção quebravam um galho. Era uma loucura organizada de certa forma, nos juntávamos para montar uma banda, organizar um festival ou invadir o CFC à noite para ficar de bobeira bebendo vodka e falando merda. Existia um ou dois bares que valiam a pena frequentar, não, pensando bem, eles não valiam nada, eram um lixo, um antro onde se reunia todo tipo de adolescente esquisito ou entediado com a vida. Fosse para escutar as bandas locais, fosse para tocar enquanto o resto pulava de mesas de sinuca e se empurrava em um ambiente minúsculo e escuro. As festas em casa também eram uma fuga inventada durante a ausência dos adultos, a menor notícia de festa na casa de alguém se espalhava por toda cidade como um raio,  e logo a casa de um desconhecido estava cheia de pessoas de todo tipo, a maioria jamais vira o dono do lugar, mas, foda-se, era uma festa. Bebíamos muito, não era muito a minha praia mas, alguns fumavam muita maconha, alguns conhecidos chegaram a se complicar seriamente com traficantes, na oitava série dois colegas meus de escola foram mortos por dívidas com esses traficantes. Eu mesmo me metia em muita confusão, era ameaçado de morte, quase fui esfaqueado uma vez. Conforme o tempo passava as coisas iam ficando mais sérias, os vazios eram maiores, os suicídios apareceram, as gravidezes indesejadas, as clínicas de reabilitação, a prostituição, as crises depressivas. Quem podia, pulava fora quando tinha chance, mudava de hábitos, de âmbitos, de amigos. No fundo todos queriam era pular fora daquela cidade o quanto antes, eu era um deles. Parece caótico e terrível contando dessa maneira, mas não era possível perceber a dimensão do que nos rodeava, tínhamos a diversão, os alívios, estávamos ocupados demais em fugir das realidades dos lares desfeitos ou ruindo, das mães depressivas, dos pais operários e cansados, da falta de grana, da certeza de um futuro tão previsível quanto o sol que nasceria na próxima manhã. Eu passei muitas noites em uma calçada com os amigos, conversando sobre tudo, bebendo, passando frio; Cada um com uma história, com um motivo diferente que no fundo eram os mesmos. Lembro que na adolescência eu tinha ídolos nada convencionais, não eram artistas, políticos ou figuras públicas, eram pessoas normais, do meu convívio, meus amigos mais velhos, que por algum motivo eram meus parâmetros de um sucesso possível dentro da nossa realidade. Na escola tinha um cara, estudava em uma série superior à minha, ele tinha uma banda cover de Nirvana, tocavam apenas os lados B da banda de Seattle, tudo era o mais underground possível, eu admirava aquele cara, queria ser como ele, as gurias achavam ele o máximo, até que saiu uma foto dele no jornal da escola e alguns disseram que estava muito parecido comigo; Daquele dia em diante deixei de admirá-lo. Não por me desvalorizar, mas por entender que eu precisava encontrar alguém ainda melhor para me espelhar. Contrariei as regras e estudei muito, li muito, conheci o quanto me era possível conhecer, trabalhei como ajudante de caminhoneiro, viajava por algumas cidades do estado, entreguei remédios, queimei as mãos em uma fábrica, carreguei cimento, andei com todo tipo de gente que eu julgava interessante pra mim. Perdi amigos, abandonei amigos, conquistei amores e os perdi com a mesma intensidade, reencontrei alguns, amores e amigos, vi a cidade mudar, as pessoas crescerem, não se podia continuar descendo, não imagino como seria se as coisas tivessem caminhado para a piora. O mundo chegou na cidade, bem ou mal, ele chegou. Modificou as ruas, as roupas, as mentes...as pessoas já não são tão feias e já conseguem comprar coisas que antes não conseguiam. Onde antes tinha terra agora é asfalto, já não é preciso sujar os pés nas calçadas de lama, cortaram as árvores da frente de casa, ergueram grades, compraram carros, pintaram as fachadas, substituíram os ônibus antigos, agora tudo é mais feliz, cada um pode ficar no conforto do lar vivendo através de suas tecnologias. Graças a Deus agora nossas crianças estão bem guardadas em suas caixas. 


Por: Rimini Raskin

terça-feira, 3 de abril de 2012

Falácia



É absurdo

E sujo

E lindo

É metamórfico

E esquelético

E malogrado

É cataclísmico

E miserável

E vagabundo

É matemático

E sangrento

E imoral

É escuro

E úmido

E apertado

É surreal

E solúvel

E marginal

É sexualmente transmissível

E lacrimal

E rastejante

...


É vivo!



Por: Rimini Raskin

sábado, 31 de março de 2012

O velho de chapéu preto as vezes chora atrás das cortinas, mas ninguém ouve



Penso na morte
como um velho cansado
que calça os sapatos
e veste a melhor camisa
toda manhã

Penso na morte
como esse velho doente
de cueca branca e cigarro na boca
passando à ferro uma calça de linho
toda noite em que não vai dormir

Barbeado e bem vestido para puxar gatilhos
afiar lâminas e esvaziar garrafas
em dias e noites que não enxergamos passar
ocupados com futilidades e contas de luz

Penso na morte
como um funcionário mal remunerado
descontente por fazer o serviço sujo de Deus
incompreendido
deprimido pelas más interpretações

Vagando por becos e vielas
cafés iluminados e mesas de poker
sentado à mesa do cidadão comum
descansando na cama do magnata
parado sob os postes, soprando as luzes do semáforo
rondando escolas, sentado a beira da estrada
passeando pelo lado escuro da mente de ditadores
no controle das mãos dos assassinos passionais
e línguas de poetas loucos
Vagando mascarado
em uma cidadezinha quente no interior do México

No geral, é assim

Penso na morte
como um velho subordinado
que se lamenta por não ter tempo para si

Consumido pela inveja
de não poder apostar em cavalos
ou perder tudo em uma mesa de jogo
sabendo que jamais terá o coração partido
em uma noite de inverno

Eternamente fadado à amargura de se reconhecer necessário

e inevitável


Por: Rimini Raskin

terça-feira, 27 de março de 2012

Alguns caras ou As mulheres que me encantam



Existem alguns caras
do tipo que eu não me encaixo
Gostam de ter músculos
e escutar uma merda de música no carro
para impressionar outros caras
Existem esses caras
Esses que ficam esperando na saída das escolas
exibindo-se, gabando-se de suas vergonhas
É esse tipo de cara a que eu me refiro
Definitivamente não faço parte desse grupo
Sou do tipo que gosta de sentir o gosto da comida
e prefere a cerveja bem amarga
Que se masturba com pornografia barata
nada de produções e mulheres artificiais
O cara que prefere transar com uma mulher de verdade
com tesão de verdade.
Deitar e explorar todas as imperfeições do corpo ofegante ao meu lado
Os mistérios, os caminhos tortuosos...
Toda boa mulher é uma montanha a ser escalada
Gosto do esforço que precede o prazer de fincar a bandeira
Já esses caras
os que preferem as gostosas de revista
não passam de alpinistas de planície.

Por: Rimini Raskin





terça-feira, 20 de março de 2012

Fernando



Lembro de tê-lo visto a primeira vez há mais de dez anos, perambulando pela minha rua com um pedaço de pão embrulhado em plástico em baixo do braço. Alto, magro, não trazia no rosto nada senão a desilusão e a paciência de um andarilho. Os carros paravam ao seu lado, carros bons, mais caros do que qualquer um no bairro poderia pagar. Imaginávamos o que poderiam conversar, e logo as teorias se formavam. - Enlouqueceu após a morte da mãe / É um advogado rico que largou tudo depois que a esposa o deixou. - Talvez nada fosse verdade, mas sabe como é, o povo fala, tem sede de explicação. E ano após ano, envelhecia e andava pelas mesmas ruas, elegia sua cama sob as marquises, à sombra, onde a chuva não o alcançava. Fumava seus cigarros, mas nunca o vimos beber, pagava tudo com seu próprio dinheiro e não aceitava nada que lhe fosse oferecido, vivia do lixo, como uma punição imposta a si mesmo, uma maneira de se purificar através da dor por algum pecado mortal cometido em um passado, em uma vida antes dessa, em um tempo que não conhecíamos. Dizem que enlouqueceu e não é raro vê-lo conversar sozinho, aos gritos, insultando criaturas que nenhum de nós possui a permissão de enxergar. Se auto-elegeu dono das ruas, dos carros e até dos aviões que cruzam o céu. Mas é impossível achar engraçado, impossível olhar aquele rosto, agora envelhecido pelo sol, cem, mil anos nos últimos dez. Carregando suas sacolas de cobertores, vestindo roupa sobre roupa, como um armário vivo. Um homem árvore, não tão velho, mas antigo, secreto, Fernando.


Por: Rimini Raskin

segunda-feira, 19 de março de 2012

Feito paredes recém pintadas



Eram tempos difíceis
quando não se tinha
nem ao menos se podia

Aqueles sim, eram tempos difíceis

Eu o escutava chorar baixinho
para que os filhos não pudessem
nem sentissem que talvez...

Aqueles eram tempos difíceis

Ela enlouqueceu e
coube a nós segurar a barra
de mãos amarradas
e o mesmo sapato por mais de um ano

O mais novo não podia
Não havia como deixar de querer
Até o mais velho, em segredo,
queria ao mesmo tempo que

Aqueles sem dúvidas, eram tempos difíceis

E se aprende que o rosto já não sangra
depois de algum tempo fazendo a barba
com uma navalha cega
E ficamos bons em fingir
E ainda melhores em beber

Mas se ainda podemos lembrar,
é porque não faz, ao todo, parte do passado

Foram tempos difíceis aqueles,
Quando até o diabo cogitava vender a alma à deus
para levantar alguns trocados...


Por: Rimini Raskin

sexta-feira, 16 de março de 2012

...Sobre O Que Eu Penso Pelas Mãos De Quem Entende...



Acontece que existem aquelas pessoas que nascem
E a medida que falam, que olham, que andam
Elas podem nos dar a luz, 
Com a mesma emoção de uma mãe solteira 
e na mesma intensidade de uma ressaca de vinho. 



Por: Adriene Tomaz

terça-feira, 13 de março de 2012

Naquela linha o perigo não era o trem



Na garganta dos homens era graxa
Nas mãos dos meninos feito homens eram facas
artesanais
Era plástico quente e moinho

Nos corpos cansados
eram costelas quebradas
cortes, pontos e unhas arrancadas
Era água ácida arrancando a pele das mãos

Choro e cigarro
e pressa,
e pressa,
e pressa

Risadas para compensar
overdoses de remédio para aliviar
o caos organizado

Desacelere se não te derem luvas

E o frio da estanqueidade
O calor das soldas
e dos monstros de metal cuspindo lava negra

aconteceria algo
Eles não esperavam
e por isso aconteceria algo

Dos murmúrios surdos
haveriam aqueles para se impor
Para boicotar suas produções de coisas
produtos que nenhum de nós conseguiria comprar

Eles não acreditaram
Eram tantos sorrindo
que eles não acreditaram

Das revoltas de vestiário
nasciam as pausas
E quando o sol nascia pela janela
alguns sentiam o que eles não acreditaram

Das brincadeiras Chaplinianas
ao revezamento para tomar café
Eram tantos pensando
que eles não acreditaram

Não se enganem
não existia romance nesses dias
Não era bonito acordar cansado
ou sentir dores da manhã à noite

Nós víamos a dor
Mas para eles eram cestos vazios
Nós tentávamos alertar
Mas para eles eram números caídos

Um a um
sentamos à mesa
e despejamos o que queríamos

Mas não ouviram
e nos deixaram com tantas marcas
que nem mesmo eles poderiam um dia acreditar


Por: Rimini Raskin

segunda-feira, 12 de março de 2012

Ficaram Nas Pedras



Quando eu era mais jovem,
Quando o mundo era mais jovem,
Quando tudo já era velho
Mas mesmo assim
mais jovem

Do que um dia será...

Existia um cara,
ele parecia maluco
e tinha facas espalhadas pela casa
ao alcance das mãos
e até sob o travesseiro

Preparado para o que um dia sonhou acontecer...

E tinha outro cara,
Parecia doente
canelas finas e cabeça raspada
E ele não trabalhava
e já era bem mais velho que nós

Esperava por coisas que acreditava serem...

Iguais a eles existiam,
tanta gente existia
e tudo era mais jovem
menos as casas
que já eram velhas
e as pedras
que bebiam sangue dos dedos do pé

E todos esperavam por coisas que ainda seriam...

Até que o primeiro abriu mão das facas,
elas já não supriam a carência
e casou
Hoje mora em uma casa nova
na mesma rua velha de ontem

Talvez espere por algo que eu mesmo não sei...

Já o outro esperou até ir embora
e eu não sei depois
talvez trabalhe em algo,
Talvez todos trabalhem em algo que eu mesmo não sei
E é como se
mesmo os que ficaram
tenham ido embora há muito mais tempo do que eu consiga lembrar




Mas tudo isso foi antes...
Hoje seria loucura.



Por: Rimini Raskin


quinta-feira, 1 de março de 2012

Sleep: 60 min.




Tocam a campainha, já não sei que horas são. Mas é noite, eu sei porque olhei por uma fresta da cortina. Sei que é um pouco tarde, o mercadinho da esquina já fechou, posso enxergar daqui do quarto andar. Continua tocando, maldição. Deve ser algum vizinho, um testemunha de Jeová, talvez. Seja lá quem for, é insistente e acordou o cachorro do apartamento em frente. Talvez seja importante. Pode ser o sindico querendo me entregar a correspondência ou um policial para dar uma noticia de morte. Uma intimação, uma ordem de despejo, quem sabe. Não para de tocar e agora bate na porta. Deve ser sério, algo urgente, talvez alguém vindo informar que ganhei uma herança de um tio distante que não conheci. Talvez seja a mulher do apartamento ao lado querendo ajuda para consertar o chuveiro, ou uma velhinha precisando de uma xícara de açúcar. A campainha não para, e além de bater na porta, agora chama meu nome. - Tem uma voz agradável, lembra o timbre do Scott Walker – penso. Quem sabe possa ser um cobrador, aqueles malditos não perdoam dívidas de jogo, era questão de tempo até me acharem. Mas chamam por meu nome completo, meu nome de verdade, não podem ser os cobradores nem os agiotas. Talvez seja um amigo de infância que decidiu fazer uma visita e perguntar como me sinto. – Bobagem, não tenho mais amigos, ninguém do passado sabe que moro aqui. – refuto de imediato a ideia. Deu uma pausa. Acho que se foi. Mas não, merda. A campainha agora toca sem intervalos, o cidadão aperta e segura a chave fazendo o aparelho berrar a todo volume. Bate na porta com violência incitando a fúria do vira-latas que a essa hora já acordou o prédio inteiro. Me chama mais duas vezes e depois silêncio.

Ainda consigo escutar os passos pesados e irritados se distanciando no corredor.

– Que loucura, seria Jesus vestido de mendigo para testar minha fé? – 


Por: Rimini Raskin